Entrevista com Vladimir Putin

“Não conheço Trump, mas agrada-me que ele seja simples e directo”

Pelo seu óbvio interesse informativo publicamos, como documento, a transcrição completa da entrevista realizada pelos presidentes das dez maiores agências de notícias do mundo com o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

A primeira resposta do presidente russo foi a uma pergunta do director-geral da agência “TASS”, Serguei Mikhailov, sobre a “russofobia”.

Putin: Antes de mais nada, gostaria de falar sobre as causas do que ocorre, sobre as causas desta ‘russofobia’. Esta salta aos olhos, e em alguns países ultrapassa todos os limites.

A que se deve isso? Na minha opinião, tem a ver com o estabelecimento de um mundo multipolar, e este não agrada aos defensores do monopólio. O monopólio, como se sabe, é algo mau, mas os monopolistas lutam sempre por ele em todos os âmbitos, em todos os sectores e âmbitos da nossa vida.
Estabelece-se um mundo multipolar e isto acontece, e não em último lugar, graças à luta da Rússia pelos seus interesses. Quero destacar: pelos seus interesses legítimos. Esta é a primeira parte.

A segunda consiste em que certo tempo atrás os nossos parceiros em determinados países começaram a realizar tentativas para conter a Rússia, para conter o seu afã legítimo de garantir os seus interesses nacionais, com acções que não estão dentro do direito internacional, incluindo restrições de carácter económico. E agora vêem que isto não funciona, que o efeito é nulo. E isto cria irritação interna, o desejo de conseguir o seu objectivo por qualquer meio, o afã de agravar a situação. Mas lamentavelmente para os que o fazem, nós não damos motivos. Tentam, como dizem as pessoas, buscar pretextos no nada.

Vai durar muito isto? Acredito, em qualquer caso confio, que não muito, que não será eternamente, já que se deverá tomar consciência de que isto é contraproducente e prejudica a todos. Claro, causa-nos certo prejuízo, mas também prejudica a quem impulsiona essa política. Da minha maneira de ver, já se está a tomar consciência. Vemos muito claramente determinadas mudanças na situação. Confio em que esta tendência será mantida.

Pergunta: Na Alemanha, onde haverá eleições, reage-se com bastante nervosismo aos possíveis ataques cibernéticos por parte da Rússia. E é possível que hackers russos queiram injectar alguma informação falsa na campanha eleitoral. Acredita que é possível?

Putin: Os hackers podem estar em qualquer lugar, podem sair de qualquer parte do mundo. Claro que o ambiente geral nas relações entre os Estados têm muito a ver com isso, porque os hackers são pessoas livres, como os pintores. Um dia os pintores levantam-se de bom humor e dedicam-se a pintar. O mesmo acontece com os hackers. Acordam pela manhã e lêem o que está a acontecer hoje nas relações entre os Estados e se são patriotas vão querer pôr o seu grão de areia no que consideram uma luta contra aqueles que falam mal da Rússia. É possível isso? Teoricamente sim. Mas, como Estado, nunca fizemos essas coisas. Isto é o mais importante.

Também posso imaginar que alguém o faça de propósito, criando uma rede de ataques cibernéticos de maneira que o território da Rússia seja a sua origem. As tecnologias contemporâneas permitem isso, e é uma coisa que pode ser feita com bastante facilidade.

Mas o mais importante é que nenhum hacker pode influir de forma decisiva numa campanha eleitoral em outro país. Nenhuma informação pode ter qualquer efeito sobre a consciência dos eleitores e do povo, não pode afectar o resultado final. Esta é a minha resposta. Não nos dedicamos a isso a nível de Estado nem temos intenção de fazê-lo. Ao contrário, tentamos lutar contra isso no nosso país. Em qualquer caso, tenho certeza de que os hackers não poderão influir na campanha eleitoral de nenhum país de Europa, Ásia ou América.

Pergunta: Fala-se muito das boas relações entre o senhor e o presidente Trump. São tão amigos como se diz?

Putin: Não nos conhecemos. Não nos vimos nem uma só vez. Mas (o então candidato) Trump disse que as relações com a Rússia tinham um nível muito baixo e que se devia melhorar essa relação. Estamos dispostos a dialogar com Trump. Tenho que reconhecer que gosto deste tipo de pessoas: são simples, directos, têm uma visão muito franca das coisas e isso pode ser muito proveitoso.

