Entrevista com Fernando Lugo, Presidente eleito do Paraguai

J. Marirrodriga    24.Abr.08    Outros autores

Fernando Lugo
A eleição do bispo Fernando Lugo para a presidência do Paraguai configura mais uma derrota do EUA na América latina. Será agora muito difícil para Washington manter a base militar que instalou no país, próximo da fronteira da Bolívia. A primeira prioridade para Lugo é a renegociação com o Brasil do preço da energia de Itaipu, projecto a que o governo de Lula se opõe.

Sentado na sala da sua casa de Assunção, um modesto quarto onde numa parede chama a atenção a reprodução de um São Pedro pintado pelo Greco, Fernando Lugo, o presidente eleito do Paraguai diz-nos qual será a medida mais importante que tomará no inicio do seu mandato.: «Em 2009 a reforma da Constituição deve figurar na Agenda. A actual Constituição não produziu o efeito esperado. Para garantir a independência do Poder Judicial será preciso mudar os seus mecanismos. Temos que garantir a que a Justiça seja apolítica», sublinha muito sério.
Pergunto-lhe se introduzirá um artigo permitindo a reeleição. Ele permanece em silêncio e sorri, olhando para o lado, o que provoca também o riso de outras pessoas presentes. Mas não responde.
Lugo organizou uma coligação de nove partidos e aplica na política a mesma prudência que o leva a medir cada palavra quando se refere à relação com o Vaticano. Ele personifica, mais claramente do que muitos políticos, a dualidade do ser humano.

«Venho de uma família que carrega a politica no sangue», reconhece este homem que trocou o púlpito pela tribuna quando, a 29 de Março de 2006, encabeçou uma manifestação de milhares de pessoas contra o presidente Nicanor Duarte.
O paradoxo reside no facto de Lugo, nascido em 1951 em San Pedro, proceder de uma família tradicional do Partido Colorado, o mesmo a cuja hegemonia pôs termo no último domingo. ´É sobrinho de Epifânio Mendez Fleitas, um líder histórico dos Colorados que se opôs ao ditador Alfredo Stroessner do mesmo partido.

«Os meus pais estiveram presos durante mais de 20 anos e alguns dos meus irmãos sofreram torturas e viveram no exílio» – recorda.
Desde que recebeu ordens como sacerdote, em 1977,esteve sempre ao lado dos que exigiam justiça social: «a minha vida é inseparável da opção pastoral pelos pobres».
Isso aconteceu primeiro como missionário no Equador e depois no Paraguai.
Mas esse compromisso social, transparente em épocas de turbulência politica, não o conduziu a qualquer choque com a hierarquia católica, que o promoveu, enviando-o a Roma para finalmente, o nomear bispo em 1994.
«Meus irmãos os bispos» é a expressão que utiliza ao referir-se à hierarquia da Igreja Católica.
Mas João Paulo II afastou-o em 2005 como bispo da sua actividade episcopal, e Bento XIV suspendeu-o a divinis (proibição de administrar alguns sacramentos e de ensinar doutrina) em 2007.

No momento o Vaticano ainda não comentou a vitória de Lugo, que não usa o anel de bispo, mas aceita ser tratado por monsenhor. O São Pedro do Greco é a única imagem religiosa na sua sala, mas partilha o espaço com uma foto sua num comício.

Ninguém dirá ao escutá-lo que foi alvo de sanções canónicas.
«Estou à disposição da decisão que o Vaticano tomar sobre mim, como filho da Igreja. Quero pertencer a esta Igreja que tanto amo, mas pretendo chegar a um compromisso» – comenta, referindo-se a rumores de afastamento iminente decidido por Roma. Mas logo se define como «um bispo rebelde».

A mesma dualidade é identificável nas suas palavras quando entra no terreno político.
«Eu não subscrevo qualquer ideologia de esquerda» – costuma dizer, mas simultaneamente reconhece eu que a vitória alcançada no domingo nas urnas «pela Aliança é uma vitória da nova esquerda latino-americana».
E sem transição matiza a afirmação: «Alguns dos partidos que formam a Aliança mantêm uma relação explícita com governos progressistas da América Latina. Mas outros sectores, mais conservadores, adoptam também uma postura firme.»
É uma técnica que se aplica ao resto do panorama político.

É indispensável uma mesa de reconciliação nacional» -sublinha, mas não esclarece se está disponível para governar o Paraguai com os seus rivais.

Nem sequer revela se prefere o futebol o basquetebol. «Pratiquei ambos» -responde.

E qual é o seu segredo-pergunto – para que interesses opostos não se choquem?

´«Administrar os conflitos», responde, e volta a sorrir


ALGUMAS DATAS IMPORTANTES

. 1811- O Paraguai proclama a independência, rompendo com a Espanha. José Rodriguez de Francia, filho de um português, é o primeiro líder do país, e dirige-o ate 1840.

. 1864-1870- A guerra da Tripla Aliança leva ao choque do Paraguai com o Brasil, a Argentina e o Uruguai. O Paraguai é derrotado.

. 1932-1935-
Guerra entre o Paraguai e a Bolívia pelo controle da região do Grande Chaço. A Bolívia é derrotada e o Paraguai anexa um extenso território. Essa guerra resultou do choque de interesses, na luta pelo petróleo, entre a Shell e a Standard Oil (actual Exxon).

. 1947-1954- Guerra civil no Paraguai e reaparecimento do Partido Colorado, que governará o pais no final do século XIX e no inicio do XX.

. 1954- 1989 – Ditadura do general Alfredo Stroessner

. 2008- Fernando Lugo põe termo a 61 anos de presença do Partido Colorado no Poder

Tradução de Mário Ferreira.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos