Médio Oriente*

Jorge Cadima    18.Ene.17    Outros autores

Tentar compreender o que se passa no Médio Oriente sem ter em conta a natureza do imperialismo e as suas ambições hegemónicas é condenar-se a não perceber o essencial. O imperialismo caracteriza-se pela ‘necessidade’ de dominar o planeta e os seus recursos. A sua relação com o Médio Oriente é uma história de guerra, subversão, ingerência e dominação. Não é de hoje. Tem exactamente a mesma duração histórica que tem essa fase superior do capitalismo.

Tentar compreender o que se passa no Médio Oriente sem ter em conta a natureza do imperialismo e as suas ambições hegemónicas é condenar-se a não perceber o essencial.

O imperialismo caracteriza-se pela ‘necessidade’ de dominar o planeta e os seus recursos. A sua relação com o Médio Oriente é uma história de guerra, subversão, ingerência e dominação. Há 100 anos, oForeign Office inglês mandava o seu agente Lawrence da Arábia instigar a revolta dos árabes, então sob dominação turco-otomana, prometendo apoio para uma independência futura. Com a Declaração de Balfour, prometia também o seu apoio à criação dum Estado judaico na Palestina. Mas ao mesmo tempo que distribuíam promessas na região (e fora dela), as potências imperialistas elaboravam planos secretos de partilha do Médio Oriente, como o acordo Sykes-Picot, revelado ao mundo pela jovem Revolução de Outubro. As promessas e instigação à revolta não visavam a libertação dos povos. Eram apenas mecanismos para alcançar o objectivo central das potências imperialistas: dominar a região.

É também assim nos nossos dias. Após a II Guerra Mundial, o imperialismo manteve o seu controlo sobre alguns países da região: Israel, Turquia, Jordânia e as mais autoritárias e retrógradas ditaduras da região, como a Arábia Saudita, Catar, EAU. Mas muitos outros países viram os seus movimentos de libertação nacional alcançarem o poder, pese embora numerosas contradições e limitações. Afirmaram políticas independentes e nacionalizaram os seus principais recursos, até então sob controlo imperialista, em particular o petróleo e o canal do Suez. Tudo isto num contexto em que a existência da URSS e do campo socialista limitava e condicionava a capacidade intervencionista do imperialismo. Entre estes países encontramos os principais alvos do imperialismo nos anos mais recentes: Síria, Iraque, Irão, Líbia.

Contra-ofensiva imperialista

A contra-revolução na URSS libertou o imperialismo de constrangimentos. Quem achar que isto é «conversa de comunistas», pode atentar na conversa dos imperialistas. O General Wesley Clark, comandante das tropas da NATO na guerra contra a Jugoslávia, conta1 que, em 1991, Paul Wolfowitz, na altura«o número três no Pentágono», lhe confidenciou que a principal lição da Guerra do Golfo foi a de que «aprendemos que podemos usar os nossos militares naquela região do Médio Oriente sem que os soviéticos [então na fase final da perestroika – NA] nos travem. E […] temos cerca de cinco ou dez anos para limpar todos aqueles regimes clientelares dos soviéticos, Síria, Irão, Iraque, antes que surja uma nova superpotência que nos desafie». Wesley Clark conta ainda que dez anos mais tarde o ministro da Defesa dos EUA deu instruções para invadir sete países nos cinco anos seguintes: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irão.

A contra-ofensiva do imperialismo para impor de novo a sua hegemonia sobre toda a região revestiu muitas formas. Por vezes interveio directamente (com os custos financeiros e políticos respectivos). Outras vezes delegou o trabalho sujo nos seus acólitos na região (Israel, Arábia Saudita, Turquia, Catar). Recorreu a criminosos bandos terroristas fundamentalistas. De novo distribuiu promessas, de estados curdos, sunitas, xiitas, sultanatos ou califados, a quantos participassem nas suas operações de desestabilização e caos. Tal como Saddam Hussein que em 1980 atacou o Irão, fazendo o frete aos EUA e Israel, os incautos que lhes derem ouvidos cedo descobrirão qual o valor das promessas imperialistas. No ‘novo mapa do Médio Oriente’ do Tenente-Coronel Peters, publicado na revista norte-americana Armed Forces Journal em 2006, não são apenas a Síria, o Iraque ou o Irão que aparecem fragmentados e retalhados. São também a Arábia Saudita e a Turquia.

Mas há razões para um optimismo cauteloso. A resistência do povo sírio e seus aliados, e a derrota dos planos de agressão imperialista na Síria, se consolidada, representa um acontecimento de grande alcance. O poder do velho imperialismo euro-americano revela os seus limites. É também por isso que as mentiras mediáticas são cada vez mais delirantes.

Esconder a ingerência imperialista no Médio Oriente é como tentar explicar a revolução da Terra no Espaço sem falar da existência do Sol. É impossível ser coerente na defesa do direito dos povos a decidir o seu destino, sem ser solidário com os povos que resistem às agressões e ingerências do imperialismo. E não haverá paz e progresso para a Humanidade sem a derrota do imperialismo.
1 Intervenção em 2007, disponível em: library.fora.tv/2007/10/03/Wesley_Clark_A_Time_to_lead
*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2250, 12.01.2017