“Os negros no Missouri dizem que Ferguson é igual a Gaza e que a policia actua da mesma forma que os Israelitas”
A análise de James Petras em CX36, 18 de Agosto de 2014

James Petras    10.Sep.14    Colaboradores

James PetrasA repressão dos protestos pelo assassínio de um jovem negro em Ferguson, Missouri, “provocou mais protestos” e “as autoridades temem que o levantamento em Ferguson possa detonar levantamentos nas 150 maiores cidades do país, onde a população negra enfrenta condições idênticas”, disse o sociólogo norte-americano James Petras na sua coluna semanal em CX36. A discriminação racial aprofundou-se sob o governo de Barack Obama, que “nomeou vários negros da burguesia” para diversos cargos mas “as suas políticas belicistas no exterior e de corte de gastos sociais para os pobres no plano interno” faz com que os negros e os latinos sejam os mais prejudicados, acrescentou. Transcrevemos em seguida na íntegra esta análise.

Efraín Chury Iribarne: Em cada segunda-feira recebemos James Petras. Benvindo aos microfones de CX36. ¿Como estás?

James Petras: Bons dias. Estamos muito bem, colhendo grandes abóboras, para fazer sopa e abóbora à parmesã.

EChI: Muito bem, boa colheita então.

JP: Sim, excelente.

EChI: Comecemos, há muitos temas para abordar hoje.

JP: Começamos por Gaza. Há neste momento a estimativa de que os israelitas mataram 2016 palestinos, feriram mais de 10196 e destruíram mais de oito mil casas; ao que se soma a destruição dos sistemas de abastecimento de água, electricidade e de águas residuais.
O que sucede actualmente é que estão a negociar uma trégua, mas Israel recusa-se a levantar o bloqueio que é a questão chave. Porque com o bloqueio, a Palestina está totalmente fechada, é uma prisão, não tem saída nem entrada; está submetida a todo o controlo israelita.
Os palestinos estão dispostos a chegar a um acordo de coexistência pacífica com Israel desde que Israel levante o bloqueio ao país. E como é uma condição necessária, Israel nega-se a levantar o bloqueio, e está a prepara-se para voltar aos assaltos e assassínios.
Embora milhões de pessoas e vários governantes no mundo inteiro terem condenado a política genocida, Israel está disposto a bombardear o que resta de Gaza.
Estamos na última ronda das negociações e Israel continua a recusar a abertura de um porto, de uma saída, uma possibilidade de poder melhorar a condição permanente dos palestinos. Entretanto, os palestinos afirmam que se não há concessões sobre o bloqueio estão dispostos a voltar ao combate.
A tragedia é que aqui nos Estados Unidos, os sionistas continuam a pressionar o governo estado-unidense para que apoie Israel se regressa à guerra. Temos visto que as principais organizações judaicas continuam a apoiar Israel, apelando inclusivamente a voltar à guerra, são em alguns casos mais belicistas que (Benjamín) Netanyahu.
E temos notado que em França e em Inglaterra e na América Latina, os sionistas continuam apoiando, apesar de vários indivíduos judeus terem condenado a agressão e tenham inclusivamente formado grupos de críticos da guerra israelita. Mesmo em Israel mais de cinquenta mil pessoas marcharam contra a guerra, pero em percentagem da população continuam a ser uma ampla minoria, 10 ou 15% no máximo, e não têm qualquer influencia no Parlamento e menos ainda no gabinete.
Temos uma situação que se vai agudizar.

EChI: ¿A situação no Iraque continua sendo complexa?

JP: É complexa porque há vários factores, mas o principal é que os Estados Unidos regressam à guerra, voltam a intervir no Iraque, usando o pretexto da ajuda humanitária. Como temos visto no passado, o pretexto da intervenção humanitária resultou em mais mortos e feridos. Vimo-lo nas primeiras guerras contra o Iraque, onde Estados Unidos inventaram um perigo de armas de grande potência, para bombardear e matar mais de um milhão de iraquianos. Usaram o mesmo pretexto na Líbia, inventando um massacre que não existia para agredir e bombardear o país. Fizeram o mesmo na Síria, inventando outra mentira sobre gás toxico para apoiar a agressão.
O resultado de todas as intervenções militares estado-unidense é mais mortes e piores circunstâncias para a população do que as que poderia ter com qualquer governante existente.
O caso actual continua a ser o mesmo. Temos recebido notícias de que há mais de 1500 efectivos norte-americanos já envolvidos em combates no norte do Iraque. Sabemos que há pelo menos duas dezenas de aviões, mais os drones, atacando as forças sunitas insurgentes. O resultado de toda esta intervenção é somente proteger os curdos que detêm o controlo no norte do Iraque, são fantoches de Washington, têm pouca independência. Os Estados Unidos têm funcionários e assessores em todos os postos do governo curdo e operam em todos os níveis da política do norte iraquiano. Está bem colonizado.
A táctica actual é tratar de forçar os do ISIS (1) a deslocar-se para a Síria. Ou seja, o bombardeamento dos insurgentes sunitas e dos terroristas visa deslocá-los para a Síria para que realizem as suas acções contra o governo de Bashar Al Assad e os outros grupos que apoiam o governo actual.
Portanto, com uma bomba conseguem duas cosas: primeiro proteger os curdos e segundo deslocar os terroristas para a Síria, para que provoquem mais danos ali.

