Lagwiyanne, a colónia desperta*

António Santos    07.Abr.17    Outros autores

A Guiana Francesa vive a maior luta da história da colónia. Paralisada há quase duas semanas por uma greve geral ilimitada, assistiu já a grandes manifestações de massas e à ocupação do Centro Espacial de onde a potência colonial lança os foguetes Ariane. Luta contra a dependência e a pobreza que levanta um território inteiro.

A «greve geral ilimitada» que há quase duas semanas paralisa a Guiana Francesa, colónia europeia no continente sul-americano, ameaça prolongar-se indefinidamente depois do falhanço das negociações entre os colectivos populares e o governo francês. Os ministros dos Departamentos e Territórios Ultramarinos, Ericka Bareigts, e do Interior, Matthias Fekl, enviados de emergência a Caiena para desactivar a crise, regressaram à metrópole, no domingo, de mãos a abanar: o movimento Pou Lagwiyanne Dékolé (PLD) [«Para que a Guiana descole», em crioulo] rejeitou a proposta governamental e, até ao fecho desta edição, os trabalhadores continuavam o protesto.

Para trás, fica a promessa do governo do Partido Socialista francês (PS) de aumentar em mil milhões de euros o investimento público no «território ultramarino», muito abaixo dos 2,5 mil milhões de euros exigidos pelo PLD para criar emprego e parar o desmoronamento dos sistemas públicos de educação, saúde e segurança social. Mas a promessa do PS é isso mesmo, uma promessa, feita em vésperas de eleições e igual a todas as que, ao longo dos anos, foram justificando a manutenção desta colónia à moda antiga.

Uma prisão que nunca deixou de o ser

Quatro séculos depois da chegada dos franceses, a antiga colónia penal francesa continua a condenar os nativos a uma prisão de pobreza e subdesenvolvimento: a taxa de desemprego ultrapassa os 23 por cento e o salário médio é 30 por cento mais baixo do que no resto da França mas os preços são, em média, 12 por cento mais altos. Somemos um aumento explosivo da população, em grande parte explicado pela imigração do Brasil e do Suriname, e uma brutal redução das funções sociais do Estado e temos a fotografia de uma catástrofe social. A Guiana Francesa, regista 17,2 homicídios por cada cem mil habitantes: uma taxa superior à da Serra Leoa ou do Chade, 14 vezes acima da do Hexágono francês.

Neste contexto de violência endémica, a greve geral decidida por 37 sindicatos reunidos em torno da central sindical União dos Trabalhadores Guianenses e apoiada por movimentos indígenas, partidos de esquerda e organizações independentistas teve de enfrentar, desde o primeiro dia, grupos de criminosos contratados pelo patronato. Perante a inoperância da polícia, começaram a surgir grupos como os «500 Irmãos Contra a Delinquência», uma milícia que, apesar de graves contradições políticas, tem garantido a segurança das ruas e dos piquetes.

Apesar das ameaças, a Guiana Francesa vive a maior luta da história da colónia. No dia 28, duas manifestações, contabilizando mais de 13 mil pessoas, sacudiram as ruas de Caiena e Saint-Laurent-du-Maroni, as duas principais cidades do departamento, um recorde para uma nação com pouco mais de 250 mil habitantes. Esta terça-feira, uma nova manifestação com milhares de pessoas inundou a cidade de Kourou e o Centro Espacial Guianense foi ocupado pelos 500 Irmãos, obrigando a adiar novamente o lançamento do foguete Ariane 5. Ao longo da semana agudizaram-se os poderosos efeitos da greve, alastraram os cortes de estradas e começaram a escassear os bens essenciais, mas é o Estado francês que continua em xeque.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2262, 6.04.2017

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