¿Quando vai a esquerda israelita aceitar que a ocupação se iniciou em 48 e não em 67?

Rami Younis    15.Jun.17    Outros autores

Os israelitas que se afirmam de esquerda mas recusam reconhecer que a origem do seu Estado assenta na limpeza étnica do povo árabe e na ocupação das suas terras em 1948 – a Nakba – podem falar muito de paz, mas nunca estarão em condições de compreender a justeza das reivindicações e da luta do povo palestino.

Uma das características negativas da “esquerda” israelita é como denomina o regime militar da Cisjordânia e da Faixa de Gaza: “a ocupação”. Acusa Inclusivamente os palestinos que afirmam que não há diferença entre Petah Tikva e Ariel de serem como a direita, porque “isso é o que afirma a direita israelita”. Entretanto, para a maioria de palestinos, este exagerado e orwelliano palavreado acerca da “ocupação” ilumina a verdadeira vergonha de Israel e o esqueleto profundamente enterrado no armário: a brutal e criminosa ocupação de 1948.

A limpeza étnica e a expropriação massiva de terras, e depois a ocupação dessa terra, são a mãe de todas as desgraças, mesmo que os israelitas se neguem a reconhece-lo como tal em público, e mesmo que esforçadamente tratem de fazer caso omisso do que a maioria dos árabes está a dizer. Com a designação da ocupação de 67 como “a ocupação”, os israelitas pretendem, entre outras coisas, tanto obscurecer como evitar qualquer compromisso com a Nakba. A maioria da suposta esquerda israelita compõe-se realmente daqueles que negam a Nakba.

Uma das mais gastas afirmações utilizadas para evitar referir-se aos crimes de 48 como uma “ocupação”, é que a Nakba ou a “Guerra de Independência” - para usar a deslavada expressão sionista - eram necessárias para o projecto nacional de estabelecer um Estado para o povo judeu depois da Segunda Guerra Mundial.

Outra pretensão, apresentada na sua maioria pela direita israelita, é que os palestinos rejeitaram o plano de partição de 1947da ONU. Esta afirmação sempre pareceu vazia de qualquer fundamento ou lógica básica e portanto não vale a pena abordá-la. Vamos a ver se os que apoiam esta afirmação estão de acordo em compartilhar os seus lares e terras com pessoas que chegaram do estrangeiro para os despojar e então poderemos falar do assunto.

¿Um projecto nacional?

O argumento de que era necessário estabelecer um Estado a expensas da população nativa, que justificam devido à perseguição sofrida pelos ocupantes, é patética no melhor dos casos. Muitas boas pessoas já falaram da cínica exploração por parte do sionismo da memória das vítimas do Holocausto. Mas para os ouvidos dos palestinos, estas autojustificações juntamente com a exagerada verborreia sobre “a ocupação”, como se não tivesse havido nenhum outro desastre que deixasse ferida aberta, soa mais do que patético.

Estas declarações são destinadas a diluir a responsabilidade dos israelitas nesses acontecimentos sangrentos. Seria importante para os sangrantes corações dos sionistas esquerdistas que proclamam que os árabes e os judeus não necessitam de ser inimigos escutar e entender os palestinos acerca de quão traumático é ainda o ocorrido em 48 - e quanto impacta até hoje - inclusivamente para a terceira geração depois da Nakba.

Não é só a diáspora de milhões de refugiados da Nakba cuja maioria vive em condições precárias nos acampamentos. É também a falta de reconhecimento da maior injustiça jamais feita ao povo palestino. Quando não reconheces a tua responsabilidade directa na catástrofe de outro [nem devolves o que roubaste], ¿como pode esperar-se que viva contigo em paz ou creia nas tuas palavras de ordem de convivência?

Viver no passado

São de longe demasiados os israelitas que tratam de eximir-se das reclamações dos palestinos pelo não reconhecimento dos factos de 48, que continua sendo uma ferida aberta, e se sentem satisfeitos pregando aos palestinos que devem “deixar de lado o passado”. E este discurso vem das personas que se justificam com o regresso à terra dos seus antepassados de há milhares de anos. A hipocrisia não tem limites.

Ignorar e esquecer o passado é outra característica negativa da “esquerda israelita”. Os israelitas fazem constantemente uso do seu direito bíblico sobre a Palestina e recordam continuamente ao mundo a sua perseguição no passado, de modo que seria precisamente dos esquerdistas que se esperaria que compreendessem a insistência dos palestinos em recordar os crimes do seu passado. Especialmente quando essas mesmas pessoas perseguidas são quem causou estas injustiças.

Enquanto não se encontre uma solução ao sofrimento dos palestinos - que continua em curso com o aumento dos roubos de terra- a Nakba nunca vai desaparecer do discurso palestino. Os árabes continuam sendo expulsos dos seus lares para os entregar aos colonos e não apenas para da Linha Verde (veja-se, por exemplo, Umm al-Hiran e como las cidades mistas estão sendo judaizadas).

A triste verdade é que o reconhecimento da Nakba requer o reconhecimento da ocupação original de 1948 e os israelitas têm medo de se enfrentar com isso. Podem gritar eternamente palavras de ordem de paz, mas enquanto forem ignorados os direitos dos refugiados de 1948 a recuperar a sua terra a expensas dos colonos, em Ein Hod, por exemplo [em toda a Palestina, na realidade], essas palavras não têm sentido.

¿Queres colaborar com os palestinos como iguais? ¿Queres insistir em que te negas a vê-los como inimigos? ¿Queres fortalecer os valores reais da esquerda [ainda que percas os teus privilégios de ocupante]? Então começa a repetir: a ocupação tem 69 anos, não 50. Quando mais israelitas se unirem em torno desta linha de pensamento e deixarem de negar a Nakba, talvez então mais e mais palestinos começarão a negar-se a vê-los como inimigos.

Texto completo em: http://www.lahaine.org/icuando-va-a-aceptar-la

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