A única economia viável

István Mészáros*    09.Nov.06    Colaboradores

István Mészáros
István Mészáros , um dos mais eminentes marxistas contemporaneos- foi discipulo de Gyorgy Lukacs - reflecte neste lúcido ensaio sobre a incapacidade de o capitalismo , em crise estrutural irreversivel, encontrar solução para os problemas globais que enfrenta .
Daí conclui que o socialismo do século XXI ser a unica solução viável para os perigos que a Humanidade enfrenta .

Crescimento Qualitativo:
A Única Economia Viável.

No passado, o modo de produção capitalista representou um grande avanço sobre os precedentes, pese embora este avanço tenha acabado por se tornar – e tinha mesmo de se tornar — problemático e destrutivo. Ao quebrar o longamente prevalecente mas restringidor elo entre o uso e a produção, e ao substitui-lo pela relação de mercadoria, o capital criou a possibilidade de expansão aparentemente imparável à qual — do ponto de vista do sistema do capital – não haveria limites concebíveis. A lógica do sistema de produção do capital – contraditória e, no limite, insustentável – é a de que as suas mercadorias são “não-valores de uso para os seus proprietários e valores de uso para os seus não proprietários. Consequentemente, elas devem mudar de mãos. … Portanto, as mercadorias devem ser realizadas como valores antes que possam ser realizadas como não-valores.”[1]
É esta auto-contraditória determinação interna do sistema, que obriga à submissão das necessidades humanas à alienante necessidade de expansão do capital, que impossibilita qualquer controle racional sobre esta ordem produtiva dinâmica. Ela carrega consigo perigosas e potencialmente catastróficas consequências a longo prazo, transformando um grande potencial positivo de desenvolvimento numa devastadora negatividade.
Aquilo que é sistematicamente ignorado – e tem que ser ignorado, se atendermos aos imperativos feiticistas e aos interesses intrínsecos do próprio sistema do capital – é o facto de que, inescapavelmente, vivemos num mundo finito, com os seus limites objectivos. Durante muito tempo na história humana, incluindo vários séculos de desenvolvimentos do tipo capita-lista, tais limites puderam ser ignorados – como de facto foram - com rela-tiva segurança. Chegámos porém a uma época histórica em que já não é possível continuar a ignorá-los, qualquer que seja o sistema produtivo irracional e desperdiçador, não importa quanto dinâmico ele possa ser (de facto, quanto maior for o seu dinamismo, pior). Poderá ignorá-los por algum tempo, procurando a preservação do sistema mais ou menos a qualquer custo, com base no discurso de que “não há alternativa” e, sendo necessário, suprimindo brutalmente até os mais óbvios sinais indicadores de um futuro insustentável.
A falsa teorização é o resultado inevitável desta determinação estrutural objectiva desbalançada e da dominação do valor de uso pelo valor de troca, não só sob as mais absurda e cegamente apologéticas condições do capitalismo contemporâneo, mas também no clássico período da política económica burguesa, no período da ascensão histórica do sistema do capital. Isto acontece porque, sob o domínio do capital, uma produção ficticiamente ilimitada deve ser perseguida a todo o custo. Este objectivo é imperativo, mesmo se não houver qualquer garantia de que (1) a necessária “mudança de mãos” das mercadorias produzidas vai-se realizar no mercado (graças à misteriosa benevolência de Adam Smith e da sua ainda mais misteriosa “mão invisível”); e (2) as condições materiais objectivas para a produção ilimitada – e humanamente ilimitável, dado o divórcio entre a necessidade e o uso – de mercadorias pode ser assegurada eternamente, apesar do im-pacto do modo de reprodução do capital sobre a natureza, e consequentemente sobre as condições elementares da própria existência humana.
A capacidade do mercado para corrigir o defeito evidenciado em (1) acima é um pensamento gratuito tardio que acarreta com ele muitas assunções arbitrárias e projecções reguladoras irrealistas. A sóbria realidade que subjaz ao mercado como tardio pensamento terapêutico é um conjunto de relações de poder insuperavelmente adversárias, tendentes à dominação monopolista e à intensificação dos antagonismos do sistema. De mesmo modo, o grave defeito estrutural de perseguir a expansão ilimitada do capital – idealizando o “crescimento” como um fim em si mesmo —, como evidenciado no ponto (2) acima, é complementado por uma igualmente fictícia conside-ração a posteriori quando se é forçado a admitir que são necessárias algumas medidas correctivas. E o remédio assim idealizado – como alternativa ao colapso do sistema na negatividade do “estado estacionário” idealizado pela economia burguesa do século dezanove – é simplesmente a advocacia de uma distribuição “mais equitativa” (e portanto menos geradora de conflitos) deixando o sistema de produção inalterado. Este postulado, mesmo se fosse possível realizá-lo — o que seguramente não é possível, devido às determinações estruturais hierárquicas fundamentais da própria ordem social capitalista – não seria capaz de resolver nenhum dos graves problemas da produção sobre os quais se erigem também as insolúveis contradições da incurável distribuição do sistema capitalista.
Um dos principais representantes do pensamento liberal, John Stuart Mill, é tão genuíno na sua preocupação acerca do “estado estacionário” do futuro como é desesperadamente irrealista no remédio que propõe. Ele apenas oferece uma vaga esperança na sua abordagem deste problema, o qual sucede ser absolutamente insolúvel do ponto vista do capital. Ele escreve que “desejo sinceramente que, para o bem da posteridade, que eles se conten-tem com serem estacionários, bem antes de serem compelidos a tal”. [2] Deste modo, o discurso de Mill não é mais do uma pregação paternalista, já que se limita a aceitar, em consonância com o diagnóstico Malthuseano, as dificuldades decorrentes do aumento de população, mas nenhuma das contradições da ordem reprodutiva capitalista. A sua auto-complacência burguesa é claramente perceptível, retirando à sua análise e às suas paternalistas intenções reformistas toda a essência. Mill afirma peremptoriamente que “é apenas nos países mais atrasados do mundo que o crescimento da produção é ainda um objectivo importante: nos mais avançados, o que é economicamente necessário é uma melhor distribuição, da qual um meio indispensável é uma mais estrita limitação da população (restraint on population).”[3] Até mesmo a sua ideia de “ melhor distribuição” é completamente irrealista. Porque o que Mill não consegue perceber (ou admitir) é que o aspecto mais importante da distribuição é a intocável apropriação exclusiva dos meios de produção pela classe capitalista. Compreensivelmente, portanto, prevalece um sentido paternalista de superioridade, segundo o qual não haverá solução até que “as melhores mentes consigam educar as outras” [4] de forma a que estas aceitem a limitação da população e a “melhor distribuição” que, supostamente, se lhe seguirá, em consequência de tal limitação. Deveríamos portanto esquecer tudo acerca da mudança das determinações estruturais destrutivas da ordem metabólica social estabelecida que inevitavelmente conduzirão a sociedade para um estado estacionário. No discurso de Mill, a utopia do milénio capitalista, com o seu estado estacionário, deverá a sua existência aos bons serviços das iluminadas “melhores mentes” liberais. E então, no que respeita às determinações estruturais da ordem reprodutiva social estabelecida, tudo poderá continuar a ser como antes, para sempre.
