Ordem liberal*

Jorge Cadima    31.Ene.17    Outros autores

Está em marcha uma gigantesca operação de ilusionismo, para fazer crer que as tragédias e sofrimento que o capitalismo mundial seguramente trará aos povos (fosse quem fosse o presidente dos EUA) serão culpa apenas do inquilino de turno na Casa Branca. Está visto que tudo corria bem até agora: nem havia guerras, nem exploração e pobreza, nem a mais desavergonhada corrupção.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros – e talvez futuro presidente – alemão, Steinmeier, declara que com Trump «a velha ordem mundial do Século XX acabou para sempre» (RT, 22.1.17). Ilustres comentadores choram o fim da «ordem liberal» mundial. Para além de reais contradições, está em marcha uma gigantesca operação de ilusionismo, para fazer crer que as tragédias e sofrimento que o capitalismo mundial seguramente trará aos povos (fosse quem fosse o presidente dos EUA) serão culpa apenas do inquilino de turno na Casa Branca. E para que as tragédias e sofrimento do passado recente – desde as guerras que destruíram o Médio Oriente, a Ucrânia e outras paragens, ao empobrecimento forçado dos povos enquanto anafados banqueiros recebem os dinheiros do erário público – sejam mais tarde falsamente recordados como a Terra Prometida do Leite, do Mel e da Ordem Liberal.

A quadra natalícia trouxe mais um exemplo da verdadeira ‘ordem liberal’. A directora-geral do FMI, sempre intransigente carniceiro dos povos em nome do ‘rigor’ e da ‘boa gestão’ dos fundos públicos, foi condenada por negligência pelo tribunal especial francês que julga os membros do governo. Mas não recebeu qualquer pena, nem vai perder o seu cargo no FMI. A história é nada edificante, mas muito instrutiva. Em 1992, Bernard Tapie foi nomeado ministro, pelo então Presidente e ’son ami’, Mitterrand. Na altura as mulheres de César ainda tinham de parecer virtuosas e Tapie foi aconselhado a vender a sua participação maioritária na Adidas, operação gerida pelo banco Crédit Lyonnais. No ano seguinte, a Adidas foi vendida por mais do dobro do valor entregue a Tapie, que se sentiu lesado e pôs o caso em tribunal. Em 2007, Tapie muda de cavalo e apoia Sarkozy. Já com Sarkozy presidente e Lagarde a sua ministra da Economia e Finanças, o caso Tapie é retirado dos tribunais e entregue a uma comissão arbitral, que se pronuncia pelo pagamento de 403 milhões de euros (!) a Tapie, como compensação por danos sofridos. A Agência para as Participações Estatais (APE) opõe-se repetidamente e por escrito, mas Lagarde, ministra tutelar da APE, avança com a compensação que entretanto, dada a falência do Crédit Lyonnais, sai dos cofres públicos. Em 2015, o Tribunal de Recurso de Paris considera que o parecer da comissão arbitral é «fraude», dadas as «antigas, estreitas e repetidas» ligações dum dos seus três membros com Tapie e o seu advogado (Le Monde, 22.7.16). O ex-chefe de gabinete de Lagarde e actual director-geral do gigante das telecomunicações francesas Orange, Stéphane Richard, está «sob investigação formal por ’suspeita de fraude organizada’», em relação ao caso (New York Times, 27.8.14). Mas Lagarde vai continuar a ditar cortes troikeiros aos povos do mundo, recebendo mais de meio milhão de dólares por ano, livre de impostos (Guardian, 29.5.12) e sob os aplausos da ‘ordem liberal’. Em 2009 o Financial Times declarou-a a melhor ministra das Finanças da Europa e o ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton afirma agora que ela «é a melhor coisa que aconteceu ao FMI desde há muito tempo» e que a sentença do Tribunal francês foi um «dia negro para a justiça francesa» (Guardian, 19.12.16).

Lagarde foi antecedida no FMI pelo ‘admirador’ de empregadas de hotel, Strauss Kahn. Que por sua vez foi antecedido pelo espanhol Rodrigo Rato, vice-presidente dum governo PP, e preso em Espanha em 2015 acusado de «fraude, apropriação indevida de bens e branqueamento de capitais» (El País, 17.4.15). Rato levou o banco espanhol Bankia à falência em 2012 e o seu nome surge nos Panama Papers. É uma overdose de virtuoso rigor.

Para os povos, escolher entre Trump ou a ‘ordem liberal’ é como achar que a mafia mudava se fosse a família Gambino ou Meyer Lansky a gerir os casinos de Havana. Mais vale fazer como Fidel e a Revolução Cubana, há 58 anos, ou a Revolução de Outubro, faz 100 anos: correr com eles todos.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2252, 26.01.2017