Reafirmação de Solidariedade com as FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia



Miguel Urbano Rodrigues reafirma neste artigo a sua solidariedade com as FARC, que estão a ser alvo nestes dias de ataques e calúnias inseparáveis de uma campanha anticomunista de âmbito mundial. E define Manuel Marulanda como um grande revolucionário latino-americano do século XX.

Manuel Marulanda

No dia em que escrevo este artigo o secretariado do Estado Maior das FARC não se pronunciou ainda sobre a operação cujo desfecho foi o «resgate» de Ingrid Betancourt ,de três agentes norte-americanos da CIA e de onze militares colombianos.

Milhares de comentários, analises e interpretações foram dedicados ao acontecimento em dezenas de países. A esmagadora maioria glorifica a franco-colombiana, enaltece o presidente Álvaro Uribe, calunia as FARC ou opta por exercícios especulativos na tentativa de explicar o que se passou.

Uma certeza emerge desde já dessa torrente mediática de desinformação: a versão oficial do Governo e do Exército colombiano é um novelo de mentiras e contradições.

A primeira inverdade surge como preâmbulo do auto elogio uribista: o «resgate» de Ingrid teria sido uma façanha 100% colombiana, concebida pelos estrategos do presidente, minuciosamente elaborada pela inteligência militar e executada pelo Exército. Nas declarações de Álvaro Uribe, dos seus ministros e generais abundam pormenores folhetinescos. Talvez venham a inspirar um realizador de Hollywood.

O primeiro desmentido indirecto, incomodo, veio do embaixador de Bush em Bogotá. Ainda desconhecedor do discurso oficial, o diplomata revelou que a cooperação dos EUA no plano foi decisiva. Simultaneamente, o Pentágono dizia o mesmo por outras palavras, valorizando a assessoria militar, a ajuda tecnológica, o uso dos meios electrónicos, de satélites, etc.

A França de Sarkozy também se orgulha de ter «colaborado».

Em Tel Aviv, o diário Haaretz qualificou de muito importante, talvez «decisivo», o envolvimento de elementos do serviço de inteligência israelense na preparação da «operação de resgate».

Com poucas excepções, Ingrid Betancourt foi guindada a heroína da humanidade pelas cadeias de televisão, jornais e rádios, de Washington a Paris, de Londres a Lisboa. Mas não tenho conhecimento de que algum desses media considere pelo menos insólito que ela tenha definido Uribe como um «grande presidente», merecedor de um terceiro mandato (inconstitucional). Não estranharam também que ela tenha abraçado comovida o general Mario Montoya.

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Nestes dias em que chovem ataques e calunias sobre as FARC recordei um texto em que Lenine, a propósito do fluxo e refluxo dos períodos revolucionários, e do comportamento da maioria dos políticos quando a maré sobe e baixa, lembrava que é nas situações históricas marcadas pela arrogância das forças reaccionárias que mais nítida surge a fronteira entre os revolucionários e aqueles que não o são.

Fugiria à verdade se negasse que não fui afectado emocionalmente pelos golpes que desde o inicio do ano atingiram as FARC. Fui amigo do comandante Raul Reyes – assinado num bombardeamento pirata que violou a soberania do Equador - e senti profundamente a morte de Manuel Marulanda, o legendário comandante chefe da guerrilha-partido marxista leninista. Identifiquei nele desde a juventude um herói da América Latina.

Mas esses golpes, em vez de atenuarem a minha solidariedade com as FARC contribuíram para a fortalecer.

Em Portugal a desinformação não difere muito do que vai pela Europa. A máscara humanitária não consegue ocultar os objectivos ideológicos. A apologia de Ingrid Betancourt (que diziam estar quase moribunda, mas parece estar afinal de boa saúde) é um verniz que disfarça mal uma intensa campanha anticomunista. Enquanto felicitam Uribe pela sua tenacidade como defensor inquebrantável da democracia, os media lusitanos entoam já um requiem antecipado pelas FARC e entregam-se a exercícios de futurologia sobre o seu fim iminente.