Tudo isto fez algum sentido de um ponto de vista do capital, por muito que tal sentido acabe finalmente por se tornar problemático e insustentável, devido ao dramático desenvolvimento e inexorável aprofundamento da crise estrutural do sistema. Mas nem mesmo esse sentido parcial de tais proposições bem intencionadas pode ser atribuído ao movimento político reformista que reclamou representar o interesse estratégico do operariado. O reformismo social democrata, no seu começo, buscou inspiração nestas inocen-tes, ainda que inicialmente genuinamente defendidas, proposições da economia política liberal. Posteriormente, e devido à lógica dos interesses do capital, indiscutível controlador do metabolismo reprodutivo, foi sem sur-presa que o reformismo social democrata acabou o percurso do seu desenvolvimento da forma como o fez: transformando-se no “New Labour” (na Grã-Bretanha; e nos seus equivalentes em outros países) e abandonando completamente qualquer preocupação com mesmo a mais limitada reforma da ordem social estabelecida. Simultaneamente, em vez de liberalismo genuíno, subiram ao palco da história as mais selvagens e inumanas variedades de neoliberalismo apagando a memória dos remédios sociais anteriormente defendidos – incluindo as bem intencionadas soluções paternalistas – do passado progressista do credo liberal. Ironia amarga do desenvolvimento histórico contemporâneo, o “New Labour” agora instalado nos go-vernos não só na Grã-Bretanha mas também um pouco por toda a parte no mundo capitalista “avançado” e também no não tão avançado, não hesitou em identificar-se sem reservas com a fase neoliberal dos apologistas do capital. Esta transformação capitulatória marcou claramente o fim da estrada reformista que, desde o seu início, era um beco sem saída.
Com vista a criar uma ordem reprodutiva social historicamente sustentável e economicamente viável é necessário alterar radicalmente as determinações internas auto-contraditórias da ordem estabelecida, a qual impõe a impiedosa submissão do uso e da necessidade humana à alienante necessidade da expansão do capital. Isto quer dizer que a absurda pre-condição do sistema produtivo dominante – em que os valores de uso são divorciados de, e opostos a, aqueles que os criam, de modo a arbitrariamente legitimar a alargada auto-realização do capital – tem que ser relegada para o passado, de forma permanente. Se não for assim, o único significado viável de economia como utilização racional de recursos disponíveis, necessariamente finitos, não poderá ser instituído e respeitado como princípio orientador. Em vez disso, o desperdício irresponsável domina na ordem socio-económica do capital – e correspondente ordem política –, a qual invaria-velmente aparece como irresponsabilidade institucional, apesar da sua auto apregoada mitologia da absolutamente insuperável “eficiência”. (O tipo de “eficiência” glorificada é de facto a eficiência (no limite, auto-destruidora) do capital para fortalecer as partes à custa do todo).
A concepção actualmente dominante de “economia” — a qual acontece ser completamente incapaz de estabelecer limites até para o mais grave desperdício, nos nossos dias verdadeiramente à escala planetária – para poder operar, tem de criar tautologias, falsas oposições e pseudo alternativas, com o propósito de se auto-justificar. Numa flagrante – e perigosamente infecciosa – tautologia, é-nos proposta a definição arbitrária de produtivi-dade como crescimento, e de crescimento como produtividade, embora ambos os termos requeiram uma avaliação historicamente qualificada e objectivamente sustentável. Naturalmente, a razão por que o sistema prefere a óbvia falácia tautológica à apropriada avaliação teórica e prática é que decretando arbitrariamente a identidade destes dois termos de referência cha-ve do sistema do capital, a validade evidente e a superioridade eterna de uma ordem social produtiva extremamente problemática – e, no limite, auto-destrutiva – pareceria não só plausível mas também absolutamente in-questionável. Ao mesmo tempo, a arbitrariamente decretada identidade tautológica de crescimento e produtividade é complementada com a igualmente arbitrária e falsa alternativa entre “crescimento ou não-crescimento”. Mais, esta última é colocada em termos da definição capitalista de “crescimento”. É projectada e definida, com uma quantificação fei-ticista, como servindo a via — nas suas pretensões, absurdamente intemporal, apesar de, na realidade, estritamente, histórica — de pressupor para sempre, como sinónimo auto-recomendado do próprio crescimento — nada de mais específica e humanamente significativo do que a genericidade abstracta da expansão alargada do capital como a precondição elementar para satisfazer as necessidades humanas.
É aqui que o incorrigível divórcio entre o crescimento capitalista, por um lado, e a necessidade e o uso humano, por outro – de facto a sua potencialmente mais devastadora e destrutiva contraposição à necessidade humana – se atraiçoa. Uma vez desmascaradas as mistificações feiticistas e os postulados arbitrários que estão na raiz da falsa identidade do crescimento e produtividade, torna-se abundantemente claro que este tipo de crescimento não é inerentemente ligado a objectivos sustentáveis que correspondam às necessidades humanas. A única ligação defendida a todo o custo no universo metabólico social do capital é a falsa identidade — aprioristicamente pressuposto – do capital-expansão e o correspondente “crescimento”, quaisquer que possam ser as consequências impostas à natureza e à espécie humana pelo mais destrutivo tipo de crescimento. Porque a única preocupação que realmente conta para o capital é a sua própria expansão, mesmo se tal acarreta consigo a destruição da humanidade.
Nesta versão, até o mais canceroso crescimento deve preservar a sua primazia conceptual sobre e contra a necessidade e o uso humano, se por acaso a este aspecto for dada alguma consideração. E quando os apóstolos do sistema capitalista estão desejosos de considerar Os Limites do Crescimento,[5] como fez o “Clube de Roma” em operação vastamente propagandeada no início dos anos 70’s, o objectivo permanece inevitavelmente a eternização das graves desigualdades existente,[6] através do congelamento artificial (e quixotesco) da produção capitalista global a um nível insustentável, culpando primariamente “o crescimento da população” (como é costume na economia política burguesa desde Malthus) pelos problemas existentes. Comparado com tão cruel e hipócrita “tentativa de remédio”, aparentemente preocupado com nada menos que “The Predicament of Mankind” (“O Estado da Humanidade”), o discurso paternalista de John Stuart Mill, com a sua genuína defesa de uma distribuição de algum modo mais equitativa do que aquela com que ele estava familiarizado, foi o paradigma do esclarecimento radical.
