O plano do Pentágono para a Europa

Manlio Dinucci    17.May.17    Outros autores

O discurso dos generais e almirantes do Pentágono cresce em arrogância e agressividade. Se lhe juntarmos o perfil do actual presidente dos EUA e a generalizada e servil subserviência dos governos da UE as razões para alarme aumentam ainda. Os responsáveis nos EUA – país que nunca sofreu um conflito internacional de grande escala no seu território continental - não se importariam de ver novamente a Europa devastada pela guerra. E movimentam as peças nessa direcção.

No quadro dos preparativos para a estadia do presidente Donald Trump na Europa – visita a Roma em 24 de Maio, Cimeira da NATO em Bruxelas a 25, Cimeira do G7 em Taormina nos dias 26 e 27 – o Pentágono apresentou o seu plano estratégico para o «teatro europeu». A apresentação esteve a cargo do general Curtis Scaparrotti.
Na sua condição de comandante das forças estado-unidenses instaladas na Europa, o general Scaparrotti situa-se automaticamente à cabeça de todas as forças da NATO com o cargo de Comandante Supremo das forças aliadas na Europa (SACEUR). Em 2 de Maio, ante o Senado estado-unidense, o general recordou que «o teatro europeu continua a ter importância crucial para os nossos interesses nacionais» e que «a NATO dá-nos uma vantagem única sobre os nossos adversários». Mas essa vantagem encontra-se agora em perigo ante «uma Rússia ressurgente, que tratar de minar a ordem internacional sob a direcção do Ocidente e de se reafirmar como potência mundial».
De modo que o Comandante Supremo exorta os aliados europeus a cerrar filas ao lado dos EUA para defender por todos os meios a «ordem internacional» – baseada na supremacia económica, política e militar do Ocidente –, ordem agora em perigo ante o surgimento de novos actores estatais e sociais.
O general Scaparrotti concentra o fogo sobre a Rússia, acusando-a de «actividades malignas e acções militares contra a Ucrânia» – precisamente quando se comemora o terceiro aniversário do massacre perpetrado em Odesa, em 2 de Maio de 2014, que custou a vida a várias dezenas de russos. Mas a  «ameaça» não provém somente da Rússia: os EUA, segundo declara o almirante Harris, chefe do Comando do Pacífico, enfrenta nessa região os desafios simultâneos que colocam «uma China agressiva e uma Rússia revanchista».
Em resposta a esses desafios, anuncia o general Scaparrotti, o Comando das forças estado-unidenses na Europa «está a regressar ao seu papel histórico de combate, adaptando os seus planos às ameaças que temos perante nós». E solicita ao Congresso estado-unidense que aumente os fundos para a  «European Reassurance Initiative», que é a operação iniciada pelos EUA em 2014, oficialmente para «tranquilizar» os aliados da NATO e os parceiros europeus, à qual foram atribuídos 3 400 milhões de dólares em 2017.
O general sustenta que «são necessários investimentos significativos para aumentar em toda a Europa a nossa presença avançada, o pré-posicionamento de material militar e os exercícios de preparação para os conflitos».
O plano é muito claro: fazer da Europa a primeira linha do enfrentamento com a Rússia. Isso é confirmado pelo anúncio, emitido a 4 de Maio, de que o exército dos EUA na Europa abriu um novo quartel-general em Poznan (Polonia) para dirigir os mais de 6 000 militares estado-unidenses acantonados na Polonia, Estónia, Letónia, Alemanha, Eslováquia, Hungria, Roménia e Bulgária, com vista a «reforçar o flanco oriental da NATO como dissuasão face à Rússia».
Na instalação no terreno sobre o flanco oriental – que inclui forças blindadas, caças-bombardeiros, navios de guerra e unidades de mísseis, incluindo com mísseis nucleares – participam as potências europeias da NATO, como o demonstra o envio de tropas francesas e de carros de assalto britânicos para a Estónia.
¿E o exército europeu? Durante o encontro realizado em Malta, a 27 de Abril, com os ministros da Defesa dos países membros da União Europeia, o secretário-geral da NATO não deixou espaço a qualquer dúvida ao anunciar que:
«Ficou claramente acordado por parte da União Europeia que o seu objectivo não é constituir um novo exército europeu nem estruturas de comando que compitam com as da NATO mas sim algo que seja complementar com o que a NATO faz.»
O bastão de comando mantém-se definitivamente nas mãos do Comandante Supremo das forças aliadas na Europa, um general estado-unidense nomeado pelo presidente dos EUA.

Fonte: Il Manifesto / Red Voltaire