O Mundo com Trump no ano de 2017

Um importante estudo que leva a sério as intenções de Trump na área económica, e procura estabelecer os cenários das repercussões que terão, seja nos EUA, seja no plano global. As perspectivas são sombrias. Mas não decorrem de eleição de Trump. Decorrem do quadro geral de um capitalismo em profunda crise.

O presidente recém-eleito afirmou que implementará políticas de investimento em infra-estrutura e aplicará cortes tributários. Se prosseguir nesse plano, levará a maiores défices fiscais e taxas de juro em alta nos Estados Unidos da América. Muitos norte americanos esperam o milagre económico de Trump, mas a verdade é que a Reserva Federal não estará sob o seu controlo até à segunda metade do ano de 2018. São os globalistas pró-Clinton que continuarão com o controlo e um grande poder, na Fed, de mudar as taxas de juro.

Este capital financeiro global também não ficará nos Estados Unidos porque a Reserva Federal (FED) já subiu as taxas de juro alguns dias depois do triunfo de Trump. A Fed considera que agora é o momento de aumentar as taxas de juro, anunciando três aumentos para 2017 e projectando mais três para 2018.
Claro que conforme a FED aumentar a taxa de lucro subirá a quantidade de dólares destinados ao serviço da dívida norte americana de 14 mil milhões de dólares. É obvio que os globalistas já têm um plano para enfraquecer Donald Trump e para destruir a economia norte americana.

A pergunta é se os globalistas conseguem construir a imputação da responsabilidade de Trump e suas políticas, ou se pelo contrário o grande público poderá ver claramente que é a elite financeira globalista que controla a mão que embala o berço da crise. Nesse caso o panorama abrir-se-ia para uma alternativa sistémica.

O Mundo com Trump

Introdução

O triunfo inesperado de Trump produziu também algumas reacções diversas no mercado. 1) em parte, os investidores assumem maiores riscos nas suas compras de activos (acções) em vez de títulos e compram dólares vendendo outras moedas e mesmo ouro. Existe este comportamento porque o presidente recém-eleito afirmou que implementará políticas de investimento em infra-estrutura e aplicará cortes tributários. Se prosseguir este plano, levará a maiores défices fiscais, e taxas de lucro em alta nos Estados Unidos.

O aspecto global da recalibração dos mercados centra-se nas tendências de investir em dólares à custa do euro e do yen, já que os dois estão em destaque em tipos de juros mais baixos e até negativos. Os fluxos de capital, obviamente, favorecem o dólar que reponta no mercado à custa do euro e do yen. O que poderia significar uma nova grande crise bancária na União Europeia e a sua entrada num eventual processo de desintegração, facto que não deixaria de ter um sabor a triunfo para o capital financeiro globalista, recentemente derrotado nas eleições dos Estados Unidos (já que a sua candidata era Clinton), e quem puder impor-se na crise da UE. Claro que o globalismo financeiro ficou ainda mais enfraquecido nos Estados Unidos ao perder agora o poder executivo, já tinha perdido o poder legislativo e o poder judicial, e nunca foi dominante no mercado interno nem no Pentágono. Embora continue a sê-lo no mercado mundial.

Este capital financeiro global também não estará tranquilo nos Estados Unidos porque a Reserva Federal (FED) já subiu as taxas de juro desde o triunfo de Trump. A FED considera que agora é o momento de aumentar as taxas de juro, anunciando três aumentos para 2017 e projectando mais três para 2018 e 2019. Muitos americanos aguardam o milagre económico de Trump, mas a verdade é que a Reserva Federal não está sob o seu controle até à segunda metade do ano de 2018, são os globalistas pró-Clinton que continuarão a ter o controlo e um forte poder na FED (2), de conseguir mudar as taxas de juro. Não seria estranho que o novo presidente em breve faça o esforço político de pôr fora de jogo a Reserva Federal, deixando nas mãos do Departamento do Tesouro (3) as suas funções essenciais. Senão terá de esperar até à segunda metade de 2018 o que poderá já ser demasiado tarde (4).

A Junta dos governadores da Reserva Federal tem sete lugares. Dois estão vazios desde 2014. Obama nomeou dois novos governadores mas foram recusados pelo Senado. Os cinco governadores em exercício são todos banqueiros, economistas e advogados de formação. O período da presidente, Janet Yellen, termina a 3 de Fevereiro de 2018 e o vice-presidente Stanley Fisher poderá ficar até 2020. O habitual é que ambos se retirem em 2018 e que Trump tenha possibilidade de nomear nesse caso pessoas que expressem os interesses dos sectores empresarial industrial, comercial e agrícola. O anterior implica que a partir de agora até princípios de 2018, a luta entre o neoliberalismo financeiro globalizado e o financeiro neoconservador e o nacionalismo industrialista será intensa; e se os globalistas querem causar um colapso financeiro para debilitar Donald Trump, terão de faze-lo o mais depressa possível, durante o ano de 2017 ou princípios de 2018 (5).