EChI: Regressam os problemas raciais nos Estados Unidos.

JP: Sim, é cada vez pior.
Sob o governo de (Barack) Obama a situação piorou, tanto pelo tratamento policial como pela situação económica e social. A segregação, a concentração de poder nos agentes brancos, a marginalização dos negros é cada vez mais profunda.
O caso actual é que há um levantamento popular em Ferguson, Missouri, um protesto negro contra o assassínio de um jovem desarmado por parte da Policia. Não só o mataram como inventaram um vídeo supostamente roubando algo de menos de um dólar, mas no qual nem é claro que se trate desse mesmo jovem.
Mas no meio dos protestos, militarizaram a Policia, estão armados com todas as armas de guerra, com tanques, metralhadoras, balas de plástico, usam de tudo como quando ocupam um país colonial. E isso provocou mais protestos e agora há uma luta de rua com cocktails molotov, que tem potencialidades de contagiar cidades em outras partes dos Estados Unidos. O medo das autoridades é que o levantamento em Ferguson possa detonar levantamentos nas 150 maiores cidades do país, onde a população negra enfrenta as mesmas condições.
Aqui nos Estados Unidos qualquer jovem negro é suspeito para a Policia.
O tratamento judicial também é desproporcional. O mesmo delito cometido por um branco pode resultar numa sentença mais moderada do que se fosse cometido por um negro. O negro pode passar cinco anos na prisão mas branco passa um tempo prestando serviços comunitários.
Estas injustiças quotidianas estão presentes em Ferguson.
Agora o governador do Estado declarou Estado de Sitio, mandaram a Guarda Nacional para substituir a Policia. E a Guarda Nacional chega armada para a guerra. Poderíamos dizer que a situação é muito tensa, muito explosiva, e que ainda não há justiça. Os negros no Missouri dizem que Ferguson é igual a Gaza e que a Policia actua da mesma forma que os israelitas.

EChI: ¿Ou seja que em matéria de direitos dos negros não houve mudanças com Obama?

JP: Não, é pior.
Quer dizer: na cúpula, Obama nomeou vários negros da burguesia, mas com a política económica favorecendo Wall Street, favorecendo as guerras exteriores, significa que há menos gastos sociais para os pobres, e os mais afectados são os negros pobres.
Para além disso, a política de reconstruir as cidades significa deslocar os negros de cidades como Nova Iorque, Chicago e Los Angeles.
Como consequência destas políticas - domésticas e exteriores – a factura caiu mais sobre os negros e os latinos.
Obama não fez nada mais do que nomear quadros negros para as cúpulas, mas estes negros são iguais aos brancos nas suas perspectivas a favor do grande capital e das guerras exteriores. Não deve esquecer-se que os responsáveis negros na Administração Obama, estiveram a favor da agressão na Líbia contra os africanos, apoiaram o golpe militar no Egipto contra a população; estiveram a favor dos ataques contra o povo na Somália; etc. Então não existe nenhuma correlação entre a cúpula negra e a política em relação aos de baixo.

EChI: ¿Que outros temas te têm ocupado estes dias?

