Entrevista a Babis Angurakis do CC do Partido Comunista da Grécia
O Movimento estudantil grego
Tem o apoio da classe trabalhadora

Patricia Rivas    26.Dic.08    Outros autores


A imprensa burguesa lançou uma campanha de desinformação em larga escala, procurando criar a ideia de que as manifestações de massas, desencadeadas na sequência da morte de um jovem de 16 anos (não certamente por acaso filho de um conhecido sindicalista grego), não passava de algumas centenas de vândalos anarquistas…
Nesta entrevista de Babis Angurakis ficamos a compreender a razão desta campanha de intoxicação informativa e a realidade do movimento operário e anti-imperialista grego…

Os principias cartéis mediáticos insistem em criar a ideia que os protestos da Grécia são actos vândalos de um grupo de «radicais anarquistas», mas o dirigente comunista Babis Angarukis afirma que as dimensões do protesto são muito mais amplas, e as suas causas são mais estruturais: «o protesto contra a política social do governo durante a crise económica que o país enfrenta e que também se liga com os enormes problemas da educação pública, e a má situação dos direitos democráticos são a explicação para a explosão que ao longo de todos estes dias está a acontecer em Atenas. As reacções continuam, se bem que não tão intensas como há alguns dias, mas o mais importante é que os estudantes universitários e liceais continuam com as suas acções, apoiados pelo movimento operário e os sindicatos, afirma Angurakis nesta entrevista a IVYK.

Patrícia Rivas (PR): - Vendo a televisão e os principais meios de comunicação é quase impossível compreender o que se está a passar na Grécia, porque pintam a situação como se milhares de anarquistas tivessem de repente saído às ruas, e os radicais estivessem por todo o lado espalhando o caos. Quais são realmente as componentes desta crise social?
Babis Angarukis (BA): - É verdade. E essa impressão não somente internacional, o mesmo acontece na Grécia. Há uma claríssima intenção dos principais meios de comunicação e dos partidos políticos da burguesia de dar uma imagem de que todo o problema é os ataques com coktails molotov contra as lojas e nada mais. A ideia é dizer que todo este protesto é apenas contra aquele polícia que assassinou um jovem há pouco mais de uma semana. A realidade é completamente diferente. Esta forma de cobrir os acontecimentos corresponde à vontade de evitar o aprofundamento da consciência política e o desenvolvimento de um grande movimento anti-imperialista e anti-capitalista, que o nosso país necessita. Uma vez que essas forças, os meios de comunicação e o governo, não conseguiram evitar o conflito social e o confronto, tentam criar a impressão que tudo isto só tem a ver com grupos anarquistas e com estes ataques a lojas e alguns bancos. A verdade é que estes actos vândalos em Atenas não estão de modo algum relacionados com o movimento: nem com os anarquistas, nem com os comunistas, nem com as forças anti-imperialistas e anti-estadunidenses, e temos várias todos os anos que fazemos em frente à Embaixada dos Estados Unidos em que participam milhares de pessoas, e em todas elas surgem estes grupos com coktails molotov com o objectivo de pôr as pessoas contra. É isso que está a acontecer em Atenas. O que é novo é que estão a receber uma enorme cobertura internacional, por diversas razões. Como se sabe, em França por exemplo, o governo reaccionário de direita está a enfrentar uma imensa mobilização estudantil contra a privatização das escolas. O mesmo se passa na Alemanha, na Itália e em Espanha. E como na Grécia o movimento tem uma longa tradição de luta contra a privatização da educação, acreditamos que estes governos de direita da Europa têm medo de que estes movimentos da Grécia sejam secundados por movimentos similares nos seus países. Esta é a explicação, e repito, trata-se de uma tentativa de ocultara natureza deste movimento, que anti-imperialista, com reivindicações sociais e toda isto se faz para isolar o movimento juvenil do movimento operário, e é contra essa tentativa de isolamento que o nosso partido está a lutar. Naturalmente estamos contra qualquer acção de destruição, e condenamos o vandalismo. O que estamos a repetir é que o movimento deve permanecer ligado à classe trabalhadora.

Chama a atenção ver gente tão nova, de 15 e 16 anos, nas ruas a lutar contra todo o sistema educativo. A frase que mais pronunciam é que não vêem futuro.

Não é somente o facto de não verem futuro, porque esse é um problema geral em toda a Europa, oriental e ocidental. Acreditamos que a diferença na Grécia é que temos um movimento juvenil que organizou grandes batalhas num passado recente, com exigências muito avançadas em tudo o que tem a ver com a educação. O crescimento desse movimento e um grande perigo para o governo da Grécia e é-o também para esses países europeus, por isso tentam dar a impressão de que na realidade não é um movimento social e político, mas outra coisa. Por um lado, você tem razão: os jovens têm medo do futuro, e em segundo lugar, sabem que a única solução para o seu problema é a luta política e a organização anti-imperialista.