Claro que conforme a FED aumentar a taxa de juro aumentará a quantidade de dólares destinados ao serviço da dívida norte americana de 14 mil milhões de dólares. Os juros serão a parte do orçamento do Governo Federal que crescerá mais depressa. É óbvio que os globalistas já têm um plano para debilitar Donald Trump e para derrubar a economia americana, e vêm a executá-lo desde que Trump ganhou as eleições de 8 de Novembro de 2018 a partir de: anúncios de que a FED aumentaria a taxa de juro; das movimentações para que não atinja os 270 eleitores nos vinte colégios eleitorais a 19 de Dezembro de 2016; as mediáticas mobilizações de jovens nos grandes centros urbanos, a partir da denúncia da intromissão de hackers russos, etc.

No plano da economia, com o anúncio de um plano de fortes incrementos nas taxas de juro, tendem a provocar um colapso e farão o impossível através das principais corporações mediáticas sob o seu domínio para responsabilizar Trump e seus apoiantes económicos e políticos, pois o colapso é um processo e não um sucesso. O colapso/crack bancário implicaria sem dúvida processos de «bail-in», reduzindo ou praticamente eliminando o dinheiro-moeda para assim poder ter controlo sobre toda a população através das suas contas bancárias, facto que afectaria de modo directo todas as pessoas com contas próprias.

O plano dos globalistas quer acabar com o dólar como moeda internacional de referência e este colapso (crise) limitaria fortemente o peso do dólar no mercado internacional. Deste modo o valor do novo dólar já não seria controlado pela Reserva Federal, esta provavelmente teria que ceder esse papel ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e o dólar perderia muito do seu actual poder aquisitivo, mediante processos de desvalorização e inflação.

A pergunta é se os globalistas conseguirão construir a imputação da responsabilidade a Trump e suas políticas, ou se pelo contrário o grande público poderá ver claramente que é a elite financeira globalista quem controla a mão que embala o berço da crise. Nesse caso o panorama abrir-se-ia para uma alternativa sistémica (6).

Que irá passar-se no primeiro ano do governo de Donald Trump?

Para isso temos de analisar a próxima fase do ciclo de crédito e as implicações para as taxas de juro e de inflação. Um corte fiscal para estimular a produção nos Estados Unidos significará uma subida nas taxas de juro e com isso sobre os preços que vão subir. Nesse sentido poderíamos encontrar-nos com uma política «muito prudente» de Trump de não dar início à sua política fiscal ou de o fazer de um modo muito gradual. A subida de preços das matérias-primas dar-se-á de qualquer modo devido ao armazenamento contínuo de matérias-primas realizado pela China, cuja procura destas «commodities» entra em competição com a procura esperada que geram as quotas de infra-estrutura e re-industrialização anunciadas por Donald Trump.

Até Trump assumir, os bancos estão na fase inicial que marcará perdas em títulos, já que se verão obrigados a vender as suas carteiras de títulos para criar espaço para financiar os megaprojectos de infra-estrutura. A venda maciça de títulos que se aguarda vai implicar uma baixa de preço dos mesmos com as perdas bancárias correspondentes.

Os mecanismos por detrás dos fluxos de crédito bancário do sector financeiro ao produtivo são hoje diferentes das situações em tempos anteriores. A partir de 2008 o ciclo do crédito financeiro prolongou-se e foi distorcido artificialmente (7) devido a que à maioria dos maus investimentos acumulados (1999-2006), normalmente eliminados na fase de desaceleração do ciclo de crédito (2009-2014), lhes foi permitido persistir juntando-se-lhe toda uma emissão sem cobertura. Isto graças à supressão agressiva dos tipos de juro pela Reserva Federal que criou uma bolha de emissão de dinheiro não sustentada a taxas de juro zero e até negativas. Construiu-se assim uma bolha financeira várias vezes maior do que a que rebentou em 2008 nos Estados Unidos, com a queda do banco de investimentos Lehman Brothers, mas agora global.

