Obama: presidente e «assassino em chefe»

Renan Vega Cantor    08.Feb.17    Outros autores

Prossegue a campanha mediática visando contrapor ao tosco e reaccionário Trump o sofisticado e humanista Obama. É por isso necessário insistir na denúncia de um dos presidentes dos EUA que deixa dos mais longos rastos de destruição de países e povos, um homem que, como os chefes das famílias do crime organizado, decidia numa reunião semanal quem iria ser assassinado a seguir.

Os meios burgueses em uníssono endeusam a figura do ex-presidente «progressista». Mas não esqueçamos que foi campeão de actos criminosos e terroristas em todo o mundo

A 21 de Janeiro acabaram os oito anos de mandato presidencial de Barack Obama nos Estados Unidos, com um balanço inteiramente negativo para essa personagem, se pensarmos nas grandes expectativas que surgiram quando subiu ao poder na primeira eleição em Novembro de 2008. Nesse momento anunciou-se que os Estados Unidos haviam começado um novo ciclo histórico, que traria muitos benefícios ao resto do mundo, por ter sido eleito um indivíduo negro e professor universitário. Pensou-se que apenas pelo facto de ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos se estava a dar um passo para um novo tipo de governo nessa potência, que deixaria para trás as acções imperialistas, agressivas e criminosas contra o resto do planeta. Suponha-se que com Obama se inaugurava um período de humanitarismo, de paz e de concórdia nas relações internacionais. Os cálculos foram demasiado optimistas, e na realidade pouco realistas, já que é muito ingénuo supor que por razões circunstanciais de raça ou de género (como o comprovou a candidatura recente de Hillary Clinton) se vai modificar um sistema capitalista.

A política de Obama em nada modificou esse projecto de domínio mundial dos Estados Unidos e antes pelo contrário, acentuou as acções criminosas e terroristas no âmbito internacional por parte desse país. Um dos melhores exemplos a esse respeito é o da institucionalização das chamadas «terças-feiras da morte» como se vê neste artigo.

Lista na mão

Durante o seu nefasto governo, Barack Obama instaurou uma terrível prática criminosa, uma nova forma de terrorismo de Estado, com alcance mundial, política que seguramente vai ser continuada pelos seus sucessores. Cada terça-feira nas primeiras horas do dia Obama reunia-se com os seus assessores de segurança com o fim de fazer e actualizar uma lista com os nomes de pessoas consideradas como inimigos dos Estados Unidos e determinar, com nome e apelido, os que deviam ser assassinados durante essa semana. Assim mesmo, sem eufemismos, o indivíduo eleito como presidente da primeira potência mundial decidia quem executar, porque era claro que não os iam capturar vivos.

A partir da Casa Branca planeava-se, com auxílio de tecnologia sofisticada, a localização dos inimigos que se deviam eliminar. Recorrendo a informação por satélite calculava-se o local onde se encontrava a pessoa eleita e davam-se as ordens, que permaneciam em segredo, para que a partir de alguma base militar dos Estados Unidos, dentro ou fora do país, por controlo remoto se manobrava um drone provido de armas «inteligentes» que descarregava as suas bombas letais sobre o alvo escolhido. Uma informação de imprensa que comentou esse tipo de acções afirmava, em tom de reprovação e admiração. «A morte nas montanhas do norte do Paquistão vinha de cima. Discreta e perniciosa, abate-se de repente como um aguaceiro.»

Guerra preventiva total

A inovação perversa de Barack Obama, porventura produto da sua formação académica como advogado especialista em «direitos civis», consistiu em que essas mortes planificadas se transformassem numa rotina semanal, planeadas no que conhecemos como «as terças-feiras do terror» Esses assassinatos realizavam-se em qualquer local, sem importar se eram ou não países com quem os Estados Unidos estivessem oficialmente em guerra. Por outras palavras, esse tipo de assassinato sucedia não apenas no Iraque, Afeganistão ou Líbia, mas também no Iémen, Síria, Somália, Paquistão, Filipinas ou qualquer lugar em que o governo de Obama localizasse alguém catalogado como terrorista e inimigo. A estratégia baseia-se no princípio de fazer guerra sem deixar rasto, entendendo-se como tal não o rasto da morte e destruição (evidente), mas que nos Estados Unidos ninguém saiba nem reclame dos mortos no exterior, que pode até atingir cidadãos dos Estados Unidos, radicados nalgum pais muçulmano e vistos como fundamentalistas. Não deixam rasto principalmente porque não há mortos do lado do país agressor, não importa que do lado dos agredidos fiquem dezenas ou centenas de mortos.

Obama acabou por ser pior do que Bush, ao levar a guerra preventiva ao paroxismo absoluto, já que trata de matar-se quem se supõe ser inimigo dos Estados Unidos antes que eles possam actuar contra o país. Um dirigente da CIA afirmou-o desassombradamente no Washington Post: «Estamos a matar estes filhos da mãe mais depressa do que crescem»

Terrorismo de estado «inteligente»

Para se ver que não falta sofisticação na forma de matar por parte dos governantes dos Estados Unidos, Obama e seus assessores distinguem dois tipos de ataques: os personalizados e os específicos. Os primeiros matam pessoas, os segundos grupos, principalmente jovens. Mais exactamente como afirmou o jornalista Jeremy Scahill: «… o presidente Obama deu autorização para a realização de ataques mesmo sem conhecer a identidade das pessoas atacadas, política conhecida como «ataques assinados», ataques contra grupos suspeitos. A ideia é que ser um homem em idade militar, de certa região de um determinado país do mundo, é suficiente para ser considerado um alvo legítimo, apenas baseando-se no seu género, idade e presença geográfica.

Alegando que se trata de uma morte inteligente em que apenas se matam os suspeitos-culpados (em idade entre 20 e 40 anos) supõe-se que só morrem os objectivos a liquidar, mas não se menciona que os drones matam de forma indiscriminada, gerando o que se chama na linguagem orwelliana «danos colaterais» Um exemplo de terror: «A 17 de Março de 2011, quatro mísseis Hellfire, disparados de um avião não tripulado norte-americano caíram numa estação de autocarros na cidade de Datta Khel, na região fronteiriça de Wazinstán no Paquistão. Calcula-se que quarenta e duas pessoas perderam a vida».

Com este procedimento procuram-se apenas mortos, nada de vivos para capturar, porque isso evita os problemas de Guantánamo e Abu Ghraib e as consequências daí derivadas. Baseia-se numa lógica implacável de «legulejo» (quem trata de leis mas não as conhece): é melhor matar um suspeito que capturá-lo e ter de enfrentar problemas judiciais ou denúncias internacionais. Em síntese, sob o regime de Obama o terrorismo de Estado e as mortes que gera tornou-se legal, legítimo e até destila uma ética mortífera, a de arrogar-se o direito de assassinar quem quiserem, sem julgamento, sem declaração de culpa, sem direito a defesa. A Casa Branca opera como juiz, jurado e verdugo. Como afirmou Fidel Castro, em 2012, Obama era não só o presidente dos Estados Unidos mas o seu assassino em chefe.

Tradução: Manuela Antunes