A falsa alternativa do “crescimento ou não-crescimento” é evidente, mesmo se apenas consideramos aquilo que seria o impacto inevitável do postu-lado “não-crescimento” nas graves condições de desigualdade e sofrimento na ordem social capitalista. Significaria a condenação permanente da esmagadora maioria da humanidade às condições inumanas que lhe são impostas agora. Porque milhares de milhões estão agora forçados a sofrer tais condições, numa altura em que poderia ser criada uma alternativa real a tal situação. Ou seja, numa altura em que seria perfeitamente possível corrigir pelo menos os piores efeitos da privação global: pondo ao serviço da humanidade o potencial de produtividade actual, num mundo em que os recursos materiais e humanos são hoje criminosamente desperdiçados.
Falamos apenas do potencial de produtividade positivo, e não da realidade existente, como tantas vezes apregoado com boas intenções mas com ilusões ilimitadas, por reformadores antiquados, apregoando que o podería-mos fazer “agora já”, com as forças produtivas à nossa disposição hoje, se assim o decidíssemos. Infelizmente, porém, tal concepção ignora comple-tamente o modo como o nosso sistema produtivo está presentemente articulado, requerendo futuramente uma re-articulação radical. A produtivida-de associada ao crescimento capitalista, sob a forma da agora dominante realidade de produção destrutiva, é um enorme obstáculo. Para transformar o potencial positivo do desenvolvimento produtivo em realidade, por forma a corrigir muitas das gritantes injustiças e desigualdades da nossa socieda-de, seria necessário adoptar os princípios reguladores de uma ordem social qualitativamente diferente. Por outras palavras, o potencial de produtividade da humanidade, agora impedido de se desenvolver, teria de ser libertado da sua carapaça capitalista por forma a transformar-se em poder produtivo socialmente viável.
A proposta quixotesca de congelar a produção nos níveis atingidos no iní-cio dos anos 1970’s destinava-se a camuflar, com argumentos pseudo científicos criados no Massachussets Institute of Technology, as relações de poder cruelmente impostas pelo imperialismo do pós-guerra, dominado pelos EUA. Esta variedade do imperialismo era, sem dúvida, muito diferente da sua forma anterior, conhecida por Lénine. Durante a vida de Lénine, pelo menos meia dúzia de potências imperialistas competiam entre si. E ainda nos anos 1930’s Hitler tentava partilhar os frutos da violenta redefinição do imperialismo com o Japão e com a Itália de Mussolini. No nosso tempo, pelo contrário, temos que enfrentar a realidade – e os seus perigos mortais – que emerge de um imperialismo global hegemónico, com os EUA como potência esmagadoramente dominante. Por contraste com Hitler, os EUA não têm qualquer intenção de partilhar a dominação global com qualquer rival. E isto, não apenas nos níveis político e militar. Os problemas são muito mais profundos. Eles desenvolvem-se através das cada vez mais graves contradições do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo. O imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA é uma tentativa – no limite, fútil – para encontrar uma solução para essa crise, por meio do mais brutal e violento domínio do resto do mundo, imposto com ou sem a colaboração de “aliados voluntários”, e, neste momento, através de uma sucessão de guerras genocidas. Desde os anos 1970’s que os EUA têm vindo a afundar-se cada vez mais fundo num endividamento catastró-fico. A solução fantasista apregoada por vários presidentes dos EUA era a de “crescer para fora dele” (to grow out of it). Mas o resultado foi o diametralmente oposto, sob a forma de um endividamento astronómico que não para de crescer. É por isso que os EUA procuram apoderar-se, seja por que meio for — incluindo a mais violenta agressão militar, e sempre que necessária para este propósito — tudo o que for possível, pela transferência dos frutos do crescimento capitalista em qualquer parte do mundo – graças à dominação socio-económica e política/militar dos EUA, agora a potência mundial única dominante. Pode alguma pessoa sã [de espírito] — não im-porta quão bem couraçada pelo seu calejado desprezo pelo «shibboleth da qualidade» — imaginar que o imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA iria tomar a sério, mesmo por um momento, a panaceia do «não crescimento»? Apenas a pior má fé poderia sugerir tais ideias, ainda que pretensiosamente embaladas com a hipócrita preocupação com “The Predicament of Mankind”.
Por uma variedade de razões não pode haver qualquer dúvida acerca da importância do crescimento, tanto no presente como no futuro. Mas esta afirmação requer uma adequada análise do conceito de crescimento, não só tal como o conhecemos hoje, mas também no sentido em que o podemos prever no futuro. O facto de sermos favoráveis ao crescimento não significa que sejamos favoráveis a qualquer crescimento. A verdadeira questão, tendenciosamente evitada, é: que tipo de crescimento é hoje viável, por oposição ao crescimento capitalista que vemos à nossa volta, com o seu desperdício ameaçador e com os severos estragos que causa? Porque o crescimento terá de ser positivamente sustentável no futuro, a longo prazo.
Como já mencionado, o crescimento capitalista é marcado indelevelmente pelos limites da quantificação feiticista. O crescente desperdício de recursos é um corolário inevitável de tal feiticismo, pois não há critério possível – nem medida viável – a partir do qual o desperdício pode ser corrigido. O contexto é definido por uma quantificação mais ou menos arbitrária, criando a ilusão de que quando as quantidades requeridas pelos mais poderosos forem conseguidas, os problemas estão resolvidos. A verdade porém é que a quantificação auto-orientada não constitui uma estratégia sustentável, nem mesmo no curto prazo, pois ela deriva de uma visão parcial e míope (senão mesmo cega), preocupada apenas com as quantidades correspon-dentes aos obstáculos imediatos que impedem a realização de uma dada tarefa produtiva, mas não com os limites estruturais socio-económicos que – quer o saibamos, quer não —, no limite, são determinantes. A confusão (obrigatória, no sistema capitalista) entre limites estruturais e obstáculos (que podem ser quantitativamente ultrapassados), leva a que os limites sejam ignorados (já que eles correspondem a determinações incontornáveis da ordem metabólica social do capita) originando uma orientação do crescimento do sistema produtivo na sua globalidade. Para o crescimento ser viável teríamos que o modificar através da aplicação de medidas profundamente qualitativas. Mas tal não é permitido pela inquestionável e inquestionada tendência para a auto expansão a todo o custo do capital, a qual (tendência) é incompatível com as restrições impostas pela consideração de qualidade e limites.
