O Sedutor Obama

Carlos Fazio*    05.Abr.16    Outros autores

Carlos Fazio analisa neste seu texto publicado em La Jornada o que obrigou Obama, a modificar a sua postura de mais de 50 anos de guerra permanente, que chegou a incluir o terrorismo, dos EUA em relação a Cuba.

Não há um Obama bom e um Obama mau. Tal como os anteriores presidentes dos EUA, Obama em Cuba procura a mudança de regime por outras vias.

Diferentemente do personagem da novela de Robert Stevenson O estranho caso do dr. Jekyl e o senhor Hyde, o presidente dos EUA, Barack Hussein Obama não sofre o que em psiquiatria se conhece como perturbação dissociativa da identidade (antes conhecido como perturbação de personalidade múltipla) que faz com que uma pessoa tenha duas ou mais personalidades com características opostas entre si.

Não há um Obama bom e um Obama mau. O quadragésimo quarto mandatário dos EUA é um político racional e pragmático, que como os 10 anteriores inquilinos da Casa Branca não quere uma mudança na direcção da política estadounidense para Cuba, mas um reposicionamento táctico. Tal como os seus predecessores desde Dwight Eisenhower até George W. Bush, Obama como disse e repetiu desde 2016 – quando se anunciaram as negociações para o restabelecimento das relações diplomáticas – e ratificou em Havana, procura uma mudança de regime por outras vias.

Quere o desmantelamento integral do sistema político e económico estatal socialista cubano e, devido a uma série de circunstâncias internacionais, durante o seu segundo mandato viu-se obrigado a modificar o que durante mais de 50 anos, além da sua visita significar um genial golpe de marketing para um presidente de saída.

Desde a sua tomada de posse, em janeiro de 2009, o carismático Obama destacou-se pelo seu domínio cénico, as suas capacidades histriónicas e o domínio de uma linguagem simbólica e calculista – a maioria das vezes simplificadora e banal, adereçado com frases feitas e truques chistosos – que recorrendo a um hábil e eficaz uso do teleponto (um ‘ponto’ óptico como ferramenta de leitura)procurou esconder das grande audiências electrónicas as arestas mais violentas do capitalismo e do imperialismo rapaces dos nossos dias, que ele encarna como representante dos interesses estratégicos da plutocracia e dos poderes fácticos, verdadeiro poder por trás da Sala Oval.

Como em cenários anteriores, todos os actos simbólicos e os discursos – shows propagandísticos e ideológicos do sedutor Obama na ilha estiveram marcados pelos seus dotes de comunicador, que combina olhares, gestos e poses com uma refinada retórica manipuladora e demagógica – mitificadora do capitalismo – que não é apercebida pela grande massa, mas que não passa desapercebida a um público medianamente politizado. Menos ainda para dirigentes como os cubanos, que durante mais de 50 anos tiveram quie lidar com todas as formas de guerra, abertas ou encobertas, do Pentágono e da Agência Central de Informação [CIA].

A actuação de Obama cingiu-se às novas concepções do Pentágono sobre a definição de inimigos, o que redundou nos conflitos irregulares ou assimétricos e as chamadas guerras de quarta geração da actualidade, onde o inimigo é a sociedade no seu conjunto e um dos objectivos centrais é a destruição objectiva da cultura do país.

A dita modalidade faz parte da dominação de espectro completo, que abarca a política combinada onde o militar, o económico, o mediático e o cultural têm objectivos comuns. Dado que o espectro é geográfico, espacial, social e cultural, para impor a dominação é preciso manufacturar o consentimento. Isto é, colocar na sociedade sensos comuns que, de tanta se repetirem, incorporam o imaginário colectivo e introduzem como única, a visão do mundo do poder hegemónico.

Isso implica a formação e manipulação de uma opinião pública legitimadora do modelo de dominação capitalista. Como diz Noam Chomsky, para a fabricação do consenso são chaves essenciais as imagens e a narrativa dos meios de difusão massiva, com os seus mitos, mentiras e falsidades. Mas também, como no caso em questão, é preciso um grande comunicador. Com estes elementos, e apelando à psicologia e a outras ferramentas, através dos media constrói-se a imagem do poder com a sua lógica de esmagamento das cosmovisões, da memória histórica e das utopias.

Para além do clima respeitoso e constructivo que primou em todas as suas representações, dos seus próprios ditos depreende-se que Obama não prescindiu de intervir na política interna cubana e continuará a apostar em formas mais subtis de penetração. Derrotado no plano da força – que incluiu a invasão mercenária, o criminoso bloqueio económico, comercial e financeiro, guerras bacteriológicas, do éter e do ciberespaço, tal como atentados terroristas, tudo de manufactura estadounidense –, Washington insistirá numa estratégia de poder brando (soft power). Como advertiu Fidel Castro em 2000, o establishement democrata insistirá no método da sedução, como a baptizada política de contacto povo a povo.

Particularmente, Obama quis seduzir a juventude, sector da sociedade cubana que, segundo os seus estrategos, apresenta melhores condições para os interesses estratégicos que ele representa. O que não se conseguiu durante muitos anos com a chamada dissidência interna – grupúsculos financiados por Washington que deram origem à lucrativa indústria da contra-revolução – tentar-se-á agora através dos jovens empreendedores. O objectivo é fragmentar a sociedade cubana com o propósito de restaurar o capitalismo dependente na ilha.

Com os instrumentos do poder inteligente (smart power) procura-se erodir a coesão da socciedade cubana; daí o marcado enfase em potenciar um sector privado em Cuba com o apoio financeiro e tecnológico dos EUA, e criar um movimento político que reclame o fim da revolução, Nesse sentido, foram notórias as oposições discursivas de Obama: Estado/povo, empresa estatal/empresa privada, jovens/velhos. Não foi em vão, três dias depois de ter deixado Havana, o Departamento de Estado anunciou um programa de orientação de práticas comunitárias de 754 mil dólares para jovens líderes emergentes da sociedade cubana.

* Jornalista e comentador do jornal mexicano La Jornada

Este texto foi publicado em La Jornada de 28 de Março de 2016:
http://www.jornada.unam.mx/2016/03/28/opinion/020a1pol

Tradução de José Paulo Gascão

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