Revolução*

Filipe Diniz    15.Feb.17    Colaboradores

A URSS já não existe. Mas esse facto não impede que o centenário da Revolução de Outubro cause um profundo mal-estar aos reaccionários de todos os matizes. Têm razão. Se a Comuna de Paris foi o primeiro «assalto aos céus», a Revolução de Outubro foi o segundo, e outros se lhe seguiram e seguirão. Tardará ainda, mas há-de chegar o dia em os céus sejam definitivamente conquistados.

O inevitável António Barreto já veio opinar sobre o centenário da Revolução de Outubro («O grande embuste», DN, 5.02.2017). Não há nada que se salve. Gasta o arsenal completo do anticomunismo mais odiento: depuração, deportação, limpeza étnica, colectivização, trabalhos forçados, tortura, assassinato, rapto, prisão em números que se elevam a muitos milhões, fomes programadas, genocídio, pura opressão, apoio aos movimentos subversivos (aqui há um deslize, um «socialista» devia evitar a linguagem do fascismo) e revolucionários do mundo inteiro, desde que em luta contra as metrópoles coloniais, contra as democracias (outra distracção, Barreto! Estará a referir-se ao nazi-fascismo?) e contra os países do mundo ocidental, métodos bárbaros, etc., etc. O esperado, enfim.

Barreto pertence ao tipo de gente cujas opiniões devem ser medidas por aquilo que fizeram quando tiveram poder. Não é pelo seu doentio anticomunismo que ficará na história, é pelo papel assumido na criminosa destruição da Reforma Agrária.

Nem o facto de a URSS ter desaparecido o modera, e é capaz de estar aí a principal motivação. O que provoca este salivar dos Barretos deste mundo não é a revolução passada. É o que ela representou, representa e representará no caminho da história, que não se deteve com a derrota da URSS. A Revolução de Outubro não se repetirá, porque condições históricas particulares não se repetem. Mas, tal como sucedeu antes da derrota da URSS, e voltará a suceder depois dela pelo mundo inteiro, outras revoluções abrirão aos povos o caminho do socialismo.

E já agora, neste ano de centenário, convém clarificar que, para os comunistas, a palavra revolução não tem o significado estrito do momento decisivo em que se altera de vez a correlação de forças entre as classes em confronto. Revolução é a modificação radical das relações sociais de produção e é a transformação, de cima abaixo, de toda a sociedade até aí existente. E como a nossa Revolução de Abril mostrou de forma exemplar é, no fundamental, obra e construção criadora das massas em movimento, finalmente protagonistas centrais do devir humano.

Para desgosto de todos os Barretos, celebrar Outubro é celebrar o que há-de vir.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2254, 9.02.2017

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