A grande inovação do sistema capitalista é que ele pode operar – de forma não dialéctica – através de esmagadora dominação pela quantidade: tudo, incluindo o trabalho humano (inseparável das qualidades da necessidade e do uso humano), é abrangido pelas determinações quantitativas abstractas, na forma de valor e de valor de troca. Desta forma tudo se torna mensurável e manejável de forma lucrativa, por um certo período de tempo. Este é o segredo do triunfo socio-histórico do capital (por muito tempo irresistível). Mas é também o prenúncio da sua insustentabilidade e necessária implosão, quando forem atingidos os limites absolutos do sistema (por oposição aos seus limites relativos, correspondentes a expansão-obstáculos produtivamente superáveis), como vai acontecendo, cada vez mais, na nossa época histórica. Esse é o momento em que a não-dialéctica dominação da qualidade pela quantidade se torna perigosa e insustentável. Porque não é possível continuar a ignorar, no nosso tempo, a ligação intrínseca fundamental (mas marginalizada sob o capitalismo) – que deve ser agora conscientemente adoptada como uma orientação reguladora vital – entre economia e economizar (e que corresponde a produzir responsavelmente. Num ponto crítico do tempo histórico quando as vontades personificadas do sistema produtivo dominante fazem tudo ao seu alcance para eliminar toda a consciência daquela conexão objectiva vital, optando inquestionavelmente por uma atitude de destruição, não apenas pelo culto de práticas produtivas extremamente gastadoras de recursos mas também pela glorificação do seu envolvimento em “guerras preventivas e preemptivas ”.
A qualidade, pela sua própria natureza, é inseparável de especificidades. Assim, um sistema metabólico social que respeite a qualidade – acima de tudo as necessidades dos seres humanos como seus sujeitos produtores – não pode ser estritamente regulado por via hierárquica. Um tipo radicalmente diferente de gestão socio-económica e cultural é necessário para uma sociedade operada na base de um tal metabolismo reprodutivo qualita-tivamente diferente, sumariamente descrito como autogestão (self-management). Tal controle estrito foi não só viável como necessário na ordem social metabólica do capitalismo. De facto, a estrutura de comando do capital não poderia funcionar de outro modo. Hierarquia estrutural e controle autoritário são características definidoras da estrutura de comando do capital. A ordem alternativa é incompatível com qualquer controle estrito e com o tipo de contabilidade – incluindo a operação estritamente quantitativa do tempo de trabalho necessário – prevalecente no sistema capitalista. Assim, o tipo de crescimento necessário e viável na ordem metabólica social alternativa só poderá ser baseado em qualidade directamente ligada às necessidades humanas: as necessidades da sociedade no seu conjunto e as necessidades dos seus indivíduos. Simultaneamente, a alternativa à conta-bilidade restritiva e feiticista do tempo de trabalho necessário é o libertador e emancipador tempo disponível conscientemente gerido e oferecido pelos próprios indivíduos sociais. Este tipo de controle metabólico social dos recursos humanos e materiais disponíveis respeitaria os limites globais que derivam do princípio orientador de da correspondência entre “economia” e “economizar” e, ao mesmo tempo, ampliaria tais limites à medida que a evolução das condições históricas o permitissem. No final de contas, não nos podemos esquecer que “o primeiro acto histórico foi a criação de uma nova necessidade” (Marx). É a forma irresponsável como o capital trata a economia – não como uma forma racional de economizar, mas sim como a mais irresponsável legitimação do desperdício sem limites – o que perverte completamente este processo histórico: ao substituir a necessidade humana pela sua exclusiva e alienante necessidade de permanentemente e a todo o custo se auto reproduzir, é o capital que ameaça pôr fim à própria história humana.
Não é possível introduzir correcções parciais no quadro operacional do capital, se elas forem genuinamente orientadas para a qualidade, pois as qualidades relevantes a este respeito não são características físicas abstractas mas sim qualidades humanamente significantes, inseparáveis das necessidades humanas. Como foi salientado anteriormente, é verdade que tais qualidades são sempre específicas, correspondendo a determinadas neces-sidades humanas claramente identificáveis, tanto dos indivíduos, eles próprios, como das suas relações sociais em evolução num dado momento histórico. Assim, na sua multifacetada especificidade elas constituem um conjunto coerente e bem definido de determinações sistémicas, com os seus próprios limites sistémicos. É precisamente a existência de tais limites sistémicos – muito longe de serem abstractos – que torna impossível transferir determinações operacionais significantes e princípios orientadores, da ordem metabólica social alternativa para o sistema do capital. Os dois sistemas são radicalmente opostos e excluem-se um ao outro. As qualidades específicas correspondentes às necessidades humanas, na ordem alternativa, têm a marca indelével das determinações globais do sistema, como uma parte integral de um sistema de controle reprodutivo humanamente válido. No sistema do capital, pelo contrário, as determinações globais devem ser inalteravelmente abstractas, porque a relação de valor do capital deve reduzir todas as qualidades (correspondentes às necessidades e ao uso) a quantidades genéricas mensuráveis, por forma a assegurar a sua dominação histórica alienante sobre tudo, no interesse da expansão do capital, quaisquer que sejam as consequências.
As incompatibilidades dos dois sistemas tornam-se muito claras quando consideramos as suas relações com a questão do limite, em si. O único crescimento sustentável positivamente promovido sob o controle metabólico social alternativo baseia-se na aceitação consciente dos limites cuja violação poria em perigo a realização dos objectivos de reprodução escolhidos e humanamente válidos. Assim, o desperdício e a destruição (conceitos limitantes claramente identificados) são absolutamente excluídos pelas próprias determinações do sistema, conscientemente aceites e adoptadas pelos indivíduos sociais como seus princípios orientadores vitais. Por contraste, o sistema do capital é caracterizado, e essencialmente determinado, pela — consciente ou inconsciente — rejeição de todos os limites, incluindo os seus próprios limites como sistema, os quais são arbitrária e perigosamente tratados como se não fossem mais do que obstáculos ocasionais que podem ser sempre superados. Há portanto algo de errado neste sistema de reprodução social, incluindo a possibilidade – e, na época histórica que vivemos, também a séria probabilidade – de destruição total.