Não me perguntem sobre que conselho lhe daria porque alguém como Trump não necessita de qualquer conselho e, menos ainda, do conselho de alguém que ocupa um cargo equivalente, pois isto sempre será mal interpretado e, portanto, contraproducente.

O que quero deixar claro é que nos interessa muito abrir linhas de diálogo com o senhor Trump, ainda que eu não saiba se isso será possível.

O que me une com o senhor Trump é que nem ele nem eu éramos políticos profissionais. Eu não era membro de nenhum partido e não me considero um político profissional.
Não sei como Trump se sente a este respeito mas, acreditem, não é oportuno dizer que eu gosto ou não do senhor Trump. Simplesmente, precisamos de estabelecer uma boa política de relação pessoal. Não sei se isso será possível, mas temos muita paciência e vamos esperar para ver o que acontece.

Pergunta: Como avalia as perspectivas de solução do problema nuclear da Coreia do Norte, sobretudo no contexto da actividade das tropas americanas na região?

Putin: Da mesma forma que aconteceu com o Irão, pode-se falar da ameaça nuclear da Coreia do Norte. Mas não acredito que se trate da Coreia do Norte. Inclusive se a Coreia do Norte declarar amanhã que cancela todos os seus testes nucleares, o posicionamento do sistema de defesa antimísseis dos EUA continuará. Será com outro pretexto ou sem pretexto, como fazem na Europa.

Quando falávamos do sistema de defesa antimísseis na Europa, diziam-nos que era feito para neutralizar o programa nuclear e a ameaça procedente do Irão. Supostamente. Agora foi assinado um acordo com o Irão e já não há nenhuma ameaça, tal como confirma o Organismo Internacional de Energia Atómica (OIEA). Apesar disso, o posicionamento do sistema de defesa antimísseis continua a um ritmo rápido. Contra quem?

Sempre dissemos que estão a enganar-nos. E respondiam-nos que era tudo pelo Irão. E agora eu sou o único que fala disto, enquanto todos os restantes estão calados como se não entendessem o que estamos a falar. Vocês entendem tudo. Então, por que ficam em silêncio? Vocês continuam todos calados, enquanto a situação piora. Tudo isto leva a uma nova corrida armamentista. É uma coisa óbvia. Nós estamos todo o tempo a pensar em como responder. Pensamos em como aperfeiçoar os nossos sistemas para superar o escudo antimísseis.

Pergunta: Neste contexto, acredita ser possível a desmilitarização das Ilhas Curilas?

Putin: O aumento do nosso potencial militar no extremo oriente da Rússia geralmente e nas ilhas em particular não é por iniciativa nossa, da mesma forma que na Europa. As bases da Nato aproximam-se das nossas fronteiras ocidentais, crescem as suas infra-estruturas e o seu contingente (militar). Que devemos fazer, ficar a olhar? Não, não vai ser assim. Reagimos da forma correspondente.

O mesmo acontece no Oriente. Um porta-aviões americano aproxima-se de nós, depois outro. Dizem que o terceiro já está a caminho. Os porta-aviões chegam e vão, mas existe o sistema de defesa antimísseis [voltado contra nós] que nos preocupa muito, e já estamos há dez anos a falar disso. É algo que destrói o equilíbrio estratégico no mundo.

Todos vocês são pessoas adultas e com décadas de experiência no mundo da informação, mas calam-se sobre isso. O mundo está em silêncio, como se nada acontecesse. No Alasca, agora também na Coreia do Sul aparecem elementos do escudo antimísseis. Devemos ficar a olhar da mesma forma que na parte ocidental da Rússia? Pois não. Planeamos como responder a esses desafios, porque para nós é um desafio.

O mesmo acontece com as ilhas. Pensamos em como garantir a nossa segurança, como neutralizar as ameaças nas nossas fronteiras distantes. E nesse sentido, as ilhas são um lugar cómodo para o fazer. Assim que não estou de acordo em que estejamos a começar a militarização dessas ilhas de forma unilateral. Trata-se de uma resposta necessária ao que acontece.