Consequentemente, o crédito bancário acumulado dessa altura nunca se reorientou do uso improdutivo ao produtivo, mas ampliou-se sem parar em nome da engenharia financeira (bolha). Mas agora em 2017 os bancos têm de vender os seus títulos comprados a preços altos quando as taxas de juro estavam excepcionalmente baixas. Assim irão vende-los a fim de conseguir o espaço suficiente na sua carteira para poder oferecer empréstimos destinados à expansão da infra-estrutura e para financiar um défice fiscal em alta. A Sputniknews espera em 2017 uma venda maciça e consequentemente uma verdadeira queda no preço dos títulos do Tesouro. Tudo isso acontecerá em 2017, na hipótese de Donald Trump prosseguir os seus planos económicos.
Entretanto, os actores que apostam na actividade industrial, comercial e agrícola já anteciparam a baixa dos preços dos títulos em poder dos bancos. Anteciparam grandes perdas para os grandes bancos que receberam títulos emitidos à taxa de 0% e sem cobertura e que agora têm necessariamente que os vender. Pois o preço do título é o inverso da sua rentabilidade.

Dado que, antes dos planos expansionistas de Donald Trump, os rendimentos em títulos se encontravam em níveis invulgarmente baixos (devido às taxas de juro excepcionalmente baixas 0% ou negativas), agora aguardam-se grandes perdas bancárias no mercado de títulos.

Esperam-se grandes perdas para os bancos por estes terem de vender quando, tanto fora dos Estados Unidos (sobretudo Chineses) como os mesmos bancos dentro dos Estados Unidos, há uma pressão forte para investir em: a) grandes projectos de infra-estrutura dentro e fora dos Estados Unidos, b) pela politica da FED de elevar as taxas de juro por motivos geopolíticos na disputa entre os capitais financeiros dentro dos Estados Unidos, c) também como resultado das expectativas de inflação e d) como consequência da própria queda dos títulos.

A liquidação de títulos do Tesouro no exterior

Com efeito a baixa dos títulos do Tesouro não se define apenas por causas internas. Já mencionamos no nosso artigo anterior (8) que não só a China como os países asiáticos em geral, com excepção do Japão, estão a desfazer-se maciçamente dos títulos do Tesouro. Esta liquidação maciça de títulos é algo que Washington já temia há anos, porque poria a Reserva Federal na posição de ter de aumentar as taxas de juro. Um aumento nas taxas de juro reforçar-se-á principalmente se esta liquidação de títulos continua ou até se acentua nos próximos meses.

Trump já advertia que quando a FED aumenta com demasiada frequência as taxas de juro, o dólar ficará fortalecido ao haver uma procura forte da nota verde, pelo menos temporariamente, até ser trocada por ouro ou matérias-primas, aumentando o preço de ambos. No dia em que a presidência da FED acelerar o aumento das taxas de juro (o próximo aumento pode ser já em Fevereiro de 2017) Trump não poderá contar com Yellen e a sua «administração» para aplicar a expansão monetária que se ocupa em financiar o seu défice fiscal. Fará a pressão necessária sobre a FED para não aumentar as taxas de juro e talvez não espere por Fevereiro de 2018 para substitui-la de uma forma ou outra. Ele gostaria de substituir Yellen mas o seu mandato termina em Fevereiro de 2018 (9).

As consequências de um estímulo fiscal

Os títulos

O presidente eleito tem como projecto promover um estímulo fiscal substancial para a empresa privada industrial, comercial e agrícola. A diferença entre um estímulo monetário e outro fiscal encontra-se na inflação dos preços. O estímulo monetário tende a aumentar os preços dos activos, enquanto um estímulo fiscal tende a inflacionar os preços ao consumidor. Portanto, o estímulo fiscal leva com maior certeza ao aumento das taxas de juro devido à inflação dos preços. A subida nos rendimentos dos títulos produz-se ao vende-los a preços em baixa. A baixa no preço dos títulos causará perdas dolorosas para os bancos com fortes investimentos em títulos (principalmente os de curto prazo) que compraram na altura da sua maior valorização.

Isto junta-se a uma debilidade estrutural que todos os bancos carregam desde a crise de 2008 a que se somou um mundo de bancos e bancos centrais expostos à grande bolha financeira que se gerou para protelar o cenário de ganhadores e perdedores entre as grandes bancas financeiras transnacionais. Os grandes perdedores imediatos conseguiram atrasar a resolução da crise, produto da luta de interesses financeiros transnacionais, até poder construir-impor um cenário favorável na disputa.