PR: - Vimos como desde os anos 90as organizações do movimento operário na Europa, sindicatos e partidos políticos de esquerda, se debilitaram e acabaram colocando-se à defensiva, perdendo cada vez mais terreno. Como se situa o movimento operário grego nesta conjuntura e de que maneira se está a articular com os estudantes?
BA: - É verdade, mas essa não é a situação geral, ou digamos que há algumas excepções. Na Grécia, em Portugal, temos sindicatos de classe e partidos comunistas bastante fortes, e pensamos que isto ajuda muito o movimento juvenil. O facto é que nos principais países europeus havia um consenso entre a social-democracia e os governos da direita neoliberal em promover medidas muito anti-populares, contidas principalmente no «Tratado de Maastricht», e é essa razão por que sindicatos e partidos de esquerda perderam credibilidade e já não podem reagir a estes graves ataques que actualmente estão a suceder na Europa. No nosso país foi diferente. É verdade que a maioria do movimento sindical, que está controlado pelos sociais-democratas devido ao facto de termos tido um governo social-democrata durante os últimos 20 anos, trabalhou para criar aqui a mesma situação, com a colaboração de outros partidos da esquerda europeia para evitar a luta de classes e qualquer acção contra a política dominante, etc.. O nosso partido luta contra estas políticas desde há muitos anos, com agricultores, estudantes, classe operária…, tratámos de mobilizar as pessoas nas ruas e pensamos que agora estamos a obter alguns resultados positivos nessa direcção, e isso é exactamente o que assusta a classe dirigente da Grécia e na Europa, cada vez mais em Portugal, na Grécia, em Espanha, mas também em Itália novos sectores da classe operária estão a lutar nas ruas, reencontrando-se com a luta de classes, e isso pode ser muito perigoso para a classe dominante, por causa da crise económica.

PR: - Em que medida esta crise económica está a afectar os países do Sul da Europa, tendo em conta que se integraram dez novos países e os fundos de coesão, que antes iam para o Sul da Europa e agora vão para o Este?
BA: - Oiça, parece-me que esse argumento não é correcto. A verdadeira razão para o que está a acontecer não é, de forma nenhuma, o facto do o dinheiro não estar a ir para o Sul e estar a seguir para Este. Porque estamos a ver as mesmas explosões sociais em Itália, e a Itália não era, em termos gerais, um país receptor de fundos de coesão. Além disso, para sua informação, é bom que saiba que por cada euro que a Grécia recebe da União Europeia, o povo grego devolve 3 euros. Porquê? Por que todos os projectos que se executam com fundos da União Europeia são para empresas alemãs ou francesas, de modo que somos nós a pagar essa chamada ajuda. Mas esse não é o problema. O problema é que estamos a defrontar uma crise enorme. E creio que o mesmo também se passa nos países do Norte, como a Holanda, a França e a Irlanda. Se se interrogar sobre por que é que os holandeses, franceses e holandeses disseram não ao tratado europeu, a razão é a mesma: uma situação social muito difícil nesses países e a explicação é que com a entrada em vigor do Tratado de Maastricht, com o euro e a união económica e social, os ricos enriquecem mais e os pobres empobrecem mais. E isso é verdade em França, na Grécia e na Holanda. E esta é, mais coisa menos coisa, a causa destes grandes movimentos sociais em todos os países da europeus.

PR: - Teve a crise económica algum impacte na sociedade grega, a taxa de desemprego, etc.?
BA: - Sim, particularmente no que respeita à insegurança quanto ao futuro. A Grécia teve nos últimos 5 ou 6 anos um crescimento bastante alto do Produto Interno Bruto, à volta de 4 por cento. Agora já está claro que no próximo ano será menos de 1 por cento. Em segundo lugar, tradicionalmente, nos temos tido uma elevada taxa de desemprego. E no futuro as coisas ainda vão ser piores, especialmente entre os jovens universitários. Cerca de 30 por cento dos que entram na universidade na Grécia estão desempregados, e isto conjugado e com o facto de termos a educação privatizada e as famílias estarem a pagar duas e três vezes mais pela educação dos seus filhos do que aquilo que paga o Estado, explica toda esta insegurança, que será muito mais forte, pois como consequência da crise económica e financeira muitas são as fábricas que estão a encerrar. E se viu o que sucedeu agora com a indústria automobilística nos Estados Unidos ou o que sucedeu na Europa com a Simens e algumas grandes empresas, pode compreender a ansiedade da juventude sobre o futuro.