Naturalmente, esta relação mutuamente exclusiva em relação à questão dos limites verifica-se também no outro sentido. Ou seja, não há “correctivos parciais” extraídos do sistema do capital que possam ser usados na criação e fortalecimento da ordem metabólica social alternativa. As incompatibilidades parciais – para não dizer gerais – dos dois sistemas têm origem na incompatibilidade radical da sua dimensão do valor. Como referido acima, é por este motivo que as determinações e relações de valor da ordem alter-nativa não podem ser transferidas para o quadro da ordem metabólica social do capital com o objectivo de o “melhorar”, como por vezes é proposto, de forma completamente irrealista, por um certo reformismo casado com a metodologia desmiolada do “pouco a pouco”. As mais pequenas relações parciais do sistema alternativo estão profundamente embebidas nas determinações gerais de valor de um quadro geral de necessidades humanas cujo inviolável axioma elementar é a exclusão radical do desperdício e da destruição, de acordo com a sua natureza mais profunda.
Ao mesmo tempo, por outro lado, não há “correctivos” parciais que podem ser transferidos do quadro operacional do capital para uma ordem socialista genuína, como foi dolorosa e conclusivamente demonstrado pelo falhanço desastroso da experiência de “mercado socialista” de Gorbatchev. Porque também nessas circunstâncias, ver-nos-íamos sempre confrontados com a incompatibilidade radical das determinações de valor, mesmo quando o valor envolvido é um destrutivo contravalor, correspondendo aos limites últimos — necessariamente ignorados — do próprio sistema capitalista. Os limites sistémicos do capital são completamente compatíveis com o desperdício e a destruição. Tais considerações normativas (desperdício, destruição) são necessariamente secundárias para o capital. Determinações mais fundamentais têm prioridade em relação a tais considerações. É por isso que a indiferença original do capital em relação ao desperdício e à destruição (jamais uma atitude mais positiva do que uma mera indiferença) transformou-se na sua activa promoção quando as condições assim o requereram. De facto, desperdício e destruição devem ser obstinadamente fomentados neste sistema, em directa subordinação ao imperativo da expansão do capital, a determinante principal do sistema. E quanto mais assim é, mais fica para trás a fase historicamente ascendente do desenvolvimento do sistema do capital. E não admira que, frequentemente, o conceito de contravalor seja mascarado de “neutralidade” (value-neutrality) por alguns celebrados ideólogos do capital.
Foi portanto com estranheza que, por altura da malfadada “perostroika” de Gorbatchev, ouvimos o seu “Ideólogo Chefe” (oficialmente assim chama-do) afirmar seriamente que o mercado capitalista e as suas relações mercantis eram a incarnação dos “valores humanos universais” e uma “grande conquista da civilização humana”, acrescentando a estas grotescas asserções capitulacionistas que o mercado capitalista era mesmo a “garantia da renovação do socialismo”.[7] Estes teorizadores continuaram a falar acerca da adopção do “mecanismo de mercado”, quando o mercado capitalista é tudo menos um “mecanismo” neutro adaptável. Ele é de facto incuravel-mente carregado de valor, e permanecerá assim. Neste tipo de concepção – curiosamente partilhada pelo “Ideólogo Chefe socialista” de Gorbatchev (e por outros) com os August von Hayeks deste mundo que violentamente denunciaram qualquer ideia de socialismo como “A Estrada para a Servi-dão”[8] — a troca em geral, foi igualada a troca capitalista, e a cada vez mais destrutiva realidade do mercado capitalista foi igualada ao ficcionado e benevolente “mercado” em geral. Quer eles se tenham apercebido ou não, eles capitularam ao construírem idealizações sobre os imperativos de um sistema impiedoso de dominação de mercado (no limite, inseparável da devastação imperialista) imposto pelas determinações internas próprias da ordem metabólica social do capital. A adopção desta posição capitulacionista foi também manifestada, mas de forma ainda mais prejudicial, no documento de Gorbatchev sobre a reforma. Ele insistiu em que
“Não há alternativa ao mercado. Só o mercado pode assegurar a satisfação das necessidades das pessoas, uma distribuição justa da riqueza, direitos sociais, e o fortalecimento da liberdade e democracia. O mercado permitiria à economia soviética estar organicamente ligada à economia mundial, e dar aos nossos cidadãos acesso a todas as conquistas da civilização mundial.” [9]
Naturalmente, dado o completo irrealismo da generosa ideia de “não alternativa” de Gorbatchev, esperando que o mercado capitalista oferecesse generosamente, “às pessoas”, todos aqueles maravilhosos benefícios e conquistas, em todos os domínios, esta experiência só podia terminar como terminou, e de forma humilhante, na desastrosa implosão do sistema de tipo soviético.
Não é acidental nem surpreendente que a afirmação de que “não há alternativa” ocupa um lugar tão proeminente nas concepções sócio-económica e política formuladas de um ponto de vista do capital. Nem mesmo os maiores pensadores da burguesia – como Adam Smith e Hegel – poderiam ser excepções a este respeito. Porque é absolutamente verdade que a ordem burguesa ou consegue afirmar-se na forma de expansão dinâmica do capital, ou está condenada, no limite, ao falhanço. Realmente, não pode haver qualquer alternativa concebível à permanente expansão do capital, do pon-to de vista do capital, por este modo determinando a visão de todos que adoptam este ponto de vista. Mas esta adopção do ponto de vista do capital também significa que não é posta em causa a questão de “qual é o preço a pagar” por esta expansão incontrolável do capital, para além de um certo momento – quando termina a fase ascendente do desenvolvimento do sistema. A violação do tempo histórico é portanto a consequência necessária da adopção do ponto de vista do capital, com a aceitação do imperativo expansionista do sistema como a sua mais fundamental e absolutamente inalterável determinante. Mesmo nas concepções dos maiores pensadores burgueses, prevalece esta posição. Para eles, não poderá nunca existir uma ordem social alternativa cujas características definidoras sejam significativamente diferentes das já estabelecidas. É por isso que até mesmo Hegel, que formulou a, até então, mais profunda concepção histórica, teve também que considerar que o aparentemente inalterável presente do capital era o fim da história, idealizando o estado nacional capitalista[10] como o clímax de todo o desenvolvimento histórico, apesar da sua clara percepção das implicações destrutivas do sistema no seu conjunto.
