Não esquecer Luuanda de Luandino Vieira*

Manuel Gusmão    22.Jun.15    Outros autores

Numa época em que o branqueamento do fascismo progride em vários lugares do mundo, nomeadamente em países da Europa de Leste e central, o grupo parlamentar do PCP apresentou uma moção para que não se esqueça, saudando a coragem cívica de que deram mostras os escritores portugueses. Assim a AR, ao votar favoravelmente esta iniciativa do PCP, homenageou a Direcção da SPE e saudou a Associação Portuguesa de Escritores como digna sucessora da Sociedade violentamente extinta em 1965.

Há cerca de 50 anos, um júri da Sociedade Portuguesa de Escritores, constituído por Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho e Manuel da Fonseca atribuiu por unanimidade o grande prémio de novelística ao livro do escritor angolano Luandino Vieira, Luuanda.

Na altura em que lhe é atribuído este prémio, Luandino Vieira estava preso no Tarrafal a cumprir uma pena de 14 anos decretada pelas autoridades fascistas por alegadas actividades terroristas em Angola. Sobre a «Direcção da SPE, presidida por Jacinto do Prado Coelho, foram exercidas pressões de vária ordem para que revogasse a decisão do júri, [mas a Direcção] manteve uma firmeza exemplar» – recorda o texto do voto proposto pelo Grupo Parlamentar comunista.

As autoridades fascistas numa atitude típica do seu populismo reaccionário, resolveram simular uma reacção «popular» e anti-intelectual, patrioteira e racista, à deliberação da SPE e levaram bandos de energúmenos entre os quais havia agentes da PIDE e da Legião Portuguesa a assaltar, a saquear a sede da referida sociedade.

Ao mesmo tempo, o governo dissolveu essa instituição associativa, encerrou as suas instalações e decidiu proibir a sua reabertura que só acontecerá em 1972 e com o nome de «Associação Portuguesa de Escritores».

Numa época em que o branqueamento do fascismo progride em vários lugares do mundo, nomeadamente em países da Europa de Leste e central, o grupo parlamentar do PCP apresentou uma moção para que não se esqueça, saudando a coragem cívica de que deram mostras os escritores portugueses. Assim a AR, ao votar favoravelmente esta iniciativa do PCP, homenageou a Direcção da SPE e saudou a Associação Portuguesa de Escritores como digna sucessora da Sociedade violentamente extinta em 1965.

A estória em vez da história

Luuanda, foi escrito em 1963 no pavilhão prisional da PIDE e nas masmorras da 1.ª esquadra da PSPA em Luanda e teve a sua primeira edição em 1964 (em Luanda). E em 1965 há uma edição que tem indicações de ter sido feita no Brasil (Belo Horizonte, Minas Gerais) e que circulou clandestinamente em Lisboa, ainda nesse ano e pouco tempo depois de se saber da atribuição do prémio da SPE.

Luuanda busca representar uma identidade nacional africana, desde logo na maneira como usa a língua portuguesa e inscreve no seu próprio corpo textual marcas de outras estruturas convencionais da enunciação.

Assim, os três contos que compõem Luuanda são apresentados como «estórias» que aquando da sua escrita era uma expressão usada sobretudo no Brasil. Esta palavra «estória» acentuava o carácter narrativo do texto e do mesmo passo o seu carácter de ficção; a palavra «estória» substituía assim a palavra «história» que mantinha uma relativa ambiguidade entre a ideia de conto e a ideia de um discurso científico (a historiografia).

A preferência pela palavra «estória» representava uma escolha da literatura com contestação da verdade da história que tendia a ser tomada como produto dos vencedores.

Assim a «estória» leva a uma ritualização do conto oral, que marca no próprio texto a dependência da «estória» de um narrador ou contador tradicional.
Exemplos: «Vou pôr uma estória com bicho e pessoa. Não posso jurar é só verdade mesmo, não assisti os casos como passaram. Ouvi-lhes contar assim, lá na cadeira da esquadra.»

– Assim começa a segunda estória: «A estória do ladrão e do papagaio», que acabará de ser contada assim «…e isso é verdade, mesmo que os casos nunca tenham-se passado.»

E o terceiro e último conto, «A estória da galinha e do ovo» começa: «Vou pôr a estória da galinha e do ovo. Estes casos passaram no musseque Sambizanga, nesta nossa terra de Luanda.» E acaba assim: «Já pus minha estória. Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e que destes casos passaram nesta nossa terra de Luanda.»

Sinal da ritualização está na própria repetição das fórmulas usadas para referir a narrativa dos casos; o pôr das estórias e a questão complexa e jogada da verdade e da mentira da ficção.

Esta opção pela oralidade e pelo ritual indica uma atitude de resistência popular ao domínio do discurso escrito.

Por outro lado estas opções permitem introduzir na linguagem utilizada não só termos lexicais e sintácticos do quimbundo mas também criar novas regras gramaticais que não são sempre e necessariamente imitação de regras realmente existentes na língua dominada, mas são verdadeiras invenções verbais que fazem dançar o português. Ou, dito de outro modo, podemos dizer que Luuanda põe fora de si a língua portuguesa.

Alguns exemplos retirados dos primeiros parágrafos do primeiro conto e que exibem vários modos de gerar uma invenção semântica, através de transformações gramaticais. Esta maneira dá uma espécie de animação ou de vida criada pelas palavras a elementos da natureza que se tornam assim uma espécie de protagonistas do cenário ou da paisagem em que figuram.

1.º § – «Tinha mais de dois meses a chuva que não caía// talvez nem dois dias iam passar sem a chuva chover (…) // e toda gente deu razão em vavó Xíxi, ela tinha-lhes avisado (…) que a água ia vir mesmo.»

2.º § – «A chuva saiu duas vezes nessa manhã.»

3.º § – «As pessoas perguntavam se saía chuva mesmo.»

«Mas todos ouviam só o ar quente a correr maluco, às cambalhotas (…)»

4.º § – «Mas cansado desse jogo, o vento calou, ficou quieto.»

Já passou meio século, a linguagem de Luandino Viera mantém o frescor de há 52 anos. Continua a traçar os gestos, as emoções, os afectos e os saberes que se tecem nestes casos humanos, dos musseques de Luanda.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2168, 18.06.2015

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