O Ocidente reescreve o passado

Manlio Dinucci    13.Ene.17    Outros autores

«O “Ministério da Verdade” de Orwell não se referia à URSS. Vaticinava a cobertura que dão os media burgueses ao atentado de Berlim e às guerras contra a Líbia e a Síria. Nestes, a actualidade divide-se em sequências curtas completamente desconectadas entre si, para que os factos resultem incompreensíveis, dando assim aos governantes a mais ampla margem para esconder os seus crimes.»

“Massacre de Berlim: por que razão o terrorista deixou os seus documentos?”, pergunta o diário italiano Corriere della Sera, referindo-se a elementos que qualifica como “estranhos”. Para dar resposta a essa pergunta basta perscrutar um pouco o passado recente, esse que já ninguém recorda.

É um passado reescrito pelo “Ministério da Verdade” (descrito por George Orwell na sua novela de ficção política 1984, como uma crítica do “totalitarismo staliniano”), hoje tornado realidade nas “democracias ocidentais”. Assim se conseguiu apagar a história, devidamente documentada, destes últimos anos.
Neste caso, trata-se da história da guerra dos EUA e da NATO contra a Líbia, pensada (como se pode comprovar nos e-mails da senhora Clinton) para bloquear o plano de Kadhafi de criar uma moeda africana alternativa face ao dólar e ao franco CFA (1). Essa guerra começou com uma operação secreta (autorizada pelo presidente Barack Obama) financiando e armando grupos islamitas, inicialmente classificados como “terroristas”, grupos entre os quais se encontravam os núcleos do que viria a tornar-se o Estado Islâmico (o Daesh). Posteriormente, esses núcleos receberam armamento através de uma rede da CIA (documentado pelo New York Times em Março de 2013) (2) quando, depois de terem ajudado ao derrube de Kadhafi, passaram para a Síria em 2011 para derrubar Assad e a seguir atacar o Iraque, em momentos em que o governo de al-Maliki se distanciava do Ocidente e se aproximava de Pequim e Moscovo (3).

Também foi apagado o documento da Agência de Informação do Departamento de Defesa dos EUA (DIA, segundo a sigla em inglês), com data de 12 de Agosto de 2012, revelado a 18 de Maio de 2015 (4), onde se assinala que “os países ocidentais, os estados do Golfo e da Turquia mantêm na Síria as forças que tratam de controlar as zonas orientais” e que existe, com esse objectivo, “a possibilidade de que se instale um emirado salafista no Leste da Síria”.

Apagada também a documentação fotográfica sobre o senador norte-americano John McCain, que, ao entrar (ilegalmente) em solo sírio como enviado da Casa Branca, se reuniu, em Maio de 2013, com Ibrahim al-Badri, o actual “Califa” que encabeça o Emirato Islâmico (5).

Simultaneamente, segundo o esquema da “novilíngua” orwelliana, o léxico político-mediático adapta-se de acordo com o que convém a cada caso: os terroristas, assim definidos quando servem para aterrorizar a opinião pública ocidental para que esta apoie a política dos EUA e da NATO são qualificados de “opositores” ou “rebeldes” quando perpetram massacres contra os civis na Síria. Recorrendo à “novilíngua” das imagens, escondem-nos durante anos a dramática situação da população dos bairros de Alepo sob ocupação das formações terroristas apoiadas pelo Ocidente; mas, quando as forças do Exército Árabe Sírio começam a libertar esses bairros, com o apoio da Rússia, mostram-nos diariamente o “martírio de Alepo”.

Escondem-nos, por outro lado, a captura, pelas forças governamentais sírias a 16 de Dezembro de 2016 de um grupo de militares da “Coligação pela Síria” (na qual se contam pelo menos 14 oficiais dos EUA, Israel, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, Jordânia e Marrocos) que, dum bunker no leste de Alepo, coordenavam as acções dos terroristas da al-Nusra (afiliados à al-Qaeda) e de outros grupos (6).

Considerando tudo o que atrás se disse, não é difícil responder à pergunta que faz o Corriere della Sera. Como já aconteceu antes, no massacre perpetrado na sede do Charlie Hebdo e em tantos outros casos semelhantes, os terroristas “esquecem” e “abandonam” algum documento de identificação que permite a sua rápida identificação e subsequente eliminação.

Em Berlim puderam ver-se outros objectos “estranhos”. Ao revistar o camião, imediatamente depois do massacre, a polícia e os serviços secretos não viram que debaixo do assento do condutor estava… o documento de identidade do tunisino, para além de várias fotografias. Assim que prenderam um paquistanês, libertaram-no no dia seguinte por falta de provas. Só então, um agente “especialmente experimentado” foi espreitar debaixo do assento do condutor e descobriu os documentos do terrorista. Interceptado, por acaso, e a meio da noite, o tunisino foi eliminado por uma patrulha perto da estação de comboios de Sesto San Giovanni em Milão, Itália, a um quilómetro do ponto de partida do camião polaco utilizado no massacre de Berlim. Tudo isso, documentado pelo “Ministério da Verdade”.

Notas:
(1) “La recolonización de Libia”, por Manlio Dinucci, 10 de Março de 2016, http://lahaine.org/eX6L.
(2) “Descubren puente aéreo de la CIA para armar a los ‘rebeldes sirios’”, por Manlio Dinucci, Il Manifesto (Itália) , Red Voltaire, 30 de Março
(3) “Yihadismo e industria petrolera”, por Thierry Meyssan, Al-Watan (Siria) , Red Voltaire, 23 de Junho de 2014.
(4) Rapport de l’Agence de Renseignement militaire aux divers services de l’administration Obama sur les jihadistes en Syrie, 12 de Agosto de 2012.
(5) “John McCain, el organizador de la “primavera árabe” y el Califa”, por Thierry Meyssan, Red Voltaire, 18 de Agosto de 2014.
[6] “ONU: El Consejo de Seguridad se reúne a puertas cerradas por arresto de oficiales de la OTAN en Alepo”, “URGENTE: Arresto de yihadistas y militares extranjeros en el este de Alepo”, Red Voltaire, 16 e 18 de Dezembro de 2016.
Il Manifesto / Red Voltaire

Tradução de André Rodrigues

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