Esse frenesi anti-FARC não tem o poder de fazer História. Julgo útil sublinhar que o «resgate» de Ingrid – uso as aspas porque as circunstancias em que ela foi libertada são ainda nebulosas – não tem qualquer significado militar, não obstante configurar uma vitória politica de Uribe.

O governo conseguiu infiltrar gente sua em algumas frentes. Milhões de dólares são oferecidos pelas cabeças dos membros do Secretariado e de outros dirigentes. Foram espiões os responsáveis pela morte do comandante Ivan Rios. As FARC não negam as dificuldades resultantes de traições não esperadas.

Mas o panorama da luta não justifica atitudes de desalento. Em Maio e Junho destacamentos da guerrilha, que continua activa em dezenas de frentes, da selva amazónica ao litoral do Pacifico, da Serra Nevada e do Arauco aos vales das três cordilheiras andinas infligiram ao Exército e à Polícia Militar duras derrotas. Os próprios comunicados do Exército registam a existência de importantes perdas em combate.

O andamento da História não tardará a desmentir as previsões triunfalistas de Uribe e dos seus generais.

Mas não foi sem amargura que registei declarações não esperadas sobre as FARC de personalidades que durante anos foram solidárias com a sua luta. Tenho em mente particularmente as de dirigentes progressistas latino- americanos com responsabilidades a nível de Estado.

Choca-me que venham somar as suas vozes às do coro de epígonos de Uribe.
Esses homens, que admiro e respeito, não ignoram que Uribe – cujo nome figura nos ficheiros de narcotraficantes da Drug Enforcement Agency e da CIA – foi, quando governador do Departamento de Antioquia, um dos ideólogos e financiadores dos grupos de paramilitares. Uribe é responsável pela chacina de dezenas de milhares de camponeses e pelos bombardeamentos com glisofato que envenenaram rios da Amazónias, difundiram o cancro e outras doenças entre as populações do Putumayo e do Caquetá e tornaram improdutivos milhares de hectares de terras férteis. É esse criminoso que presidentes da União Europeia felicitam agora como exemplo do combatente democrata antiterrorista.

É também chocante ver, em fotos difundidas pelo mundo, Ingrid a abraçar comovida o general Mário Montoya, comandante chefe do Exército da Colômbia. Ela foi candidata à Presidência da Republica e senadora. Não ignora que o general que tanto admira foi o criador de uma unidade terrorista clandestina, da Aliança Anticomunista Americana – AAA – promotora de matanças maciças de militantes de esquerda colombianos e de camponeses do Chocó. Foi também sob o seu comando que se realizou o famoso massacre da Comuna 13 de Medellin, recordado por Uribe quando o elogiou pela libertação de Ingrid.

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Dentro de poucos anos, Álvaro Uribe somente será recordado como o presidente responsável pelo agravamento da tragédia colombiana. Foi e é o mais fiel aliado de George Bush na América Latina. Invocando a necessidade de levar adiante uma politica de segurança nacional, executou uma política de terrorismo de Estado sem precedentes desde o Bogotazo de 48. Arruinou o pais, transformando-o numa semi colónia dos EUA e inaugurou um estilo de governo de contornos fascistas.

As Forças Armadas Colombianas, com quase 400.000 homens (e mulheres) são hoje as mais poderosas da América Latina, dispondo de armas equipamentos e tecnologia que Washington somente fornece a Israel.

Mas, apesar das dezenas de milhares de milhões de dólares investidos na militarização do Estado com o objectivo de destruir as FARC, essa meta não foi alcançada.

Quando a poeira da historia assentar o que das FARC deixará memoria não serão as acusações e a calúnias que hoje as apresentam como guerrilha de bandoleiros e narcotraficantes, mas o seu combate de quase meio século em defesa de uma Colômbia livre, democrática, progressista.
Há 170 anos não houve injúria que a oligarquia colombiana não despejasse sobre Simon Bolívar, desde aristocrata louco, a Bonaparte latino-americano e ditador sanguinário.

Não pretendo estabelecer paralelos. Mas acredito que o nome de Manuel Marulanda será recordado em futuro não distante como o grande revolucionário colombiano do século XX.


Serpa, 5 de Julho de 2008

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