JP: Quero tocar o tema Ucrânia, onde os fantoches de Kiev estão a assaltar as cidades de Donetsk e Lugansk; bombardeando los sectores mais povoados, causaram mais de três mil mortos e feridos nos últimos dias.
Para além disso, os fantoches da Ucrânia, estão a bloquear os camiões russos que levam ajuda humanitária ao Leste. Incluindo os grupos mais militarizados do governo, que são o que chamam Batalhões Especiais – na sua maioria fascistas neonazis- que procuram eliminar os não ucranianos, ou seja os bilingues russo-ucranianos.
Entretanto, a imprensa supostamente progressista, como La Jornada (México) e Página/12 (Argentina), continua a referir-se aos democratas do Leste como “pró-russos”; não querem reconhecer que estão a lutar pela democracia, pelo federalismo, resistindo aos fascistas. Continuam a tratá-los de pró-russos para os desqualificar como cidadãos ucranianos que lutam pela democracia, que todavia é o objectivo da sua luta.
Esse é um crime da imprensa progressista, que de novo toma partido pelo imperialismo em locais de intenso conflito.
Outro tema que quero tocar brevemente, é o caso do falecido Eduardo Campos no Brasil, que a imprensa burguesa aqui considera como um mártir de Wall Street. Dizem que era um candidato importante, uma influência grande, um potencial presidente; mas na realidade não alcançava os 10%, mais exactamente 9,2% nas últimas sondagens, estava em terceiro lugar. E não era socialista coisa nenhuma, era líder do Partido Socialista Brasileiro mas a sua política era neoliberal, propunha liberalizar os mercados, desregular a economia, privatizar as empresas públicas, convidar os capitais estrangeiros.
Eu não sou partidário de Dilma Rousseff mas o facto é que ela encabeça as sondagens, com uma margem de 30% em relação a Campos.
Agora tratam de vender a Marina Silva como ambientalista, populista; mas Marina Silva abandonou faz tempo o ambientalismo, colaborando com Campos que era uma notório apoiante dos agro-tóxicos. Ela obviamente é uma oportunista que usa demagogicamente o discurso ecológico e está procurando o voto do grande capital que apoiava Eduardo Campos. Mas vão apresenta-la como mulher, cristã, ecologista, porque querem substituir a Rousseff que já não lhes serve porque estão cansados da coexistência entre capital e trabalho; Estão cansados das regulações e das coimas que têm que pagar ao PT para receber os favores e os contratos. Procuram uma mudança com um regime menos regulacionista, menos intervencionista por parte do Estado; apesar de o grande capital ter ganho muito dinheiro sob o governo de Rousseff. Mas eles querem tudo, não querem repartir nada com o Estado.
E isto leva-me ao último ponto que quero abordar, que é a popularidade de José Mujica, o Presidente do Uruguai. As grandes publicações da burguesia, como The Economist de Inglaterra, o Financial Times, The Wall Street Journal, New York Times, publicaram artigos muito favoráveis sobre José Mujica. Primeiro citam a vida simples, que tem um velho Volkswagen, que vive em casa humilde, que utiliza roupa popular. Mas para além desta simbologia externa, Mujica é muito favorecido pela prensa financeira porque abriu as portas ao investimento estrangeiro, os impostos para os grandes donos de plantações são muito baixos, entre os mas baixos da América Latina, os lucros são muito altos e, o melhor de tudo, os grandes capitalistas não têm que repartir os lucros com um Presidente corrupto. O facto é que Mujica é muito honesto e isso implica que não está a exigir uma percentagem dos lucros para financiar uma vida luxosa. Ou seja, é a política de livre mercado sem pagar coimas. E é o melhor dos mundos, os capitalistas que não pagam coimas, têm um presidente honesto como Mujica, conseguem melhores lucros e maior estabilidade do que com um governo que se define pro capitalista e é corrupto.

EChI: Petras, agradecemos-te muito esta análise. Reencontramo-nos na próxima segunda-feira.

JP: Muito obrigado.
E quero dizer que Pepe Mujica é um amigo, mas divergimos profundamente sobre a sua política económica na Presidência, um dia quando passe para outro lado, vamos tomar um mate juntos e discutir o que deve ser a política no Uruguai.

Notas da Redacção

(1) ISIS - Estado Islâmico de Iraque y el Levante (EIIL por sus siglas en castellano e ISIL o ISIS en inglês). Es um grupo insurgente de natureza islamita sunita, autoproclamado califado, assentado en um amplio território de Iraque y Síria controlado por radicais fiéis a Abu Bakr al-Baghdadi, califa de todos los muçulmanos. Embora tecnicamente el grupo se organiza como um Estado no reconhecido, controla de facto varias cidades como Mossul, Fallujah ou Raqqa, sendo esta última considerada sua capital.

Fonte: http://www.ivoox.com/analisis-james-petras-cx36-audios-mp3_rf_3410539_1.html

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