Por detrás da súbita morte da guerra secreta de $1 milhão de milhões na Síria

A publicação deste artigo do New York Times justifica-se a vários títulos. O mais importante é constatar a franqueza e a naturalidade com que se relata o planeamento e o enorme financiamento das criminosas acções encobertas da CIA e do Pentágono contra países soberanos. A irresponsabilidade com que são alimentados e desencadeados conflitos cuja evolução é imprevisível e incontrolável. A completa omissão de referência à destruição resultante e ao número de vítimas civis. E não deixa de ser também de registar o esforço do NYT para desvincular a administração Obama e a própria CIA dos monstruosos crimes cometidos no terreno.

WASHINGTON — O final chegou com celeridade para um dos mais dispendiosos programas de acção encoberta na história da CIA.
No decurso de uma reunião de trabalho na Casa Branca no início do mês passado, o director da CIA, Mike Pompeo, recomendou ao Presidente Trump o encerramento da iniciativa, já com quatro anos, para armar e treinar rebeldes sírios. O presidente encerrou o programa de imediato.

Nessa altura o exército rebelde não passava de uma concha, esvaziada por mais de um ano de bombardeamentos por parte de aviões russos, e confinada a cada vez mais reduzidas zonas da Síria ainda não reconquistadas pelas tropas governamentais. No Congresso, vozes críticas vinham há anos reclamando acerca dos custos – mais de $1milhão de milhões no tempo de vida do programa – e a informação de que armamento fornecido pela CIA tinha acabado nas mãos de um grupo rebelde ligado à Al-Quaeda reduziu ainda mais o apoio político ao programa.

Embora críticos de Trump tenham argumentado que este encerrou o programa para agradar ao Presidente da Rússia, Vladimir F. Putin, existiam de facto opiniões desfavoráveis acerca dele tanto na Casa Branca de Trump como na de Obama – uma convergência de opinião rara em políticas de segurança nacional.

O encerramento do programa da CIA, uma das mais dispendiosas iniciativas de armamento e treino de rebeldes desde o programa visando os mujahidin no Afeganistão no decurso dos anos 80, forçou a um balanço acerca os seus êxitos e insucessos. Opositores dizem que foi disparatado, caro e ineficaz. Apoiantes dizem que foi desnecessariamente cauteloso, e que os seus sucessos são notáveis tendo em conta que a administração Obama lhe colocou desde o início numerosas limitações, que dizem terem, em última análise, conduzido ao seu falhanço.

O programa teve efectivamente períodos de sucesso, incluindo em 2015, quando rebeldes utilizando mísseis antitanque fornecidos pela CIA e também pela Arábia Saudita derrotaram forças governamentais no norte da Síria. Mas no final de 2015 a ofensiva militar russa na Síria estava claramente concentrada nos combatentes apoiados pela CIA que enfrentavam as tropas governamentais. Muitos combatentes foram mortos e os sucessos do exército rebelde sofreram uma reversão.

Charles Lister, um perito em assunto sírios no Middle East Institute, disse não ficar surpreendido por a administração Trump encerrar o programa, que armou e treinou milhares de rebeldes sírios. (Por comparação, um programa de $500 milhões do Pentágono que visava treinar e equipar 15.000 rebeldes sírios foi cancelado em 2015 tendo produzido apenas algumas dúzias de combatentes.)

“Em muitos aspectos, atribuiria a culpa à administração Obama,“ disse Lister acerca do programa da CIA. “Nunca lhe atribuíram os recursos ou o espaço necessário para determinar as dinâmicas no campo de batalha. Alimentaram a conta-gotas grupos de oposição, o suficiente para sobreviverem mas nunca o suficiente para se tornaram actores dominantes.”

Desde que encerrou o programa, Trump já por duas vezes o criticou publicamente. Depois de o The Washington Post ter pela primeira vez informado acerca da sua decisão, Trump escreveu no twitter que estava a pôr fim a “pagamentos massivos, perigosos e destruidores a rebeldes sírios lutando contra Assad.” Durante uma entrevista no mês passado com o The Wall Street Journal, o presidente disse que muito do armamento fornecido pela CIA tinha acabado nas mãos da “Al-Quaeda” – presumivelmente referindo-se à Frente Nusra, filiada à Quaeda, que frequentemente combateu lado a lado com os rebeldes apoiados pela CIA.

Michael V. Hayden, um director anterior da CIA, disse que os comentários do presidente “poderiam dar à agência um tempo de pausa para reflectir acerca de quanto poderá assumir em futuras acções encobertas.”

O General Raymond A. Thomas III, chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA, disse no decurso de uma conferência no mês passado que pôr fim ao programa da CIA constituíra uma “dura, dura decisão.”

“Tanto quanto sei do programa e da decisão de lhe pôr fim, não se tratou em absoluto de agradar aos russos”, disse. “Penso que foi baseada numa avaliação da natureza do programa, do que procurávamos conseguir, da viabilidade de prosseguir.”
Um porta-voz da CIA recusou-se a comentar.

O presidente Barack Obama tinha em 2013 dado com relutância o seu acordo ao programa, numa altura em que a administração se esforçava para deter o ímpeto das forças governamentais sírias leais ao presidente Bashar al-Assad. Em breve foi vítima das constantes variações no sistema de alianças na guerra civil síria, já com seis anos, e da limitada visão que os militares e os serviços de informações dos EUA tinham acerca do que estava a ocorrer no terreno.