PR: - Perspectiva qualquer coisa parecida com o que foi o movimento de Maio de 68?
BA: - Não, não acredito. As coisas são completamente diferentes. Quero dizer, há muitos aspectos diferentes. O mais importante é que o Maio de 68 foi um movimento optimista. Agora o grande problema para as novas gerações da Europa, e esta é a explicação da violência que estamos a viver na Grécia, em Itália, em Espanha e noutras partes, é o facto de que estão seguros de que a sua vida será muito pior que a dos seus pais, e isso é o que faz com que as pessoas estejam tão desesperadas. E claro, a diferença está em que agora nem sequer os sindicatos são um apoio para a luta da juventude, porque ajudaram a implementar as políticas governamentais nos países europeus, por isso os jovens procuram novas formas de organização. E o último elemento que nos parece muito importante é que todo aquele que desafia o sistema, que questiona o capitalismo e procura novos caminhos é etiquetado como terrorista, como criminoso. Este é o resultado de uma imensa campanha anti-comunista, que a Europa está a enfrentar nesta etapa e que faz com que as coisas sejam muito diferentes do que eram em 68.

PR: - Numa situação tão explosiva como essa, e tendo em conta que há um grande número de trabalhadores imigrantes na Europa, como crê que se pode evitar uma onda de racismo e de fascismo, que é o recurso do capitalismo quando está desesperado?
BA: - Tem razão. Existem essa intenção de lançar a culpa de todos os problemas sobre os imigrantes, etc. Mas o interessante, e em última análise essa é uma lição da história em Atenas, é que neste movimento e nesta luta que estamos a viver, ninguém questionou os imigrantes, apesar de termos um número muito elevado de trabalhadores estrangeiros: nos últimos dez anos chegaram mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros, o que representa 10 por cento da população da Grécia. E existem forças racistas e fascistas, mas nesta crise ninguém usou este argumento. Na Grécia, a tarefa que temos assumido no Partido Comunista foi a de organizar os imigrantes nos sindicatos. É um caminho muito difícil, mas temos alcançado alguns êxitos, e pensamos que é a única solução para evitar esse perigo de que fala. Porque a verdade é que o imperialismo dos Estados Unidos, da Europa e em geral o grande capital tentam dividir a classe trabalhadora, numa classe nacional que é boa, e os imigrantes que são muito maus e, nessa base, estão a tentar criar um movimento fascista e chauvinista. A resposta é lutar por políticas de legalização dos imigrantes; em segundo lugar estamos a lutar contra a política da União Europeia, que é muito hipócrita porque, por um lado, a União Europeia impõe condições a terceiros países, e por outro os europeus não aceitam a imigração. Nós estamos contra isso. E o terceiro elemento é o que estava a dizer: organizar os imigrantes juntamente com os trabalhadores gregos para lhes dar a possibilidade de lutarem juntos.

PR: - É possível que esta crise social e económica derive numa crise política? Hoje lemos que o Primeiro-Ministro Caramanlis pediu desculpas pelos casos de corrupção que aconteceram desde que assumiu o governo em 2004.
BA: - Parabéns! Estão muito bem informados sobre o que se está a acontecer na Grécia. Em todo o caso, devem saber que o problema para os gregos é que nem sequer os social-democratas são uma alternativa e por isso não há muito apoio à exigência de George Papandreu, o líder social-democrata, de exigir novas eleições. Em todo o caso, esta situação foi um duro golpe para o governo, há sondagens de opinião que o demonstram. Por outro lado devemos ser realistas. Esta forma como o governo está a gerir a crise, de pintar uma grande ameaça para o país, pode levar algumas pessoas para posições mais conservadoras, como aconteceu no Verão de há dois anos, quando tivemos aqueles grandes incêndios e todos pensavam que o governo perderia a maioria, dado que a direita não resolveu o problema; tivemos eleições e voltou a ganhar o partido da direita, de modo que é muito cedo para tirar conclusões sobre se o governo de direita vai perder a maioria ou não.

PR: - Olhando os resultados das últimas eleições parlamentares, em 2007, vemos que o Partido Comunista Grego obteve mais de 8 por cento da votação, o que é muito para um partido comunista só. Vê a possibilidade de chegar a um ponto de ruptura do bipartidarismo na Grécia?
BA: - O bipartidarismo chegou ao fim, isso é uma realidade. Os votos que têm os dois partidos maioritários, o da direita e os social-democratas, não chegam para governar a Grécia, A questão é como assegurar que um movimento anti-imperialista e anti-capitalista forte assegure que quando houver eleições esses votos não regressem aos dois grandes partidos. Para nós, não se trata apenas de romper com o sistema bipartidário, porque se der uma vista de olhos pela Europa, verá que todos os partidos tradicionais, neoliberais, conservadores e social-democratas, estão a perder influência nas pessoas, e por isso temos uma tão baixa percentagem de pessoas a votar, etc. Essa não é a questão. O problema é como construímos uma grande maioria a favor de mudanças radicais, anti-capitalistas, que vão numa direcção popular. Anti-imperialista, como é o caso da Venezuela, por exemplo, porque somente com essas políticas pensamos que se podem resolver os problemas colocados pela juventude e pela classe trabalhadora. Quero dizer que sem questionar a União Europeia e as grandes empresas capitalistas, nenhuma das questões se pode resolver e esta situação continuará. A questão é como ter uma situação política na Grécia e na Europa que esteja em condições de impor essas mudanças, por isso lutamos como Partido Comunista, não apenas para as eleições: para nós é muito mais importante o que sucede com o movimento operário, a juventude e os trabalhadores.

