Chegou a noite
Os dois artigos que hoje divulgamos foram publicados pelo diário “El Tiempo”, de Bogotá . É significativo que esse jornal, porta-voz da oligarquia colombiana, admita a possibilidade de o presidente neofascista Alvaro Uribe vir a ser julgado pelo Tribunal Internacional Penal por crimes contra humanidade, cometidos no âmbito da sua «politica de segurança democrática». Duas dezenas de oficiais de alta patente entre os quais alguns generais foram afastados pelo envolvimento na execução de civis que o Exército prendeu e fuzilou sob a falsa acusação de serem guerrilheiros, a fim de receberem chorudos prémios. No auge do escândalo, o comandante-chefe do Exército, general Mario Montoya, foi forçado a demitir-se.A política de segurança democrática recebeu um rude golpe que pode ser mortal: a Alta Comissária dos Direitos Humanos das Nações Unidas, depois da sua visita de oito dias à Colômbia, fez uma informação em que, segundo os media internacionais, «denuncia que existem indícios que demonstram a “prática sistemática” de execuções extrajudiciais neste país latino-americano, por parte das forças de segurança».
O relatório não podia ser pior. Primeiro pelo que sugere: a que se invocava como a mais exemplar das políticas de segurança do continente marcada: alguns dos seus resultados poderão estar apoiados na prática sistemática de delitos de lesa humanidade. Segundo por quem o sugere: uma ex-juíza do Tribunal Penal Internacional e do Tribunal para o Ruanda e que há algumas semanas tomou posse como Alta Comissária.
O governo não pode dizer que não estava ao corrente da situação. Desde 2004, Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas vinha a insistir com o governo sobre o problema. E não só as Nações Unidas. Em 21 de Dezembro de 2007, o Procurador-Geral da Nação enviou ao Ministro da Defesa uma comunicação em que o informa dos processos disciplinares que estavam em curso pela presumível prática de «graves violações do Direito Internacional humanitário: homicídio de pessoas» (que é como na realidade se devem chamar as execuções extrajudiciais).
Na relação, o Procurador apresenta 887 casos ocorridos entre 2002 2 2007. A evolução dos números revela bem a complexidade do fenómeno. Em 2002 reportaram-se 10 casos e em 2003 o número subiu para 38; em 2004 o fenómeno multiplicou-se por 3 ao indicarem 113 casos e em 2005 os casos ascendem a 200; em 2006 as execuções subiram para 274 e em 2007 atingiram os 252 casos. E isto sem considerar as investigações que, pela mesma razão podem estar a ser investigadas na Procuradoria ou que estiveram a cargo da Polícia Penal Militar. Todavia, está ainda por apurar a magnitude do fenómeno.
O governo não respondeu a nenhum dos relatórios. E perante os requerimentos que foram sendo feitos sobre o assunto, limitava-se a responder que se tratava de montagens com as quais «se faz muito mal ao país (…) e à credibilidade da força pública». O grave é que esse foi o comportamento recorrente das autoridades desde que se exigiu uma clarificação sobre os milhares de detenções arbitrárias, com os quais se pôs primeiramente em questão a política de segurança democrática.
Uma das razões que se esgrimiram para explicar as execuções foi a distorção da política de recompensas, que saiu a tal ponto das mãos do governo, que o próprio Ministério da Defesa teve que emitir uma directiva regulamentar sobre o seu pagamento. «Tratava-se de organizar uma actividade que estava informalizada», disse o ex-ministro Camilo Ospina para justificar a directiva.
Mas, para além das recompensas, o que está aqui é uma ruptura do Estado de Direito e uma falência da doutrina militar. A rentabilidade eleitoral da segurança democrática fez com que se confundissem os objectivos militares com os políticos, de forma que políticos e militares ficaram de mãos atadas perante qualquer questionamento.
Se o governo tivesse entendido que se tratava de chamadas de atenção com que se procurava atalhar um problema que poderá chegar a irresolúvel, ter-se-ia evitado não soa vergonha de ter de aceitar que uma parte do êxito principal da sua política estava assente sobre crimes, mas – sobretudo – a perda de vidas de não se sabe quantos colombianos.
Que paradoxo. Os mais importantes êxitos da segurança democrática vêm da combinação da política de recompensas com a pressão militar. Também dessa combinação emergiu o que, sem qualquer dúvida, é o mais vergonhoso de todos os fracassos.
Tradução de José Paulo Gascão