É este o fundamento dessa grande bolha financeira que deixa todos os bancos centrais, todas as moedas internacionais, todos os grandes bancos expostos à crise da bolha financeira e que ao mesmo tempo lhes permitiu protelar a sua resolução desde 2008 até agora. Mas neste momento o terreno é muito mais complexo que em 2008, é de muito maior envergadura e já não existem só opções em esquemas financeiros mas emergiram já as opções alternativas anti financeiras e multipolares universais (10)

As acções

Pode esperar-se que a mudança de um estímulo monetário, durante o período pós crise de 2008 a 2016, a outro fiscal em 2017 afecte também negativamente os preços dos activos, pelas razões que adiante se esclarecem. Na fase expansiva, o dinheiro deve abandonar as actividades puramente financeiras. Todavia, não se pode ter simultaneamente um estímulo fiscal e uma reatribuição de recursos económicos ao sector privado não financeiro sem criar um poderoso efeito de preços sobre os relativamente escassos activos financeiros. Consequentemente, não se espera só uma queda nos preços dos títulos devido a um aumento nos rendimentos via juros dos mesmos, mas também nos mercados bolsistas haverá uma clara tendência para a subida de tal modo que os fundamentos das acções parecerão estar no seu melhor momento. Por isso, a euforia pós eleitoral com a vitória de Donald Trump nas bolsas de valores é um reflexo de um sentimento positivo, que vai à frente da realidade (11).

A expansão monetária e as taxas de juro

Os keynesianos argumentariam que as tensões que o sector financeiro enfrenta podem compensar-se com a expansão do crédito. Inicialmente pode ser este o caso, sempre que os bancos tenham espaço nas suas folhas de balanço para um acréscimo adicional de crédito. Entretanto, os efeitos inflacionários da expansão fiscal sobre os preços ao consumidor transformam-se numa força considerável e relativamente imediata, dominando rapidamente as considerações da política monetária. Isso deve-se a que um défice fiscal se traduz directamente num aumento da procura de bens e serviços através do aumento na despesa pública, elevando os preços à medida que se gasta dinheiro extra criado a partir do nada. O resultado será que o banco central aumentará inevitavelmente as taxas de juro a fim de proteger o poder aquisitivo da moeda (Tyler Durden, Trump versus China: Ciclos de Crédito e Ouro, www. GoldMoney.com., 3 de Dezembro de 2016).

O exemplo mais claro na memória presente para explicar as consequências da política económica de Trump, afirma Durden, é provavelmente a economia da Grã Bretanha na primeira metade dos anos setenta. A partir de 1970, o governo estimulou agressivamente a economia ao aumentar o défice fiscal a partir de uma baixa nas taxas de juro. O resultado foi uma subida no mercado bolsista que acabou em Maio de 1972. Os juros pagos pelos títulos do governo britânico tinham tocado no fundo no início desse ano. À medida que se percebia que a economia melhorava, o Banco de Inglaterra aumentou os tipos de juro com a inflação de preços como consequência. Os títulos vendiam-se a um preço menor ao mesmo tempo que os seus rendimentos cresciam. A especulação levou os mercados de valores a investir na propriedade comercial, quando os alugueres e os valores dos imóveis subiram devido à expansão da procura de escritórios, impulsionada por um boom económico artificial.

A inflação de preços acelerou-se até ao ponto em que as taxas de juro tiveram de ser aumentadas ainda mais, provocando um colapso no mercado imobiliário, o que obrigou ao resgate dos bancos envolvidos. Ao longo do ciclo, continua Durden, a taxa básica do Banco de Inglaterra tinha aumentado de 5% em Setembro de 1971 para 13% em Novembro de 1973, precipitando o colapso do mercado imobiliário. Os rendimentos dos títulos a longo prazo haviam duplicado para mais de 15% e fins de 1975 a bolsa de valores tinha perdido 75% do seu valor. A situação financeira do Governo britânico era tão má que teve de pedir dinheiro emprestado ao FMI.

Tudo isto sucedia na Grã-Bretanha entre 1970-1979, quando o mundo se encontrava ainda sem a maior emissão de dinheiro pelos bancos centrais sem apoio na economia real. Se estivesse no meio da crise da sustentação em ouro do dólar como moeda fiduciária, provocada pela decisão da Alemanha e França de 1967 de exigir os seus créditos aos Estados Unidos em ouro, facto que foi resultado da decisão dos Estados Unidos de propor o não reconhecimento da dívida, a não convertibilidade em ouro do dólar e a passagem à sustentação do dólar no comercio do petróleo com a Arábia Saudita (os chamados petrodólares). Tudo isto aconteceu quando a economia dos Estados Unidos era central e ainda o motor da economia mundial. Algo que deixou de acontecer a partir da crise de 2008 e que é o grande fundamento desta crise mundial.