Portanto, no pensamento burguês, não há alternativa a decretar o princípio de que “não há alternativa”. Mas, para os socialistas, é um absurdo completo adoptar a posição da incessante (e, por sua natureza, incontrolável) expansão do capital. Porque a consequente idealização do “consumo” – de novo, caracteristicamente não qualificado —, ignora a verdade elementar de que, do ponto de vista do capital, não há diferença entre destruição e consumo. Um é tão bom como o outro, para o objectivo pretendido. Isto é assim porque, na relação capitalista – mesmo a de tipo mais destrutivo, corporizada na produção do complexo militar /industrial e o uso que dela é feito nas suas guerras inumanas —, a transação comercial completa o ciclo da auto-reprodução do capital e prepara a abertura de um novo ciclo. Isto é a única coisa que realmente importa ao capital, não importa quais possam ser as consequências. Quer dizer, quando socialistas aceitam o imperativo da expansão do capital como sendo uma condição indispensável para o crescimento, eles não estão a aceitar um princípio isolado, mas sim todo um “pacote negocial”. Conscientemente ou não, eles aceitam ao mesmo tempo todas as falsas alternativas — como “crescimento ou não-crescimento” – que derivam da aceitação acrítica da necessidade da expansão do capital.
A falsa alternativa do não-crescimento deve ser rejeitada, não só porque a sua aceitação perpetuaria as mais chocantes miséria e desigualdade que agora imperam no mundo, com as suas inseparáveis guerras e destruição. A negação radical de tal abordagem é apenas o ponto de partida necessário. A dimensão intrinsecamente positiva da nossa visão implica uma revisão fundamental do próprio conceito de riqueza (prosperidade), tal como o co-nhecemos hoje. Na ordem metabólica social do capital , nós vivemos confrontados com a alienante dominação da riqueza sobre a sociedade, afectando directamente cada aspecto da vida, desde o estritamente económico até aos domínios cultural e espiritual. Consequentemente, não conseguimos sair do ciclo vicioso do capital, com todas suas determinações destrutivas e falsas alternativas, sem sermos capazes de dar a volta àquela relação vital. Designadamente sem sermos capazes de impor o domínio da sociedade – a sociedade de cidadãos livremente associados – sobre a riqueza, ao mesmo tempo redefinindo as suas relações com o tempo e com o uso ao qual os produtos do trabalho humano são postos à disposição. Como escrevia Marx ainda num dos seus primeiros trabalhos:
“Numa futura sociedade, na qual tiver terminado o antagonismo de classe, na qual não haverá classes, o uso já não será determinado pelo tempo mínimo de produção; mas o tempo de produção devotado a um artigo será determinado pelo grau da sua utilidade social.” [11]
Isto significa um inconciliável afastamento da visão da riqueza como uma entidade material feiticista que ignora os indivíduos reais que são os criadores da riqueza. Naturalmente, o capital – na sua pretensão de ser sinónimo de riqueza, como “o criador e corporização da riqueza” – ignora os indivíduos, no seu esforço para legitimar o seu próprio controle metabólico social. Deste modo, ao usurpar o papel da verdadeira riqueza e ao subverter o uso potencial a que ela poderia ser colocada à disposição, o capital é o inimigo do tempo histórico. É isto que tem que ser analisado, no interesse da própria sobrevivência da humanidade. Então, todos os constituintes das relações entre os indivíduos reais, historicamente auto-determinados, em conjunto com a riqueza por eles criada e positivamente posta à disposição através da conscienciosa aplicação da única forma de tempo viável – tempo disponível – devem ser colocados no quadro de uma ordem metabólica social qualitativamente diferente. Digamo-lo com Marx: “a verdadeira riqueza é a capacidade de produção desenvolvida por todos os indivíduos. A medida da riqueza não será nunca mais, de modo nenhum, o tempo de produção, mas sim o tempo disponível. O tempo de produção como medida de valor põe a própria riqueza como fundada na pobreza, e o tempo disponível como existindo na e por causa da antítese ao sobretempo de trabalho; ou a posição do tempo todo de um indivíduo como tempo de trabalho, e, por conseguinte, a sua degradação a mero operário, subsunção no trabalho.”[12]
O tempo disponível é o tempo histórico efectivo do indivíduo.
Pelo contrário, o tempo de trabalho necessário para o funcionamento do modo capitalista de controle metabólico social é anti-histórico, recusando aos indivíduos a única forma pela qual eles se podem afirmar e realizar como reais sujeitos históricos, em controle da sua própria actividade. Sob o capitalismo, os indivíduos estão sujeitos ao tempo sob a forma de juiz tirânico e medida degradante, sem tribunal de apelação, em vez de ser ele próprio julgado e medido em relação a critérios humanos qualitativos “pelas necessidades dos indivíduos sociais”. [13] Portanto, o tempo anti-histórico e perversamente auto-absolutizante do capital impõe-se à vida humana como determinante feiticista que reduz os trabalhadores (living labour) à “carcassa do tempo” (Marx). O desafio histórico é, portanto, passar da dominação pelo tempo “congelado” do capital – determinante alie-nante — à ordem social metabólica alternativa, tornando-se livremente determinado pelos próprios indivíduos sociais que conscientemente dedicam à realização dos seus objectivos os seus recursos em tempo disponínel, incomparavelmente superiores aos que deles (indivíduos) poderia ser retirado (squeezed out) pela tirania do tempo de trabalho necessário. Esta é uma diferença absolutamente vital. Porque apenas os indivíduos podem realmente determinar o seu próprio tempo disponível, em nítido contraste com o tempo de trabalho necessário que os domina. A adopção do tempo disponível é a única forma plausível e justa pela qual o tempo pode ser transformado de determinante tirânica em constituinte autónomo e criativamente determinado do processo reprodutivo.
Este desafio obriga à supressão da divisão social hierárquica do trabalho, imposta estruturalmente. Enquanto o tempo dominar a sociedade através do imperativo de extrair o tempo de trabalho adicional da esmagadora maioria dos seus membros, as pessoas responsáveis por este processo devem dirigir uma forma de existência substancialmente diferente, em conformidade com o seu papel de personificação e imposição do alienante imperativo do tempo. Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos indivíduos es-tão “degradados à condição de meros executores”. Nestas condições, o processo de reprodução social deverá afundar-se cada vez mais fundo na sua crise estrutural, com a perigosa derradeira implicação de não-retorno.
