O muro

O Muro de Trump é a imagem de outras barreiras - incluindo as de classe - que passam não pela fronteira, mas pelo interior do México. Só a menção de o acabar já atraiu simpatias de classe e solidariedades ideológicas. Dos dois lados do México. Já não somos tão ingénuos que acreditemos que a iniciativa de uma aberração assim nasceu apenas de um lado. Edificaram-se muros (comerciais, políticos, raciais, educativos…) de igual ou pior envergadura e sempre contaram com a cumplicidade voluntária de sectores servis.

De todas as formas possíveis de «sanção», «crítica» ou «disciplinamento» com que um império gosta de «castigar», Donald Trump escolheu um Muro e não o fez impensadamente (como dizem alguns dos seus detractores) nem o fez apenas por negócio como imaginam algumas das construtoras que sonham com o projecto… Trata-se de uma operação ideológica que tem raízes profundas numa disputa territorial de latifundiários, que é também simbólica, por reafirmar-se na usurpação e delimitação das «suas» terras. Trump sonha com um Muro de 1600 quilómetros. Lógica old fashion como na China. Dos 3.200 quilómetros de fronteira entre os EUA e o México quase um terço já tem vigas de cimento armado, cercas electrificadas e câmaras de vigilância.

Pôr um muro num território que tem uma história de ocupação, corrupção e crime sem limites, é coerente com a lógica da burguesia empenhada em transformar em ameaça tudo o que é diferente. Especialmente se isso incluir cor de pele, idioma e cultura de racismo e todas as loucuras do imperialismo. O seu protótipo mais claro está em Israel. Custará 25 mil milhões de dólares e querem que seja o povo mexicano a pagar. Aí está o verdadeiro «castigo».

É a lógica dos «bairros privados» que tanto encantam a pequena burguesia. O magnata imobiliário sabe-o bem. O Muro dá relevo às ideias mais acarinhadas pela burguesia: «isto é meu». Reafirma a «propriedade privada» e o distanciamento do «outro». Configura a caracterização do «diferente» como «perigoso» e surge como correctivo simbólico indelével para que o mundo entenda de que lado está o «poder». Quando o verdadeiro poder está sim do lado do povo… embora os povos (por enquanto) não se apercebam disso.

Parece uma antiguidade de magnata petulante, parece um capricho de «menino rico» empenhado em castigar-nos com o seu ego desaforado. Parece uma idiotice… parecesse mil coisas num mundo em que nada é o que parece. Embora pudesse tomar mil medidas alfandegárias, impositivas, tecnológicas… exibir os seus «Rambos», os seus soldados, as suas armas. Embora pudesse semear paramilitares (como na Venezuela), pudesse financiar os seus Ku Klux Klans, drones, cães, raios laser… pudesse impor leis mais «duras», imprensa mais amarela, patrulha de fronteira mais fascista… Embora pudesse mil coisas mais mas escolheu o Muro. E isso não é inocente.

O Muro de Trump é um bálsamo mediático para as angústias endógenas do Império. É um bálsamo oportunista de longa duração e de efeitos incontáveis. É um espelho ideológico de tijolo e cimento em que se espelha a partir de dentro a monstruosidade do capitalismo e a sua lógica de esmagamento. Cada vez que Trump o menciona, fortalece um drama histórico infestado com a humilhação do saque e da escravatura anexos a que têm sido submetidos os imigrantes mais desvalidos e maltratados. Entretanto as matilhas neoliberais, obedecendo ao império no México, só acrescentam mais «outro tijolo ao muro». O Muro é uma forma de Guerra Ideológica.

Por agora, só a menção de acabar o Muro já atraiu simpatias de classe e solidariedades ideológicas. Dos dois lados do México. Já não somos tão ingénuos que acreditemos que a iniciativa de uma aberração assim nasceu apenas de um lado. Edificaram-se muros (comerciais, políticos, raciais, educativos…) de igual ou pior envergadura e sempre contaram com a cumplicidade voluntária de sectores servis. Sempre foi assim. O Muro é pois, uma forma de tortura como Trump gosta.

Mencionar o Muro (acabar a construção) serve também para alvorotar corifeus intermediários que se dizem capazes de inspirar moral e método na tarefa de ajoelhar-se perante o muro. Com os argumentos como «segurança», a estabilidade económica», o «bem comum» e bla bla bla aos quatro ventos vociferam receitas diplomáticas para ficar bem entre si. Os povos não têm lugar na mesa das suas partilhas. Uns já têm o orçamento para acabar o Muro, outros já têm o discurso para a sua inauguração, outros têm os «jornalistas» idóneos para desenvolver a crónica da construção, minuto a minuto… enfim, todos querem uma talhada material e politica com que ampliar os seus negócios e as suas simpatias com o império.

O trabalho dos imigrantes não é uma dádiva do império. Há que tornar bem claro que cada dólar ganho é acumulação de riqueza para os ianques que se aproveitam do trabalho escravo. Os trabalhadores pagam um preço muito alto (não só pelo que levam as empresas parasitas que cobram pelos envios das remessas) mas porque a maioria imigrante sofre na pela diariamente e tem de contrair empréstimos, embora viva com todas as limitações, sob o peso da distância, a saudade permanente, a condição de «ilegal, a marginalização, o racismo, o medo, a desconfiança sistemática e os maus tratos consuetudinários. E tudo em terras que foram roubadas pelo império ianque. Isso também o Muro torna visível, o qual querem financiar com as remessas dos mexicanos.

Esse Muro é um acto de provocação inaceitável e desumano. Contém a ameaça de matar e reprimir milhares de pessoas. É um Muro pensado para acentuar a injustiça de que padecem os imigrantes tratados como «ilegais» e é um horror contra todas essas pessoas que, para sobreviver, procuram qualquer espécie de «emprego». A fronteira com os EUA é não só fonte permanente de abusos, exploração e ignominia como o projecto para completar este Muro é uma afronta de tal calibre que temos de estar preparados para as consequências. Quem provoca o desemprego, quem gera a miséria toma agora medidas de «controlo» para pôr «ordem» na fronteira. Sem deixar de tirar proveito com as remessas, claro!

O que o Muro não vai tapar é o drama do desemprego, a barbárie da humilhação, o inferno da fome e a monstruosidade do despojo. Pelo contrário. Deixa à vista a barbárie, a aberração e a bofetada auspiciadas pela burguesia que não tem limites nem freios na fase predadora em que se encontra o império. O Muro é o seu espelho.

Eles levantam o Muro para nos calar e para deter toda a rebeldia, nós (todos) podemos dar o exemplo e transformar o mundo. Vamos derrubar o Muro com as lutas indígenas, camponesas e operárias. Que o Muro caia antes, durante e depois de o acabarem. Que o Muro venha abaixo por obra e graça dos trabalhadores, de aqui e de ali, imigrantes, e não imigrantes… unidos de uma vez por todas.


Dr. Fernando Buen Abad Dominguez
Universidade de Filosofia
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Fonte: http://www.alainet.org/es/articulo/193159

Tradução: Manuela Antunes