Assim se nos apresenta o dilema de qual será o caminho que a política de Donald Trump seguirá na economia dos Estados Unidos numa situação quadro mundial totalmente diferente da de 1970/79.

Um provável colapso financeiro nos Estados Unidos em 2017

Donald Trump ao tentar seguir as políticas fiscais expansionistas da Grã Bretanha de 1970, está a gerar nos Estados Unidos todos os sinais de um ciclo semelhante, mas a uma escala muito superior. Mas há diferenças obvias, principalmente na alta carga da divida no sector privado. Na década de 70 os níveis da divida do sector privado eram baixos e tanto assim que os preços do imobiliário residencial no Reino Unido inicialmente não se viu afectado pelo aumento das taxas de juro. Hoje em dia, os bens residenciais nos Estados Unidos contam com hipotecas que alcançam 80% do valor da propriedade. De facto, o nível de divida do sector privado em geral nos Estados Unidos é agora tão grande que um aumento na taxa de juro dos fundos federais em uns dois ou três por cento já pode ser suficiente para o colapso tanto dos preços da habitação como no sector financeiro como um todo.

Um provável colapso financeiro da UE em 2017

Outra diferença importante é a interconexão dos mercados. O aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos traduzir-se-á sem dúvida na migração de euros a dólares procurando rendimentos crescentes de investimentos em dólares. Isso afecta particularmente a zona do euro. Os bancos da zona-euro vão enfrentar perdas no mercado de títulos (já que os seus investidores procurarão vende-los para investir em dólares.) potencialmente tão grandes que todo o sistema bancário europeu poderá cair e até a sua própria sobrevivência poderá ver-se ameaçada por esses desenvolvimentos. É provável que o BCE (13) continue a injectar dinheiro no sector financeiro numa tentativa desesperada de salvar os bancos, mas só poderá faze-lo enquanto o efeito da inflação de preços de um euro em queda não o obrigue a elevar também as taxas de juro.

Perante a ameaça de uma forte crise bancária a Comissão Europeia está a aumentar os controlos sobre a moeda em efectivo e os metais preciosos como o ouro e a prata. No quadro dos «ataques terroristas» como o que teve lugar este Natal em Berlim pretende-se limitar a possibilidade de operar com dinheiro em efectivo e antes de tudo desde e para o exterior. O anterior tem que ver com a implementação de um canal que fecha as oportunidades de fuga de dinheiro para fora. A posse de ouro tornar-se-á ilegal, o que implica num claro confisco da riqueza das pessoas. Ao tirar de circulação as notas de maior valor, limitar-se-á a possibilidade de guardar dinheiro fora do banco, debaixo do colchão. Todo o antecedente para preparar um «bail in» para o momento da bancarrota. (14)

Donald Trump e a sua «ligação» à Rússia em 2017

O novo presidente dos Estados Unidos anunciou que o seu próximo Secretário de Estado será Rex Tillerson, executivo da empresa petrolífera ExxonMobil, o homem que deu inicio ao «fracking», ao desenvolver petróleo e gás não convencional. O Departamento de Estado que vai dirigir está encarregado de toda a espécie de guerras económicas no mundo. Tudo isto num momento em que os dias do dólar parecem estar contados e que as moedas fortes estão cada vez mais situadas no Leste. Rex Tillerson tem uma ligação forte à dinastia Rockfeller, cuja fortuna na Standard Oil derivou para a fundação da ExxonMobil.

Tillerson e o seu controlo sobre o gás natural — que tem o poder de levar o preço do petróleo a uma queda livre — poderia resultar numa arma económica por excelência na guerra económica e na negociação comercial. A capacidade de controlar a oferta e a procura de energia será o principal jogo de poder. Putin poderá ser ou não um aliado neste processo já que a ExxonMobil tem também grandes investimentos na Federação Russa e interesses comuns para explorar o Árctico. Para o ano de 2017 será afastada uma guerra potencial com a Rússia e haverá paz neste ano (15).

