Orphan Pamuk e as duas Turquias

O primeiro livro de Orhan Pamuk, escrito aos 30 anos, é simultaneamente uma etapa na aprendizagem do ofício de escrever, uma ambiciosa reflexão sobre o povo turco, objecto e sujeito de mudanças revolucionárias, e uma meditação sobre a aventura humana. Anuncia o grande escritor que veio a ser, o mais universal dos escritores turcos.

Das dezenas de países que conheci há muitos onde não gostaria de viver.
Na Turquia, apesar da barreira da língua, se ali fixasse residência a adaptação seria fácil. Senti isso em três breves visitas a Istambul, a ultima recente, transcorridos mais de sessenta anos da primeira.
O país, a antiga capital e o seu povo, a fusão inacabada entre Ocidente-Oriente exercem sobre mim um estranho fascínio.
Confirmei isso ao ler Cevdet Bei e os seus filhos, de Orhan Pamuk.*
O mais universal dos seus escritores, Prémio Nobel de literatura, tem contribuído para revelar ao mundo uma Turquia desconhecida e inimaginada.
Fui envolvido por um mar de surpresas durante os dias em que mergulhei neste livro, o seu primeiro romance, escrito aos 30 anos.
O talento de Pamuk já era transparente nesta obra que é simultaneamente uma etapa na aprendizagem do ofício de escrever, uma ambiciosa reflexão sobre o povo turco, objeto e sujeito de mudanças revolucionárias, e uma meditação sobre a aventura humana.
O título encaminha os leitores para o tema.
Pamuk utiliza a estória de uma família ao longo de três gerações - aquilo a que os franceses chamam un roman fleuve - para esboçar um painel da complexidade da Turquia no seculo XX, um pais milenário em metamorfose ininterrupta, complexa e de rumo imprevisível.
O patriarca da família, Cevdet Bei é um comerciante de origem modesta, inteligente, que construiu uma fortuna. Pelo casamento com a filha de um paxá, em 1905, mudou de classe social. É um tradicionalista, bom muçulmano, respeitador do Ramadan e das festas religiosas, mas que não observa as cinco orações diárias prescritas pelo Alcorão. Adaptou-se às grandes mudanças sociais en curso, sem refletir muito sobre elas e sem as entender.
O irmão, Nusret, é um médico militar, tuberculoso em fase terminal. Viveu muitos anos em França e anseia pela europeização da Turquia. Assume-se como revolucionário. Odeia o Califado e as tradições islâmicas, mas para ele o modelo republicano passará pela violência, pela guilhotina, pela fidelidade aos ideais sintetizados na Marseillaise. Despreza o irmão, um comerciante ignorante que somente pensa em dinheiro.
Cevdet tem três filhos, Osman, Refik e Ayse, que vivem com os pais na grande mansão que construiu num bairro da grande burguesia.
Refik, o mais inteligente, é engenheiro, mas trabalha com Osman na empresa paterna; quando Cedvet morre no início dos anos 30 entra numa crise existencial profunda. Detesta o comércio, as tradições, a rotina do clã familiar. É rico, agnóstico, casado com uma jovem belíssima, Perihan, mas não existe diálogo entre ele e a mulher.
Devora autores famosos, tem paixão por Rousseau e Voltaire. Leu Balzac, Dostoievsky, Tolstoi, a poesia persa clássica, Cervantes, Anatole France. Mas essa desordenada absorção de conhecimento não lhe trás as respostas que persegue. Aumenta a sua perturbação.
Em busca de um sentido para a vida, viaja para uma região remota da Anatólia onde um amigo e companheiro de faculdade, Omer, participa na construção de uma nova linha de caminho-de-ferro.
Então lê Holderlin, medita muito sobre a Turquia, escreve um diário e textos que mais tarde reúne em livro. Racionalista, mas ingénuo, adquire a convicção de que a modernização da Turquia somente será possível através de uma reforma agrária drástica que, através do desenvolvimento rural, faça do campesinato o instrumento da mudança.
Em Ankara, ao procurar apoio para a sua tese, encontra-se com um reformador que admira, mas este desilude-o e ridiculariza a sua tese. Alto funcionário, ex-marxista, diz-lhe que as reformas revolucionárias viáveis são as de Ataturk para quem o único motor da transformação da vida na Turquia é o Estado, apoiado pelo exército, mesmo mediante o recurso à violência.
Regressa à empresa, sempre inquieto, angustiado. Afasta-se, funda uma editora, que vai à falência. O casamento - dois filhos - acaba em divórcio; a mulher não o suporta mais.
Osman, o primogénito, herdou do pai a vocação do comércio. Dirige a empresa. Casa. É feliz à sua maneira. Mas para fugir à monotonia tem uma amante. A mulher, Nermin, uma senhora convencional, também encontra um amante. Mas ambos escondem o adultério.
A terceira filha de Cevdet, Ayse, tenta na adolescência enfrentar as tradições mas, enviada para a Suíça, desiste e integra-se no espirito clanico da família.
Dois engenheiros, Muhittin e Omer, ambos ex-colegas de Refik e seus amigos íntimos, merecem atenção especial de Pamuk como personagens representativas da nascente burguesia da Turquia em transição acelerada.
Muhittin é um jovem poeta medíocre, frustrado, que aspira à fama e à glória. Inseguro, agressivo, adere ao ultranacionalismo turco na esperança de encontrar na política o que a literatura lhe negou. Acaba deputado, integrado no sistema.
Omer não esconde desde a juventude uma ambição ilimitada. O seu herói é Rastignac, o aventureiro de Balzac. Exibe-se como um Conquistador predestinado a um grande futuro. Tem fome de poder e riqueza. Mas os anos passam e não consegue abrir as portas do amanhã sonhado. Decide viajar para o leste do país como engenheiro. Rompe o noivado com a filha de um parlamentar influente. Acumula uma fortuna. Mas acaba por perceber que o futuro radioso era miragem. Casa com uma mulher banal e envelhece como latifundiário.