O pesadelo do “estado estacionário” permanece um pesadelo mesmo se alguém o tentar aligeirar, como propôs John Stuart Mill, através da ilusão da “melhor distribuição”, considerada isoladamente. Não existe tal “melhor distribuição” sem uma reestruturação radical do próprio processo de produção. A alternativa hegemónica socialista ao domínio do capital requer que seja fundamentalmente ultrapassada a dialéctica truncada da inter-relação vital entre produção, distribuição e consumo. Sem isso, o objectivo socialista de transformar o trabalho na “primeira necessidade da vida” é inconcebível. Citando Marx:
“Numa fase superior da sociedade comunista, depois do desaparecimento da escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, e, daí, também do desaparecimento da antítese entre o trabalho mental e trabalho físico; depois do trabalho se ter tornado não apenas num meio de vida, mas também na primeira necessidade da vida; depois de as forças produtivas se terem também desenvolvido em resultado do desenvolvimento integral do indivíduo, e todas as nascentes da riqueza co-operativa brotarem mais abundantemente – só então poderá o estreito horizonte da verdade burguesa ser completamente ultrapassado e poderá a sociedade inscrever na sua bandeira: De cada um conforme a sua capacidade, a cada um conforme as suas necessidades!”[14]
Estes são os objectivos globais da transformação socialista, que fornecem a bússola para a jornada e simultaneamente, também a medida dos feitos realizados (ou que fracassaram na sua realização). Nesta visão da alternativa hegemónica à ordem social reprodutiva do capital não há lugar para o “estado estacionário” nem para qualquer das falsas alternativas associadas a ele ou dele derivadas. O “desenvolvimento integral dos indivíduos”, exer-cendo conscientemente a plena capacidade do seu tempo disponível, no quadro do novo controle metabólico social orientado para a produção da “riqueza cooperativa”, fornece a base de uma contabilidade qualitativa-mente diferente: a necessária contabilidade socialista, definida pela necessidade humana e diametralmente oposta à quantificação feiticista e ao inevitável e concomitante desperdício.
Este é o motivo pelo qual a importância vital de uma forma sustentável de crescimento pode ser reconhecida e gerida com sucesso no quadro metabólico social alternativo. Numa ordem de controlo metabólico social, isto quer dizer, onde a antítese entre o trabalho mental e o trabalho físico – vital para manter a dominação absoluta do trabalho pelo capital – deve desaparecer para sempre. Consequentemente, a produtividade conscientemente procurada pode ser elevada a um nível qualitativamente superior, sem risco de desperdício incontrolável, transportando consigo uma riqueza genuína – e não estreitamente orientada para o lucro –, sob inteiro controle de “indivíduos sociais ricos” (Marx), como sujeitos históricos autónomos (e ricos precisamente nesse sentido). No “estado estacionário”, por contraste, os indivíduos não podem ser sujeitos históricos genuínos. Porque eles não têm controle sobre uma vida própria, já que estão à mercê do pior tipo de determinações materiais, directamente sob o jugo da escassez incurável.
Sempre crescente – e, pelas suas derradeiras implicações, catastrófico —, o desperdício é, no sistema do capital, inseparável da forma enormemente irresponsável como as mercadorias e serviços produzidos são utilizados, em benefício da lucrativa expansão do capital. Perversamente, quanto mais baixa for a sua taxa de utilização, mais alta será a margem para a sua substituição lucrativa, em nome da absurda – e no futuro, total-mente insolúvel – equação já mencionada, segundo a qual, e do ponto de vista do capital, não há distinção significativa entre consumo e destruição. A destruição completamente inútil serve os propósitos de auto-expansão do capital da mesma forma que o genuíno consumo, correspondente ao uso, seria capaz de o fazer. Porém, o momento da verdade chega quando um elevado preço tem que ser pago pelo comportamento irresponsável do capital no decurso do desenvolvimento histórico. Este é o ponto em que o imperativo de adoptar uma cada vez melhor e incomparavelmente mais res-ponsável taxa de utilização dos serviços e mercadorias produzidos – e de facto conscientemente produzidos com tal objectivo em mente, em relação ao uso e necessidade humanas – se torna absolutamente vital. Porque a única economia viável – em que realmente se faça economia, e portanto sustentável no futuro próximo e distante – pode ser do tipo de economia gerida racionalmente, orientada para a utilização óptima dos bens e serviços produzidos. Não há crescimento sustentável fora destes parâmetros de produção racional, orientada para as necessidades humanas genuínas.
Para fazermos um exemplo crucialmente importante do que, a este respeito, é incuravelmente errado sob o domínio do capital, pensemos no modo como o crescente número de automóveis são utilizados nas nossas sociedades. No “capitalismo avançado”, os recursos e a energia desperdiçados na produção e funcionamento de automóveis são imensos, representando a segunda despesa mais alta das famílias, a seguir aos compromissos com as hipotecas. Absurdamente, porém, a taxa de utilização dos automóveis é de menos de um por cento, espuriamente justificada pelos direitos de posse exclusiva conferidos aos seus compradores. Ao mesmo tempo, a verdadeira e sustentável alternativa é não somente negligenciada mas activamente sabotada pelos interesses gigantescos de corporações quase monopolistas. A verdade é que, aquilo de que os indivíduos precisam (e não conseguem obter, apesar das elevadas cargas fiscais que têm que suportar) são serviços de transporte adequados, e não o desperdício económico e a ameaça ambiental associados às viaturas privadas que, para além disso, lhes fazem perder horas sem conta das suas vidas em engarrafamentos insalubres. Evidentemente, a verdadeira alternativa seria o desenvolvimento de transportes públicos a um nível qualitativamente superior, satisfazendo os necessários critérios económico, ambiental e de salubridade, no âmbito de um projecto racional, ao mesmo tempo confinando o uso de automóveis (como propriedade do colectivo e adequadamente alocados) a funções es-pecíficas. Assim, seria a própria necessidade dos indivíduos – neste caso, a necessidade de transporte adequado — a determinar os destinos e os sistemas de transporte (como estradas, redes ferroviárias e sistemas de navegação) a criar e manter, de acordo com o princípio da utilização óptima, em vez de os indivíduos serem completamente dominados pela necessidade fe-tichista do sistema de expansão lucrativa – mas, em última análise, destrutiva — do capital.
A questão inevitável, mas até agora tendenciosamente evitada, da verdadeira economia, correspondendo às considerações apresentadas neste artigo, terá que ser enfrentada num futuro muito próximo. Nos assim chamados “países do terceiro mundo” é inconcebível continuar o modelo de “desenvolvimento” do passado, o qual de facto os condenou às precárias condições de hoje, sob o domínio do modo de reprodução metabólico social do capital. O clamoroso fiasco das tão proclamadas “teorias da modernização” e das correspondentes corporizações institucionais demonstrou cla-ramente a desencorajadora falta de perspectiva daquela abordagem.