Trump e a sua relação com a China e a América Latina

A Grã-Bretanha nos anos setenta, tal como como os Estados Unidos nos próximos anos, ambos têm um problema específico comum: o aumento de preço das «commodities» (matérias-primas) em geral e da energia em particular. A procura artificial gerada pela expansão fiscal nos Estados Unidos nos anos 1970-74 contribuiu para um aumento significativo no nível geral dos preços das «commodities». O mais notável foi o aumento no preço do petróleo, já que só em 1973 a OPEP subiu o preço por barril de US$ 3 para US$ 12. A subida dos preços das «commodities» pagou-se mediante a expansão monetária, como hoje. Mas hoje a China esta a levar a cabo vastos planos de infra-estrutura para toda a Ásia (16), o que a obriga a armazenar e consumir quantidades sem precedentes de matérias-primas industriais e energia. Estes planos da China e os BRICS também envolvem e contêm capitais financeiros globais com os quais somam e explicam que o 63% do PMB mundial se produza nas economias emergentes (não nos Estados Unidos). Os planos expansionistas de Trump entrarão em conflito com os maiores planos que a China já tem em marcha, elevando ainda mais os preços das «commodities» expressos em dólares. Isso, alem dos aumentos já vistos antes da entrada de Trump, piora ainda mais a perspectiva dos preços. Fica assim claro o porquê do conflito de interesses entre a China e os Estados Unidos na política económica de Trump. Isso poderá ter um efeito de carambola na América Latina. No conflito latente pelas matérias-primas é de esperar que, quase seguramente, a doutrina Monroe ressurgirá em força.

O ouro, o colapso sistémico e a perspectiva posterior

O ouro encontra-se preso em baixa temporal do seu preço, sendo a sua venda uma forma rápida para que os fundos de cobertura situados nos Estados Unidos comprem dólares com um preço e rendimentos em alta. Embora esta pressão possa persistir, sobretudo se o euro enfraquecer mais, consideramos que é essencialmente um efeito temporário de conjuntura. Em 2017 o ouro terá tendência a subir.

Entre 1970 e fins de 1974 o ouro subiu de $35 para $197.50, um aumento de mais de 500%. Durante esse período, como já mencionamos, a taxa básica do Banco de Inglaterra passou de 5% para 13%. A taxa de desconto da Fed subiu de 4,5% em 1972 para 8% em Agosto de 1974. Assim observamos que um aumento no preço do ouro foi acompanhado por um aumento na taxa de juro, o que contradiz os saberes da economia convencional de hoje.

A 21 de Janeiro de 1980 o ouro alcançou um preço máximo de 850 dólares, quando a taxa de desconto da FED se situou em 12%. A convicção actual de que um aumento das taxas de juro seria má para o ouro foi refutada por esses acontecimentos. A razão pela qual o ouro subiu não teve que ver com as taxas de juro, e teve tudo a ver com a aceleração da inflação de preços. A única forma de deter um aumento de preço do ouro era elevar suficientemente altos e fortes os tipos de juro como se tratasse de um golpe que pudesse colapsar a actividade económica, tal como fez Paul Volcker em 1980-81, e o que poderia chegar a fazer a Fed se continuasse nas mãos dos globalistas no ano de 2017.

Outra maneira de ver o preço do ouro em perspectiva é pensar nele em termos de preços das matérias-primas, que a longo prazo tendem a ser mais estáveis quando se medem em ouro, que quando se medem em moedas fiduciárias (18). Dada a perspectiva da subida dos preços das matérias-primas, já que tanto a China como os Estados Unidos competem pelas mesmas e aumentam a quantidade de dinheiro para as pagar, é mais lógico que o preço do ouro mantenha o seu nível de poder aquisitivo perante o aumento dos preços das «commodities» e não em relação à perda de poder aquisitivo das moedas fiduciárias.

Mas a China tem-se preparado para este momento histórico, empreendendo uma política de longo tempo de armazenamento de ouro desde 1983. A quantidade de ouro que o país já acumulou, além das reservas oficiais declaradas, é um segredo de estado, mas o cálculo é de pelo menos 20 000 toneladas. Em 2002, o Estado chinês provavelmente já tinha assegurado suficiente ouro físico para permitir que os seus cidadãos se unissem à iniciativa, porque nesse ano o Banco do Povo estabeleceu a Bolsa de Ouro de Xangai e levantou a proibição da propriedade privada do ouro na China.

Nos últimos catorze anos, os particulares e as empresas da China acumularam pelo menos outras 10 000 toneladas e a China converteu-se de longe no maior produtor e refinador de ouro. Podemos dizer que a China se preparou e aos seus cidadãos com tempo suficiente para o colapso do poder aquisitivo das moedas fiduciárias que a sua procura de «commodities» provavelmente provocará. A única coisa a fazer é desfazer-se dos seus títulos do Tesouro dos Estados Unidos acumulados no passado antes que estes fiquem sem valor, coisa que já está a acontecer de forma acelerada.

