Obama, intervencionismo suave

Carlos Fazio*    01.May.09    Outros autores

Obama “Para além da forma e do modo, do seu sorriso perene, estilo lúdico, informal e coloquial, o intervencionismo suave de Barack Obama é mais do mesmo. A diplomacia de guerra de Washington continua tão neocolonial, depredadora e unilateral como sempre foi.” Carlos Fazio chega a esta conclusão depois de analisar as novas-velhas relações EUA-México, independentemente da massacrante campanha de promoção do sempre sorridente presidente Barack Obama, diariamente presente nos media mundiais.

O novo embaixador dos EUA no México foi embaixador na Ucrânia, onde introduziu as técnicas do golpe suave que culminaram em 2004 na «Revolução Laranja».

Não há nem haverá tempo para respirar. A ofensiva é total e contínua. E, como sempre, envolve várias vias, incluindo as encobertas ou clandestinas. Washington fixa a agenda do México, considerado um assunto interno pela Casa Branca e pelo Capitólio. Para além da forma e do modo, do seu sorriso perene, estilo lúdico, informal e coloquial, o intervencionismo suave de Barack Obama é mais do mesmo. A diplomacia de guerra de Washington continua tão neocolonial, depredadora e unilateral como sempre foi. O tema de fundo, no qual o já mítico presidente cool que despacha na sala oval conseguiu situar o seu «novo acordo» com o México –depois de um curto abrandamento salpicado por um discurso dúplice – é a segurança. Em rigor, uma pura continuidade da era Bush.

Dizem que o diabo está nos pormenores. O simbolismo da breve escala no México esteve na dupla presença, aqui no México, da besta e de Janet Napolitano. Besta é o nome do tanque blindado disfarçado de limousine utilizado por Obama para se movimentar no reduzido perímetro de segurança que os chefes da inteligência do Pentágono e da CIA definiram como o Paquistão da América Latina. E Napolitano, a principal funcionária da sua comitiva, é a titular do Departamento de Segurança Interna, cuja missão é prevenir ataques contra os Estados Unidos. Ergo, o México é um assunto doméstico. Por isso, antes da cegada de Obama ao país, manhã cedo, a senhora Napolitano despachasse em Bucarelli com o gabinete de segurança nacional de Filipe Calderón

É suposto que dava as últimas instruções para a abertura do Centro Conjunto de Implementação (CCI), foro «bilateral» que funcionará em território mexicano, à margem da Constituição e das leis nacionais – e do controlo do Senado da República – onde os peritos das agências de segurança e inteligência dos Estados Unidos tomarão as decisões estratégicas, ao mesmo tempo que vigiarão, fiscalizarão e qualificarão o trabalho das forças armadas e das diferentes polícias nativas na utilização do equipamento militar que, pelo custo de 700 milhões de dólares, foi aprovado pelo Congresso estadunidense para os primeiros dois anos da Iniciativa Mérida. Ou seja, que «os marines chegarão já», sob a capa de ficais in situ da «guerra das drogas» de Calderón, num claro acto de ingerência nos assuntos internos do México, avalizado por Eliot Ness de Los Pinos e os seus intocáveis (Obama dixit). A propósito, em que é que não se iam permitir condicionamentos nem monitorizações?

Com um ponto adicional: o CCI será o «quarto de sentinela» que encontrará à sua chegada ao México o embaixador designado por Washington, o cubano-estadunidense Carlos Pascual, especialista em desestabilização e «reconstrução» de estados falhados, guerra assimétrica, golpes suaves e comunicação estratégica. The Ambassador Crisis é um experiente agente da política de intervenção encoberta de Washington. Entre outros cargos, depois da auto-dissolução da União Soviética, foi administrador adjunto da Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID, nas sua sigla em inglês) para a Europa e os novos Estados Independentes, e entre 2000 e 2003 desempenhou como embaixador na Ucrânia, onde se ocupou da «luta contra o terrorismo» (sic) e «ajudou a construir um forte sector privado». Além disso, introduziu as técnicas do golpe suave, que culminaram em 2004 na Revolução Laranja na Ucrânia. Nesse período, outras «revoluções coloridas» vitoriosas que seguiram as tácticas desestabilizadoras das agências de Washington, foram as da Sérvia, da Geórgia e do Kyrgistão.

Em 2005, a administração Bush colocou-o à frente de um novo Departamento de Coordenação de Reconstrução e Estabilização – «Departamento das Colónias» chamou-lhe John Saxe Fernández – a partir do qual Pascual desenhou os cenários de «guerra urbana» que permitiram ao Departamento de Estado, ao Pentágono e à USAID (que actua em combinação com os serviços de espionagem) aprovar e justificar recursos e parcelas especiais de «ajuda» militar e assessorias de tipo contra- insurreccional, como sucede agora no caso do México no contexto da Iniciativa Mérida, idêntica ao Plano Colômbia.

A propósito cabe aqui referir que dois entusiastas do «novo acordo» de Obama para Cuba, os senadores Richard Lugar, republicano, e o democrata Joseph Biden, actual vice-presidente dos Estados Unidos, apoiaram o projecto de «guerra irregular» de Pascual, a partir da OCRE. Claro que no esquema de guerra assimétrica intervêm, além do Pentágono, do Departamento de Estado, da CIA, da Segurança Interna, da DEA, Das Alfandegas e de um longo etcétara, bem como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Será que a blindagem do FMI por 47 mil milhões de dólares é uma antecipação para que Carlos Pascual possa levar a cabo a «reconstrução» do falhado Estado mexicano?

Se a tudo o que foi dito acrescentarmos a doutrinação de senadores e deputados mexicanos nos quartéis centrais do comando estadunidense de defesa do espaço aéreo (NORAD nas sua sigla em inglês) e o Comando Norte (Northcom), na base aérea de Peterson de Colorado Springs, a participação de um contingente de marinheiros, duas fragatas e helicópteros da Armada do México nos exercícios de guerra anti-submarina UNITAS 50-09, sob o comando do Pentágono, e a chegada de «contratados privados» (mercenários) de Dyncorp, completa-se o quadro. Em síntese, caos e intervenção e um objectivo estratégico: os hidrocarbonetos do México.

Este texto foi publicado no diário mexicano La Jornada: www.jornada.unam.mx/

* Jornalista

Tradução de José Paulo Gascão

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