Peru. A mulher de barro

O fenómeno climático conhecido como “El niño costero” provocou no Peru este mês de Março grandes perdas humanas (o balanço actual é já superior ao referido neste artigo) e materiais. Como é norma neste tipo de acontecimentos, é sobre os pobres que a tragédia cai com maior violência. Mas a responsabilidade pela dimensão da tragédia não cabe a um fenómeno climático. Cabe a uma ocupação caótica dos solos que a classe dominante promoveu em nome da “liberdade”.

Não. No Peru não se trata de Maria, a trabalhadora temporária de Coquimbo apresentada no filme chileno de Sergio Castro San Martín, com o sugestivo título de “La mujer de barro”. Trata-se de Evangelina Chamorro Díaz, peruana de 32 anos e mãe de dois meninos de 5 e 10 anos, respectivamente, que - arrastada por uma inclemente torrente nos arredores de Lima no passado 16 de Março - conseguiu sobreviver graças à sua força de carácter e firme vontade.

Chama-se-lhe agora a mulher de barro, embora se pudesse também denominar a mulher de aço; porque mostrou uma consistência singular ante o desafio que, em qualquer outra circunstância, teria podido custar a vida a qualquer homem ou mulher da nossa terra.

O Peru não se dá ainda conta das dimensiones da catástrofe que vive: os primeiros números conhecidos são esmagadores: 63 falecidos; 62.642 pessoas afectadas; 552.866, danificados; 170 feridos; 11 desaparecidos; 1. 231 quilómetros de estrada destruídos; 3,354 km afectados; 117 pontes caídas; 19 escolas colapsadas; 900 centros educativos afectados.

Igualmente 19 das 23 regiões severamente golpeadas; 192 províncias e 830 distritos, invadidos por enxurradas, ou devastados pela chuva. Danos materiais que ainda não se podem calcular, mas que somam já milhões de dólares.

E esse é o começo de uma tragedia. No seu centro, uma mulher que se levanta do barro e cuja imagem deu já a volta ao mundo. Ela vivia - vive, melhor dizendo - num pequeno e modesto curral, em “La Tranquera” nas imediações de Punta Hermosa, a 48 quilómetros a sul de Lima, dedicada ao cuidado de alguns poucos animais domésticos. E tinha saído de casa para levar os seus meninos à escola. Já tinha regressado quando tudo começou.

Encontrava-se com o marido - Armando Rivera – na habitação e, de repente, veio a enxurrada. Não houve forma de a evitar. Ambos foram tragados pelo lodo, mas ele conseguiu pôr-se a salvo. Ela seguiu, devorada pela força de água, pedras, lodo e lixo que a sepultou num instante e a arrastou por quase 600 metros em direcção ao mar, fazendo-a engolir terra e lodo.

Teve sorte, sem dúvida. Sucedeu a dada altura que árvores, ramos y paus construíram espontaneamente um desvio no caminho das águas. E ela foi expelida da torrente até ficar debaixo de um amontoado de madeiros. Ali, encontrou a sua salvação.

Quando uma centena de pessoas localizadas na margem via alucinada a indetível torrente, distinguiu de repente que do lado das tabuas emergia um corpo de mulher. Era Evangelina, coberta de barro e de lodo; irreconhecível, mas viva.

A partir de aí começou um novo episódio. Levantando-se e caindo, ela conseguiu ganhar a margem. E aí desfaleceu. Felizmente estavam já próximos braços estendidos, o auxílio indispensável. E a mulher pode ser retirada e conduzida a um centro hospitalar, onde hoje recupera.

Têm sido múltiplos os comentários alusivos ao facto. Todos coincidindo em assegurar que foi a sua força pessoal, e o vigor da sua causa – os seus filhos - o que deu a Evangelina alento para enfrentar o desafio e superar o transe. Mas a historia, e as imagens que se tornaram “virais” nas redes, permanecerão muito tempo na retina de milhões.

A catástrofe do Peru dá para muito. Hoje todos falam de “a unidade dos peruanos”. E sim, todos devemos unir-nos para ajudar as vítimas desta horrenda tragedia.