AHMET E A NOVA TURQUIA

A narrativa é retomada décadas depois em 1970.
Istambul mudou muito. A mansão da família de Cevdet Bei foi demolida e no bairro surgiram grandes prédios de apartamentos.
Num desses belos edifícios vivem em andares diferentes Nigan Hanim, a viúva do patriarca do clã, e Osman e Nermin. Nas águas furtadas instalou-se Ahmet, o filho de Refik.
É pintor e o único descendente de Cevdet que vive na fronteira da pobreza. Estudou arte em Paris e do pai herdou a inquietação permanente, a dúvida sobre as suas capacidades, interrogações sem resposta sobre a vida.
Mas é filho de uma Turquia transformada por Ataturk. Mantem relações de intimidade com a família, mas difere profundamente da avó, dos tios, da irmã, dos primos.
A sua interlocutora, a pessoa com quem pode abrir-se, que caminha no seu mundo, é llknur, a namorada.
O romance finda com a morte de Nigan.
Ahmet, à janela do seu estúdio, contempla Istambul adormecida, escuta os ruídos da noite.
«Olhou para o céu - assim termina o livro - que estava sereno e sem nuvens. Voltou para dentro e começou a trabalhar».

TECNICA E ESTILO

Cevdet Bei e seus filhos – repito - foi o primeiro romance de Orhan Pamuk.
A crítica viu nele um livro experimental.
São alias transparentes as insuficiências formais, o excesso de repetições nos diálogos, alguma monotonia na narrativa.
Mas assalta-me uma dúvida: não seria porventura intencional aquilo que é repetitivo, para caracterizar bem a primeira geração nascida na república, mas marcada pela herança otomana?
A inovação está na importância do que se não diz. Pensei em Miss Daloway, de Virginia Woolf, no «fluxo do pensamento».
Enquanto falam, as pessoas não revelam muitas vezes o que pensam. E no livro o fluir das ideias, das sensações, aparece entre aspas. A interioridade é mais importante, mais esclarecedora do que o discurso que esconde o mundo oculto da pessoa.
Cevdet Bei e seus filhos é um livro difícil, uma obra aberta, suscitável de múltiplas interpretações, anunciatória de um grande escritor.

*Orhan Pamuk, Cevdet Bei e os seus filhos, Editorial Presença, 766 páginas, Lisboa, Março de 2017.

Vila Nova de Gaia, 18 de Março de 2017

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