Em um aspecto, pelo menos, ouvimos soar um alarme a este respeito – ao mesmo tempo, e caracteristicamente, apelando à afirmação e absoluta preservação dos privilégios dos países capitalistas dominantes – no passado recente. Dizia respeito à crescente necessidade internacional de recursos energéticos e à entrada na competição de algumas potências económicas potencialmente enormes, em primeiro lugar a China. Hoje esta preocupação é sobretudo em relação à China, mas na devida altura também a Índia terá que ser incluída na lista dos maiores países inevitavelmente concorrendo por recursos energéticos vitais. E se adicionarmos à população da China a população do subcontinente Indiano, estaremos a falar de mais de dois biliões e meio de pessoas. Naturalmente, se elas seguirem a receita, em tempos grotescamente propagandeada, do Estágios do Crescimento Económico, [15] com a sua inocente defesa da “arrancada capitalista e caminho para a maturidade”, tal iria acarretar consequências devastadoras para todos nós. A conversão ao automóvel de dois biliões e meio de pessoas, num modelo de sociedade do tipo dos EUA, com mais de 700 veículos por cada 1000 habitantes, significaria que estaríamos todos mortos ainda a meio do percurso rumo aos benefícios “modernizantes” da poluição venenosa, para não mencionar o rápido e completo esgotamento das reservas de petróleo do planeta. Mas ao mesmo tempo, e no sentido oposto, ninguém pode seriamente pensar que os países em questão podem ser deixados indefinidamente na situação em que estão hoje. Imaginar que os dois bilhões e meio de pessoas da China e Índia poderiam ser condenados à sua actual condição, numa forma ou outra ainda sob profunda dependência dos países do capitalismo avançado, desafia toda a credibilidade. A questão é: poderá a humanidade encontrar uma resposta racionalmente viável e verdadeiramente justa (equitable) para as legítimas aspirações de desenvolvimento económico e social dos povos envolvidos, ou o caminho para o futuro será a competição antagónica e a luta destruidora dos recursos, tal como nos aponta o quadro orientador e os princípios operacionais do modo de controle reprodutivo social do capital.
Um outro aspecto em relação ao qual o imperativo absoluto de orga-nizar a vida económica e social aparece no horizonte diz respeito à ecologia. Mas, de novo, o único modo de abordar os problemas cada vez mais graves da nossa ecologia global – se queremos enfrentar, de modo responsável, os cada vez mais graves problemas e contradições do planeta em que vivemos, desde o seu impacto directo em questões tão vitais como o aquecimento global, à necessidade elementar de água potável e de ar respirável – é mudar da atitude de desperdício e quantificação feiticista da actual ordem para uma nova ordem genuinamente orientada para a qualidade. A ecologia, a este respeito, é um aspecto importante, mas subordinado, da necessária redefinição qualitativa da utilização dos bens e serviços produzidos, sem a qual, a defesa de uma ecologia permanentemente sustentável – de novo: uma necessidade absoluta – não será mais do que um piedoso desejo.
O último aspecto a sublinhar neste contexto é o de que a urgência em fazer frente a todos estes problemas não pode ser subestimada ou minimizada, como continuam a fazer os representantes do capital, sustentados pelos estados imperialistas dominantes na sua inultrapassável rivalidade. Ironicamente, embora haja tanta conversa propagandística sobre “globalização”, a exigência objectiva de fazer funcionar uma ordem reprodutiva globalmente coordenada de trocas sociais, racionalmente sustentável, é constantemente violada. E dado o presente estágio de desenvolvimento histórico, permanece o facto de que, em relação a todos os grandes temas discutidos neste artigo, estamos realmente a tratar de desafios globais cada vez mais graves, requerendo soluções globais. Porém, o nosso maior problema é que o modo de reprodução metabólica social do capital – dadas as suas determinações estruturais inerentemente antagónicas e as suas mani-festações destrutivas – opõe-se de forma absoluta a quaisquer soluções globais. O capital, pela sua natureza, só pode existir se puder prevalecer sob a forma de dominação estrutural. Mas a outra dimensão da dominação estrutural, e dela inseparável, é a subordinação estrutural. É esta a forma como o modo de reprodução metabólica social do capital funcionou sempre e irá sempre tentar funcionar, acarretando com ele as guerras mais de-vastadoras das quais temos, nos nossos tempos, muito mais do que simplesmente um exemplo. A violenta afirmação dos imperativos destrutivos do imperialismo hegemónico global, através do anteriormente inimaginável poder destrutivo dos EUA – potência hegemónica única —, é incapaz de trazer soluções globais para os nossos problemas cada vez mais graves, mas sim e apenas o desastre global. Assim, a inevitável necessidade de abordar estes problemas globais numa forma historicamente sustentável, põe na ordem do dia o desafio do socialismo no século vinte e um – a única alternativa hegemónica viável ao controle metabólico social do capital.

1-Marx, O Capital, vol. 1, p.85
2-John Stuart Mill, Princípios de Economia Política, p.751
3-Ibid., p. 749
4-Ibid
5-No seu título completo e pretensioso:“The Limits to Growth: A Report for the Club of Roma Project on the Predicament of Mankind, Potomac Associates Book, Earth Island Limited, Londres, 1972
6-Eloquentemente, o principal teórico por trás desta “limitação do crescimento”, Professor Jay Forrester do M. I. T., qualificou desdenhosamente qualquer preocupação com “igualdade” como uma mera “shiboleth of equality”. Ver entre-vista no Le Monde de 1 de Agosto de 1972.
7-Vadin Medvedev, “The Ideology of Perestroyka”, Anais da Perestroika, Vol. 2, editado por Abel Aganbegyan, Fu-tura/Macdonald, Londres, 1989, pp. 31-32.
8-“The Road to Serfdom”, título do mais famoso livro de propaganda de Hayek
9-Gorbachev, citado por John Rettie, em “Only market can save Soviet economy”, The Guardian, 17 de Outubro de 1990.
10-Hegel, “The Philosofy of Right”, p. 212
11-Marx, The Poverty of Philosofy, MECW, vol. 6. p. 134. Citado por Istvan Meszaros, “O Sistema Comunitário e a Lei do Valor em Marx e Lukacs” (Capítulo 19 de Beyond Capital), Critique, Nº 23, 1991, p. 36. Ver também Capítulo 15 (The Decreasing Rate of Utilization under Capitalism”) e Capítulo 16 (The Decreasing Rate of Utilization and the Capitalist State”) de Beyond Capital, os quais tratam de alguns importantes aspectos relacionados com esta matéria.
12-Marx, Grundrisse, p. 708
13-Ibid.
14-Marx, Crítica do programa de Gotha, em Marx e Engels, Obras Escolhidas, Vol.2, p. 23.
15-Ver The Stages of Economic Growth: A Non-Comunist Manifesto, por Walt Rostow, um proeminente membro do “Brain Trust” do Presidente Kennedy, publicado por Cambridge University Press, 1960

Este artigo foi enviado a odiario.info pelo autor,nosso amigo e colaborador especial.

* Filósofo hungaro.Professor na Universidade de Sussex,na Grã-Bretanha

Traduzido por Francisco Lopes Pereira