Santa Ingrid, padroeira dos bons reféns, rezai por nós!

Fausto Giudice*    17.Jul.08    Outros autores


“O regresso de Ingrid Betancourt à civilização (…) foi a ocasião para uma operação mundial de ingridolatria televisiva em directo.”
“(…) À primeira vista Ingrid está em plena forma, aparenta estar bem nutrida e de excelente saúde, tal como os outros 14 «reféns» com ela «libertados», dos quais 3 agentes do FBI cedidos à DEA. Não é possível deixar de estabelecer um paralelismo com um tal Augusto Pinochet que, a partir do seu regresso ao Chile, deixou a cadeira de rodas a que tinha estado preso durante a sua permanência mal sucedida na Grã-Bretanha…”

O regresso de Ingrid Betancourt à civilização, «após seis anos e quatro meses cativa dos narco-terroristas das FARC» foi a ocasião para uma operação mundial de ingridolatria televisiva em directo. A televisão pública francesa, com a France2 em primeiro lugar, bateu sem dúvida todos os recordes, ao consagrar, na quarta-feira à tarde [2 de Julho], mais de cinco horas ininterruptas à «libertação» de Ingrid e várias horas nos dias seguintes. A peste emocional disseminada pelos lares foi susceptível de provocar náuseas. Porém, para lá da náusea, é necessário tentar raciocinar.

À primeira vista Ingrid está em plena forma, aparenta estar bem nutrida e de excelente saúde, tal como os outros 14 «reféns» com ela «libertados», dos quais 3 agentes do FBI cedidos à DEA. Não é possível deixar de estabelecer um paralelismo com um tal Augusto Pinochet que, a partir do seu regresso ao Chile, deixou a cadeira de rodas a que tinha estado preso durante a sua permanência mal sucedida na Grã-Bretanha (foi preso pelos britânicos).

Em segundo lugar, Ingrid descobriu a Virgem, o Pai, o Filho e o Espírito Santo e perspectiva ir a Lourdes e ao Vaticano. Vai Bento XVI beatificá-la em vida? Na falta da canonização, está bem posicionada para um Prémio Nobel da Paz.

Em terceiro lugar, Ingrid tornou-se uma fanática partidária do Exército colombiano e das suas forças especiais, do qual exacerbava o rigor da sua acção aérea.

Em quarto lugar, Ingrid tornou-se uma entusiasta partidária de Álvaro Uribe, o narco-presidente que é, com o mexicano Felipe Calderón, o peão chave do dispositivo yankee na América Latina. Ingrid não parou de saudar a operação «perfeita, impecável, genial» que permitiu a sua libertação. Segundo a versão oficial, esta operação foi montada por um grupo de coronéis colombianos com a ajuda de especialistas da CIA e da Mossad israelita. Infiltraram-se nas FARC, intoxicaram o comandante «César», responsável pela vigilância dos prisioneiros, incluindo Ingrid, levando-o a entregá-los a uma equipa de militares disfarçados de guerrilheiros e descidos do céu a bordo de um grande helicóptero de transporte.

Se esta versão fosse verdadeira, este comandante das FARC teria que ser um autêntico idiota para acreditar que a sua organização pudesse dispor de tal helicóptero.

Em resumo, esta versão hollywoodesca é boa para os tótós transformados em adoradores de Santa Ingrid. A verdade é, contudo, outra: segundo a Rádio Suisse Romande o Governo colombiano pagou cerca de 20 milhões de dólares ao famoso «César», que foi mostrado às câmaras com um olho negro apenas para manter a ficção hollywoodesca antes de ser retirado, dotado de uma nova identidade, rumo a uma outra parte do mundo para aí levar uma nova vida.

O que simplesmente foi esquecido nesta gigantesca e obscena orgia de imagens emocionais, com Ingrid, Astrid, Yolanda, Mélanie, Lorenzo, Nicolas, Carla, Bernard e Rama passando sucessivamente durante horas foi, entre outros aspectos, o seguinte:

1º Aquilo a que obstinadamente se chama «reféns» são prisioneiros de guerra, tal como são os combatentes das FARC presos pelas forças governamentais. Mas, evidentemente, chamar-lhes prisioneiros levaria ao reconhecimento do estatuto de força combatente às FARC, o que é excluído por Uribe e pelos que o apoiam. Aplicar as Convenções de Genebra sobre os prisioneiros de guerra aos detidos membros das FARC e exigir das FARC que fizessem o mesmo com os seus prisioneiros legitimá-las-ia.

2º A guerra conduzida pelo Exército colombiano e pelos grupos paramilitares que este sempre apoiou fez, em 25 anos, milhares de mortos, dos quais 3.000 sindicalistas e 2.000 indígenas, e milhares de desaparecidos. Pelo menos 2 milhões de camponeses foram deslocados e são refugiados internos. Milhares de colombianos, ameaçados de morte pelos paramilitares, tiveram que se refugiar no estrangeiro.

3º As FARC devem renunciar ao seu «combate ignóbil que destrói vidas inocentes» (Sarkozy dixit) e «rectificar» a sua linha (Ingrid dixit), não param de repetir os heróis deste super-doculebrón (neologismo formado a partir de culébron - versão venezuelana de telenovela – e de docu-soap – série documental montada como uma ficção). Terão eles esquecido que na última vez que as FARC aceitaram reintegrar a vida política «normal», ao criar a União Patriótica e apresentando-se às eleições, 5.000 dos seus membros foram assassinados?

Santa Ingrid, descendente de uma família de Cruzados normandos que se tornaram reis das Canárias vai agora, sem dúvida, envolver-se em novas cruzadas pela libertação de outros «reféns». Mas, atenção, apenas se ocupará dos «bons reféns»! Sarkozy vai seguramente tentar integrá-la na sua próxima operação, que visa libertar o «refém franco-israelita» Gilad Shalit, esse caporal prisioneiro do Hamas. (Simplesmente prisioneiro de guerra de um exército de ocupação).

Agora que se identificou com as Forças Especiais que, segundo declarou, fizeram ver ao mundo que eram tão capazes como o exército israelita, será lógico que assim aconteça.

E que não se conte com Ingrid para outros combates, como a libertação dos 10500 reféns palestinianos presos por Israel ou, de novo, a defesa do ambiente. Ela, que se dizia ecologista – o seu grupelho chamava-se «Oxigénio verde» - curou-se definitivamente dessa doença de juventude durante os anos que passou sob o «tecto verde» da selva, onde descobriu que, de todos os animais aí existentes, o mais perigoso é o homem. O homem das FARC, claro, num dos episódios mais cómicos do doculebrón: Nico e Ingrid no hangar de Villacoublay.

PS: Ter-nos-emos esquecido que Ingrid se fez prisioneira das FARC voluntariamente, após ter forçado duas vezes a passagem da barreira de controlo? Foi, da sua parte, uma operação de comunicação que correu mal (1º episódio) e que depois correu bem (para ela, 2º episódio). São os ossos do ofício de uma agente de um império-cartel militarista!

* Fausto Giudice é jornalista independente, italiano, a residir em França

Traduzido por Miguel Soares

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