Mas a unidade não pode tolerar fantochadas. Os “trolls” da Mafia asseguram, por exemplo, que a culpa de tudo o que sucede é do governo do PPK por ter inventado a “ideologia de género”, que “despertou a ira de Deus”. Enquanto dizem isso, perguntam: e que fez o governo de Humala para prevenir esta catástrofe?

Não. Não foi a ira dos deuses, nem a “imprevidência” de Humala. Foi a cruel resposta da natureza ao também cruel trato que nós peruanos lhe damos, de forma quotidiana. E foi o fracasso da política da classe dominante que durante décadas admitiu, em nome da “liberdade” todo o tipo de arbitrariedades.

Para que as pessoas tenham o “direito” a escolher o seu local de habitação, permitiu que se construíssem habitações nas zonas mais precárias: em leitos de cheia, no sopé da montanha, à beira da ravina. E para respeitar “a liberdade de comércio” aceitou que se construíssem edifícios e moradias, sem controlo algum; e que cada qual se dedicasse “ao seu” , sem planeamento de qualquer espécie. É essa hoje a fonte do caos.

Mas há mais. Em 1869, há 148 anos levantou-se em Lima a Ponte Balta, para unir, sobre las águas do rio Rimac, o centro da cidade com o norte da mesma. Essa ponte permanece hoje, qual fortaleza inexpugnável. Mas há 10 anos, na sua primeira gestão metropolitana, o actual alcalde Luis Castañeda fez construir uma ponte – chamaram-lhe “Solidariedade”, quando a pintaram de amarelo -. Esta ponte veio abaixo sem grande resistência ao embate das águas. Não é só a “liberdade”, é também “negocio” o que anda por aí.

Com cinismo exemplar, e acossado pela imprensa, o alcalde Castañeda conseguiu dizer: “esta derrocada apenas demonstra que a natureza venceu a engenharia “

Contra toda a lógica e racionalidade a maioria parlamentar fujimorista manteve até à noite de quarta-feira 15 a “interpelação” ao ministro Martín Vizcarra, também Vice-presidente da República, para a iniciar quinta-feira 16 às 9 da manhã. Mas as notícias das enxurradas e deslocamentos de terras foram tão esmagadoras, que já muito tarde nessa noite, a “Junta de Porta-vozes” do Legislativo decidiu “suspender” a sessão parlamentar”, até “novo aviso”. Teria sido um espectáculo ver os 130 congressistas tentar desautorizar um ministro enquanto o país inteiro vivia a angústia das chuvadas e inundações.

A imagem de tão descomunal ridículo fez retroceder a Mafia. Mas ela retrocedeu - como disse literalmente Lu Salgado - “até novo aviso”. Apenas passe o que hoje ocorre, lançar-se-á outra vez como uma fera à jugular de quem tenha pela frente. Chamam a isso a “necessidade de unir todos os peruanos”

Seria indispensável somar duas vertentes para atender os requerimentos de todos os peruanos: Assegurar que Roque Benavides e os empresários da CONFIEP pagam o que devem ao Estado; e que os condenados que integram a Mafia fujmorista regularizem as reparações pendentes, das quais até hoje não liquidaram um centavo.

Se o fizessem, poderia começar-se a falar da “unidade de todos os peruanos” para enfrentar a crise. Por agora o que manda é a força do povo, que ninguém conseguiu ocultar.

Vimo-la nas cadeias humanas organizadas para salvar pessoas e animais nas zonas mais deprimidas das cidades; no abnegado labor dos polícias de trânsito que com água pela cintura desempenham as suas funções para evitar o caos; na recolha de roupa, víveres e vitualhas, assumida por alguns meios de comunicação impelidos pela vontade cidadã.

Nesse quadro poderiam - e deveriam - surgir e multiplicar-se as brigadas sindicais, integradas por trabalhadores de todos os sindicatos e centrais; e encarregadas de tarefas solidarias em trabalho voluntario e em proveito da comunidade.

O Peru já venceu desafios mais duros do que este, e seguirá em frente, sem lugar a dúvidas. Mas será melhor que saia porque nós, os peruanos de verdade, nos damos a mão; não para reconstruir um passado obsoleto mas para construir um futuro melhor.

(*) Colectivo de Direcção de Nuestra Bandera / http://nuestrabandera.lamula.pe

Resumen Latinoamericano/ 18 de Março 2017