Quanto à possibilidade teórica da entrada em cena de tropas americanas nessas ilhas, supondo que algum dia passem para a soberania do Japão sim, essa possibilidade existe. Deriva do acordo (entre EUA e Japão) e dos protocolos assinados. Não nos mostram, mas conhecemos o seu conteúdo em geral. Não vou dar os detalhes, mas conheço-os. Por acaso queremos piorar as nossas relações com os EUA? Não, não queremos fazê-lo, e ainda que nada nos infunda medo, vemos o que acontece agora nos EUA. Toda essa campanha antirrussa, essa “russofobia”, continua. Não sabemos como se desenvolverá essa situação, porque não iniciamos esse processo. Nesta situação para nós é absolutamente inaceitável pelo menos supor que amanhã possam aparecer lá (nas Curilas) bases ou elementos do escudo antimísseis.
Claro que é possível conseguir a desmilitarização das ilhas, mas não é suficiente. Devemos pensar em reduzir a tensão em toda a região. Só assim poderemos fechar acordos de longo alcance, ainda que agora mesmo não possamos dizer como serão.

Pergunta: Na Suécia há agora um intenso debate sobre a incorporação ou não à NATO. Qual é sua opinião a esse respeito?

Putin: É claro que, se a Suécia entrar na Nato, isto vai causar um impacto negativo nas nossas relações. Considerá-lo-íamos uma ameaça adicional.

Não vamos ficar histéricos, mas de alguma maneira teremos que responder. Os suecos saberão se (entrar para a NATO) é algo de que precisam, mas nenhuma pessoa de bom senso pode sequer imaginar que a Rússia vai atacar a Suécia.

Estão a ser dadas muitas informações falsas sobre se os nossos submarinos estão perto da Suécia, etc. Isso é completamente falso. E eu pergunto: realmente interessa à Suécia estar envolvida neste conflito?

Pergunta: Este ano há eleições na Alemanha. Gostaria de trabalhar com a chanceler Ângela Merkel ou com Martin Schulz?

Putin: Ângela Merkel e eu conhecemo-nos há muito tempo. Temos diferenças, mas também temos muitos pontos de entendimento, sobretudo em questões de cooperação económica. Certamente em alguns aspectos de política internacional também temos opiniões em grande parte parecidas. Mas, insisto, há problemas cujas possíveis soluções entendemos de forma diferente.

O senhor Schulz apenas o conheço, mas tem uma ampla experiência tanto na política europeia como alemã, e voltou há pouco para a política alemã. Para nós, e refiro-me a toda a equipa (do governo) russo, em princípio é igual com quem trabalhar. O importante é que essas pessoas se orientem para uma cooperação construtiva. Não temos nenhuma preferência. Na minha opinião, se tanto nós como os nossos parceiros focarmos nos interesses fundamentais dos nossos países, em vez de nos deixar levar pela conjuntura, certamente encontraremos pontos de entendimento e o caminho correcto para uma cooperação efectiva.

Não tenho nenhuma dúvida a esse respeito, porque temos muitos interesses em comum. A interdependência em alguns sectores económicos é tamanha que da nossa cooperação dependem dezenas de milhares ou inclusive centenas de milhares de postos de trabalho, tanto na Alemanha como na Rússia. É um factor importantíssimo da nossa convivência no mundo actual, sobretudo na Europa.

Alguns produtores alemães têm uma enorme rentabilidade no mercado russo. Não é preciso ser um grande especialista para também saber que a economia russa tem interesse na cooperação tecnológica (com a Alemanha). Deve-se dizer que fazemos muito e com sucesso neste âmbito. Não só porque estão a recuperar-se os volumes de comércio com a República Federal, que acredito que cresceram 40% no primeiro trimestre. Também estamos a fazer toda uma série de projectos nos quais a localização em território da Rússia de indústrias (alemãs) de alta tecnologia chega a entre 60% e 70%. Um bom exemplo é a indústria automobilística.

Nenhuma empresa alemã tem saído do mercado russo, apesar de todas as dificuldades de carácter politico. Todas continuam a trabalhar, inclusive no meio das dificuldades económicas como a queda do PIB, a redução do salário efectivo da população, e em consequência, a queda da procura. Nós, por parte do Estado, tentamos apoiá-los.