Os oficiais dos EUA tinham dificuldade em controlar os combatentes treinados pela sua uma vez passada a fronteira. O facto de algum do armamento fornecido pela CIA ter acabado nas mãos de combatentes da Frente Nusra – e de alguns dos rebeldes se terem juntado a esse grupo – confirmou os receios de muitos na administração Obama manifestados no início do programa. Embora a Frente Nusra fosse amplamente considerada como uma força combatente efectiva contra as tropas de Assad, a sua filiação na Al-Quaeda tornava impossível que a administração Obama lhe desse apoio directo.

Agentes dos serviços de informações norte-americanos estimam que a Frente Nusra tem agora à volta de 20.000 combatentes na Síria, tornando-se assim a maior filiada na Al-Quaeda. Ao contrário de outras filiadas na Al-Quaeda, como as que se encontram na península arábica, a Frente Nusra tem-se concentrado no combate contra o governo sírio, em vez de planear ataques terroristas contra os EUA e a Europa.

Estes agentes norte-americanos falaram anonimamente, por não quererem ser identificados a discutir um programa que não é de acesso público.

No verão de 2012 David H. Petraeus, então director da CIA, propôs pela primeira vez um programa encoberto visando armar e treinar rebeldes, alvo de pressão por parte das forças governamentais sírias.

A proposta forçou um debate no interior da administração Obama, com alguns dos principais conselheiros de Obama argumentando que o caótico campo de batalha sírio tornaria praticamente impossível garantir que o armamento fornecido pela CIA seria mantido longe das mãos de grupos militantes como a Frente Nusra. Obama rejeitou o plano.

Mas mudou de opinião no ano seguinte, assinando uma resolução presidencial autorizando a CIA a armar e treinar de forma encoberta pequenos grupos de rebeldes em bases na Jordânia. A mudança de opinião por parte do presidente resultou em parte da intensa pressão por parte de dirigentes estrangeiros, incluindo o rei Abdullah II da Jordânia e o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu de Israel, que defendiam que os EUA deveriam assumir um papel mais activo na tentativa de pôr fim ao conflito.

O programa, ao qual foi atribuído o nome de código Timber Sycamore (madeira de sicómoro), começou lentamente, mas em 2015 os grupos rebeldes apoiados pela CIA tinham já feito significativos progressos contra as forças sírias, penetrando em zonas do país há muito consideradas como praças-fortes governamentais. A ofensiva ganhou ímpeto depois de a CIA e a Arábia Saudita terem começado a fornecer aos grupos rebeldes poderosas armas de destruição de tanques.

Mas a ofensiva rebelde nas províncias de Idlib, Hama e Latakia no norte da síria criou também problemas a Washington. A Frente Nusra, frequentemente combatendo ao lado dos grupos rebeldes apoiados pela CIA, foi fazendo os seus próprios ganhos territoriais. Os sucessos da Nusra no campo de batalha foram uma das justificações de Putin para a ofensiva militar russa na Síria, que teve início em 2015. A campanha russa, bombardeando sem cessar os combatentes apoiados pela CIA e os militantes Nusra, devastou os rebeldes e obrigou-os à retirada.

O programa sofreu outros contratempos. O armamento e o treino dos rebeldes ocorreu na Jordânia e Turquia, e em certa ocasião agentes dos serviços de informações jordanos surripiaram grandes quantidades de armamento que a CIA enviara para o país destinados aos rebeldes sírios, e venderam-nos no mercado negro. Em Novembro, um membro da tropa jordana atingiu a tiro três soldados norte-americanos que tinham estado treinando rebeldes sírios integrados no programa da CIA.

Funcionário da Casa Branca recebiam também informações periódicas de que os rebeldes treinados pela CIA tinham executado sumariamente prisioneiros e cometido outras violações das regras de conflito armado. Por vezes, essas informações levavam a que a CIA suspendesse a cooperação com grupos acusados de tais práticas.

John O. Brennan, o último director da CIA de Obama, permaneceu um vigoroso defensor do programa apesar das divergências internas na agência de espionagem acerca da sua eficácia. Mas por altura do último ano da administração Obama, o programa tinha perdido muitos apoiante na Casa Branca – em particular depois da prioridade principal da administração ter passado a ser o combate ao Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou ISIL, mais do que o esforço para acabar como o governo Assad.

No decurso de uma reunião no Situation Room da Casa Branca, no final da administração Obama, com os rebeldes apoiados pela CIA a continuar a perder terreno face ao persistente bombardeamento aéreo russo Brennan insistiu, segundo uma pessoa presente, em que os EUA continuassem a apoiar os esforços para derrubar Assad.

Mas Susan E. Rice, conselheira de segurança nacional, disparou de volta. “Não se equivoque” disse, segundo o mesmo testemunho. A prioridade do presidente na Síria é combater o ISIS.”

Apoiadas pela Força Aérea russa, as forças governamentais sírias começaram gradualmente a recuperar áreas próximas da fronteira turca que há muito constituíam praças-fortes rebeldes, e eventualmente fizeram retroceder muitos dos rebeldes para a cidade sitiada de Alepo.
Aleppo tombou nas mãos das tropas governamentais sírias em Dezembro.

Eric Schmitt, Matthew Rosenberg e Matt Apuzzo contribuíram com reportagem.
Fonte: https://www.nytimes.com/2017/08/02/world/middleeast/cia-syria-rebel-arm-train-trump.html

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