Além disso, a China tem vindo a desenvolver um esquema de poder produtivo, multipolar e à escala universal. Esquema que compartilha com a Rússia e a União Económica Euroasiática, com a Índia e a sua área de influência, com o Brasil-Argentina e a Unsasur-Celac, com a Africa do Sul e a União Africana, aos quais se juntam o Paquistão, Irão, Síria, Egipto e outros. Um esquema com moeda internacional centrada no yen e o cabaz de moedas Brics, com um Banco de Infra-estrutura e Desenvolvimento (BAII), um Fundo de fomento, um sistema próprio de compensação de intercâmbio, um plano de infra-estrutura e desenvolvimento que em breve chegará a Inglaterra como um comboio de carga de alta velocidade. Um plano de infra-estrutura, que tem na sua rota da seda o fim de chegar até aos Estados Unidos pela ponte terrestre que une a Sibéria e o Alasca, e que tem em sectores do poder dos Estados Unidos, os Rooseveltianos no Partido Republicano que promovem esta saída produtiva para o povo norte-americano. E que promovem também a re-institucionalização da Lei Glass Steagall como única forma de enfraquecer estruturalmente o capital financeiro global, ao impedir que a banca de financiamento de investimentos possa existir e sustentar as redes financeiras globais. Assim, Trump tem também uma via para a industrialização por meio desta articulação com os Brics.

Em contrapartida, os Estados Unidos estão muito mal preparados para enfrentar uma subida de preços das matérias-primas. As suas reservas de ouro, se forem como se pensa, o que é duvidoso (19) são insuficientes para assegurar um dólar em queda, e em qualquer caso a conversão em ouro de posições em dólares já não será fácil. Nos próximos anos e em termos de procura das «commodities» os Estados Unidos terão em qualquer caso de actuar como segunda figura a par da China (e não como em 1970, quando a Grã-Bretanha ocupava esse lugar), piorando potencialmente a situação dos preços em dólares.

Devido à continua procura não cíclica de matérias-primas por parte da China existe um risco significativo que nem sequer sendo uma depressão devida à liquidação da divida provocada por subidas significativas nas taxas de juro conseguirá controlar a inflação de preços expressa em moedas ocidentais. Ao contrário dos anos setenta, quando o dólar punha a música com que todos os outros dançavam, hoje a China, a Rússia e todas as nações vinculadas a elas pelo comércio neste momento já não dançam ao som da música do dólar. Consequentemente, a política monetária norte-americana já não exerce um controlo absoluto sobre a inflação dos preços mundiais, medida em dólares ou outras moedas fiduciárias.

Portanto as pressões inflacionárias (dos preços das matérias-primas) poderiam persistir, por mais que caiam os preços dos títulos do Tesouro (títulos de divida norte-americana) A possibilidade de que o conjunto de preços de dólares continue a ser inflacionário em meio de uma forte recessão económica dos Estados Unidos não pode afastar-se, mesmo se em 2018 a política monetária da Reserva Federal for já manejada pela administração Trump. Observamos aqui a conjuntura para um cenário de golpe que os globalistas poderiam dar alimentando este colapso e isto pode acontecer no período de tempo que vai de Janeiro de 2017 a princípios de 2018. Antes que esta possibilidade se torne realidade, a probabilidade de que provoquem um colapso sistémico na zona euro é um risco e uma ameaça ainda mais imediatos.