Sem falar da energia. A Alemanha renunciou à energia nuclear, enquanto na estrutura do seu balanço energético a energia nuclear ocupa uma grande percentagem, maior que a da Rússia. De onde tirará então os recursos primários? As reservas da Noruega estão-se a esgotar, da mesma forma que as do Reino Unido, que logo se tornará consumidor líquido. Já na última edição do Fórum (de São Petersburgo) falamos das perspectivas da península de Yamal, onde temos algumas reservas de 2,7 milhares de milhões de metros cúbicos de gás. A Gazprom acaba de me informar que descobrimos lá mais recursos, até o dobro. Outros 4,2 milhares de milhões de metros cúbicos. E tudo isso num lugar, num território não muito grande. A cooperação neste campo é de senso comum, conforme a proximidade entre Rússia e Europa, a logística barata e os procedimentos consolidados. Falamos de uma energia barata, a mais ecológica entre os hidrocarbonetos.

Os contratos (de energia) de longa duração garantem provisões estáveis e a competitividade de toda a economia alemã. É algo sumamente importante. Uma energia relativamente barata obtida de uma fonte segura.

Além disso, historicamente temos algumas relações humanitárias consolidadas, sempre as tivemos. Apesar da tragédia das duas guerras (mundiais), o contacto entre os nossos povos sempre se manteve. Porque digo isto? Acredito que as pessoas que governarem a República Federal sejam capazes de avaliar essas relações e esses factores fundamentais terão, aconteça o que acontecer, um papel positivo.

Pergunta: Em relação à Espanha, está disposto a trabalhar numa política de isenções de vistos para favorecer as relações bilaterais?

Putin: Na Rússia, ficaremos felizes em poder flexibilizar a política de vistos com a Espanha, mas mais do que um problema nosso, é um problema de Espanha, que é quem tem restrições por pertencer ao espaço Schengen.

Mas haveria muitas opções para apressar essa política. Um exemplo pode ser a Turquia, onde temos um sistema de vistos muito simples que poderíamos copiar para Espanha. Isso permitiria liberar os vistos para os jovens, políticos, pessoal de organismos oficiais, e certamente para o turismo.

Pergunta: Que análise faz sobre a situação extrema que se vive na Venezuela? Como vê a aproximação entre Estados Unidos e Cuba?

Putin: A Venezuela é um país que está a viver uma luta política muito intensa. Queremos que tanto a oposição como o governo respeitem as regras do jogo, acatem a Constituição e não permitam os radicalismos.

Em relação a Cuba, saudamos a relação com os Estados Unidos. Demonstra que a política de sanções não serve para nada. No caso de Cuba, só serviu para prejudicar os cubanos. Foi uma boa decisão de Obama que nós felicitamos e aprovamos.

Pergunta: Quando vai anunciar a sua decisão sobre se concorrerá ou não às eleições presidenciais de Março de 2018?

Putin: Agora não é o momento. Falta cerca de um ano, e isso é muito tempo. No mundo contemporâneo da política, é muito (tempo). Leve em conta que, ao começar qualquer pré-campanha eleitoral, todo o mundo pára de trabalhar, e eu não vou contribuir para isso. Por isso, não vou adiantar nada agora. Será mais tarde. É preciso esperar.

Pergunta: Há sinais de recuperação da economia russa?

Putin: Estamos melhor, isso é claro. No ano passado, conseguimos estabilizar-nos, e estamos a habituar-nos a conviver com os preços baixos do petróleo. O PIB começou a crescer 0,3% no último trimestre do ano passado. Neste ano, constatamos um crescimento do consumo de recursos energéticos e do transporte em 0,5%.

A economia russa está-se a recuperar. O investimento estrangeiro aumentou em cinco vezes no ano passado, ajudando a balança comercial a atingir um excedente. Temos uma taxa de inflação de 4,6%, a mais baixa na história da Rússia moderna. E um desemprego de 5,2%, que é muito menor que o de muitos países europeus. Fomos construindo pouco a pouco uma rede de incentivos para apoiar a nossa economia. Estes e novos números vou poder apresentar na sessão plenária de amanhã.

http://www.efe.com/efe/portugal/eventos/entrevista-com-vladimir-putin-n-o-conhe-trump-mas-gosto-que-ele-seja-simples-e-direto/50001038-3289070

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