PR: - Imaginemos que amanhã o Partido Comunista ganha uma eleições e chega ao poder. O que mudará na situação? Qual seria programa de um governo comunista na Grécia?
BA: - Já levamos muito tempo de luta e sempre dissemos às pessoas que para solucionar os problemas necessitamos de uma economia que assente numa base social. Uma economia que tenha determinados objectivos e prioridades como a educação, a saúde progresso social, etc.. Mas para poder ter uma economia como essa, precisamos de socializar os meios de produção. Se não tocarmos na grande propriedade monopolista, nada será possível. Esta uma das primeiras medidas que tomaremos quando chegarmos ao poder e, naturalmente, para que o Partido Comunista chegará ao poder como resultado de um imenso movimento social, não somente através de umas eleições. Para nós está muito claro. Porque lutamos por uma socialização dos principais meios de produção e pelo controlo popular dos mesmos, para poder com o financiamento necessário para lançar o programa social que o povo e o país necessitam. Estamos certos, é claro, que enfrentaremos um grande ataque da União Europeia e do imperialismo estadunidense, e o nosso povo deve estar preparado para isso. Daí pensarmos que necessitamos de novas formas de organização e de novas alianças políticas que nos permitam enfrentar uma situação semelhante,

PR:
- Gostaríamos de lhe pedir, a partir da Grécia, que passa por ser o berço da democracia, uma reflexão sobre qual a qualidade democrática que vive a Venezuela, e uma opinião sobre o processo de integração regional e a proposta de moeda única, tendo em conta a experiência da Europa.
BA: - Antes de mais, quero dizer que cabe ao povo venezuelano decidir o que é melhor para o seu país, mas posso dizer-lhe desde já que o grau de democracia na Venezuela é muito mais elevado que na Grécia capitalista. E, acredite-me, é assim porque o grau de democracia não é uma questão de quantos partidos há. A questão principal é se o nível de vida da maioria melhora ou piora, esse é o critério final. E para falar da Grécia antiga e do país onde nasceu a democracia, era exactamente esse o critério para julgar qualquer governo na Grécia antiga, se a maioria vivia melhor ou pior, nada mais. No que diz respeito à Grécia, tivemos a monarquia e juntas militares e república presidencial. A diferença é qual é o sistema político e até que ponto a classe trabalhadora e a juventude podem realmente participar na tomada das decisões que afectam as suas vidas. Nós estamos seguros de que as forças socialistas e de progresso da Venezuela encontrarão a melhor solução para continuar, e digo-lho abertamente, o processo da revolução bolivariana, que é muito importante, não só para a América Latina, também é muito importante aqui na Europa, e se as coisas estão avançando um pouco aqui é também graças ao facto de da experiência venezuelana estar a inspirar muita gente aqui, apesar de também ter havido ilusões quanto ao facto de sem tocar o grande capital ser possível uma espécie de política venezuelana na Europa, ilusão que rebatemos.

No que respeita à integração são coisas completamente distintas, por saudamos o que acontece na América Latina no plano da integração regional. Porque no seu país, na sua região, a nossa impressão é que se trata de uma cooperação sobre bases igualitárias, em que todos os países têm as mesmas obrigações e os mesmos direitos, e esse não é o caso da chamada «integração europeia». Aqui na Europa temos dois ou três grandes países que ditam as condições a todos os outros, e considera-se isso normal. Porque esta é uma integração ditada pelos interesses do grande capital e das grandes empresas monopolistas. E claro, maiores empresas monopolistas estão nos países maiores, e essa constitui a grande diferença entre o processo de integração europeu e o que está a ocorrer na América Latina. Em segundo lugar, nós esperamos que a integração latino-americana sirva as necessidades sociais. Na Europa, esta integração só beneficia o grande capital, e o seu resultado está agora a ver-se na Grécia e noutros países europeus.

Esta entrevista foi divulgada pela rádio Yvke Mundial no dia 16 de Dezembro
www.radiomundial.com.ve

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