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Notas:
1. A denominação de «mercados» faz referência aos comportamentos dos grandes capitalistas que compõem «jogadas de poder» que arrastam após si pequenos empresários e governos.
2. Banco Central dos Estados Unidos (Estados Unidos da América)
3. Transferir o poder do controlo soberano da moeda do banco central (Reserva Federal) para o ministério da Economia (departamento do Tesouro). Um objectivo que tentaram também Abraham Lincoln entre 1861-65 e J. F. Kennedy entre 1961-63. Lincoln no tempo da guerra de Secessão dos Estados Unidos, secessão do domínio que a Grã-Bretanha exercia sobre as colónias norte americanas e guerra civil entre o Norte com um programa industrialista de desenvolvimento soberano e o Sul com programa agrário dependente articulado com grande indústria britânica. Kennedy em tempos da guerra fria do pós Segunda Guerra Mundial onde os Estados Unidos se impõem no Ocidente, subordinam a Grã-Bretanha e a Europa com o seu Plano Marshall de «reconstrução» como motor de desenvolvimento do seu poder industrial e as suas corporações multinacionais, no meio da guerra do Vietname, a revolução cubana, a crise dos mísseis e enfrentando a URSS num mundo geo-estrategicamente bipolar.
4. Michal Snyder, Why Fed Might Actually Raise Rates 3 Times em 2017.
www.silverdoctors.com, 21 de Dezembro de 2016.
5. John Maudin, Trump Appointees Could Make Up the Majority of the Fed in Two Years. www.marketoracle.co.uk, 20 de Dezembro de 2016.
6. Mac Slavo, Brandon Smith Warns the System is Crashing: «Prepare for Bank Confiscations, Shortages, Insurgency», www.silverdoctors.com, 27 de Dezembro de 2016.
7. O programa chamado de flexibilização quantitativa eq-2009/2014, que implica uma monstruosa emissão maciça da Fed sem apoio na economia real (bolha fictícia ou artificial) à taxa de 0% e com compra de divida má - títulos/lixo - aos bancos. Construindo uma grande bolha financeira cujo tamanho é pelo menos 10 vezes maior do que a que rebentou em 2008 com a queda dos Lehman Brothers. Que vai envolver todos os bancos centrais das grandes economias e suas moedas.
8. Eleições nos Estados Unidos em 2016. Ganhou o aprofundamento da crise global. Wim Dierckxsens e Walter Formento
19/12/2016: http://www.alainet.org./es/articulo/182448
9. Ele gostaria de substituir Yellen mas o mandato dela só termina em Fevereiro de 2018. Dan Steinbock Why Are Foreign Nations Dumping US Treasures, http://webcache.googleusercontent.com. 21 de Dezembro de 2018.
10. Geopolítica da Crise Económica Mundial. Globalismo versus Universalismo. Walter Formento e Wim Dierckxsens. Ed.Fabro. Setembro de 2016.ISBN 978-987-7-713-096-6
11. Tyler Durden. Trump versus China. Ciclos de Crédito e Ouro. www.GoldMoney.com. 3 de Dezembro de 2016.
12. É dinheiro que não se apoia em metais preciosos nem nada que não seja uma promessa de pagamento por parte da entidade emissora. É importante ter em conta que entendemos a confiança da comunidade como o conjunto da riqueza aparente que apresenta a comunidade emissora da moeda. É o modelo monetário que predomina actualmente no mundo, e é o dólar norte-americano, o euro e todas as outras moedas de reserva.
13. Banco Central Europeu.
14. Tyler Durden. A Europa Propõe Confiscar o Ouro na Queda no «Financiamento Terrorista» www.silverdoctors.com, 28 de Dezembro de 2016.
15. Aaron Dykes. O secretário de Estado de Trump Pick Will «Determina Guerra ou Paz com a Rússia». Com o seu poder sobre a energia. www.truthstreammedia.com.
28 de Dezembro de 2016.
16. A China anunciou em 2014 a criação da iniciativa Uma Cintura, uma Estrada (OBOR) um projecto económico que procura potenciar os fluxos comerciais entre a Ásia e a Europa, mas que também implica um claro objectivo político, criar e fortalecer vínculos com os países participantes e potenciar a sua influência na Ásia e na Europa (…) é um vasto plano de acordos comerciais e de infra-estrutura que supõe a construção de portos, aeroportos, estradas e gasodutos e a colaboração nos âmbitos de energia, finanças, ciência e tecnologia e I+D; prevê até a criação de uma área de integração económica. O projecto estaria apoiado principalmente pelo Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (AIIB em inglês) liderado pela China, ao que se acrescentaria um fundo de 40 000 milhões de dólares vindos de Pequim. Se os números de investimento anunciados pela China se tomarem ao pé da letra estamos perante a iniciativa de diplomacia económica mais ambiciosa desde o Plano Marshall http://elordenmundial.com/2016/11/01/la nueva-ruta-la-seda-iniciativa-economica-ofensiva-diplomatica/
17. Idem Nota 10.
18. Ou seja, dinheiro que não se apoia em metais preciosos ou nada que não seja uma promessa de pagamento por parte da entidade emissora. É importante ter em conta que entendemos a confiança da comunidade como o conjunto da riqueza aparente que apresenta a comunidade emissora da moeda. É o modelo monetário que predomina actualmente no mundo, e é o do dólar norte-americano, o euro e todas as outras moedas de reserva.

19. O Dr. Paul Craig Roberts, ex-subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan afirma: os norte-americanos não têm ouro e não o podem entregar, e obrigaram a que a Alemanha aceite esses termos e deixe de o pedir visto não poderem entregá-lo.

http://scl.io.MhMUvyRd#gs.OCaYeCU.http:scl.io/Mh/MUvyRd#gs.

Tradução: Manuela Antunes

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