¿Manterá Bruxelas a estratégia nuclear do Pentágono?

Manlio Dinucci    30.Mar.17    Outros autores

Há indícios de que o directório da UE se dispõe a prosseguir e radicalizar ainda mais a política de confronto com a Rússia promovida pela administração Obama. A adopção da política agressiva da NATO como política explícita da própria UE incluiria até que a união dos monopólios se assumisse no seu conjunto como potência nuclear. A crise do capitalismo ressuscita todas as monstruosidades da sua história repleta de crimes.

O torpedo lançado do New York Times [1] – ao acusar Moscovo de violar o Tratado sobre as Forças Nucleares de Alcance Intermédio (FNI) – alcançou o seu objectivo, que era agravar as já tensas relações entre Estados Unidos e Rússia, travando ou impedindo a abertura da negociação que Trump tinha anunciado durante a sua campanha eleitoral.

Esse torpedo leva a assinatura de Barack Obama que, em Julho de 2014 – imediatamente após o putsch da Praça Maidan na Ucrânia e a subsequente crise com a Rússia – acusava o presidente russo Vladimir Putin de ter realizado ensaios com um míssil de cruzeiro com capacidades nucleares, denominado SSC-X-8, e de ter com isso violado o Tratado FNI de 1987, que proíbe a instalação de misseis terrestres cujo alcance varie entre 500 e 5 500 quilómetros.

Segundo declarações de funcionários anónimos dos serviços de informações estado-unidenses, 2 batalhões russos já dispõem actualmente desses artefactos. Cada um desses 2 batalhões estaria dotado de 4 rampas móveis e de 24 misseis com ogivas nucleares.

Antes de no ano passado deixar o cargo de Comandante Supremo das forças aliadas na Europa, o general Philip Breedlove afirmava que a instalação desse novo míssil russo «não pode ficar sem resposta». O que general estado-unidense Breedlove não dizia é que a NATO mantém instaladas na Europa – e apontando para a Rússia – cerca de 700 cabeças nucleares estado-unidenses, francesas e britânicas, quase todas prontas a ser utilizadas em qualquer momento. Tão pouco disse o general Breedlove que à medida que tem vindo a estender-se pelo território da antiga URSS, a NATO tem aproximado as suas forças nucleares do território da Rússia.

Insere-se nessa estratégia a decisão, adoptada pela administração Obama, de substituir as 180 bombas nucleares [estado-unidenses] B-61 – instaladas em Itália (50 na base de Aviano e 20 na de Ghedi Torre), Alemanha, Bélgica, Holanda e Turquia – pelas B61-12: novas armas atómicas dotadas de 4 opções de poder destrutivo seleccionáveis segundo o tipo de objectivo que se pretende atacar e capazes de penetrar no território do adversário para destruir os búnkers dos centros de comando. Trata-se de um programa de 10 000 milhões de dólares, ou seja que cada exemplar da nova bomba atómica [estado-unidense] custará mais que seu peso em ouro.

Simultaneamente, os Estados Unidos instalaram já na Roménia a primeira bateria terrestre de misseis da «defesa antimísseis», a que se seguirá a instalação de outra na Polonia, com misseis do sistema Aegis, já instalados além disso a bordo de 4 navios de guerra estado-unidenses colocados no Mediterrâneo e no Mar Negro. Trata-se do chamado «escudo», cuja função é na realidade de carácter ofensivo uma vez que, a completar-se a sua instalação, os Estados Unidos e a NATO colocariam a Rússia sob a ameaça de um primeiro golpe nuclear, dado que Washington e Bruxelas poderiam contar então com a capacidade do referido «escudo» para se proteger da represália.

Além disso, o sistema de lançamento vertical Mk-41 da Lockheed Martin, instalado nos navios e na base da Roménia, é capaz – segundo as especificações técnicas do fabricante – de lançar «misseis para todo o tipo de missões», incluindo missões «de ataque contra objectivos terrestres com misseis de cruzeiro do tipo Tomahawk», que também podem levar cabeças nucleares.

Moscovo advertiu já que essas baterias, ao serem capazes de lançar também misseis nucleares, violam o Tratado FNI.

¿Que faz a União Europeia ante esta situação? Enquanto clama aos quatro ventos que está comprometida com o desarmamento nuclear, a União Europeia está a conceber nos seus círculos políticos o que o New York Times define como algo «anteriormente impensável: um programa de armamento nuclear da UE.»

Segundo esse plano, o arsenal nuclear francês seria «reprogramado para proteger o resto da Europa e passaria a estar sob um comando comum europeu», que o financiaria com um fundo comum. Isso sucederia «se a Europa já não pudesse contar com a protecção estado-unidense». Por outras palavras, se Trump – chegando a um acordo com Putin – decidisse suspender a instalação das bombas B61-12 na Europa. Seria então a União Europeia quem garantiria a continuação da confrontação nuclear com a Rússia.
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[1] “Russia Has Deployed Missile Barred by Treaty, U.S. General Tells Lawmakers”, Michael Gordon, The New York Times, 9 de Março de 2017.
Il Manifesto / Red Voltaire