Sexagenária*

Correia da Fonseca    11.Mar.17    Outros autores

A RTP comemora o 60º aniversário. Fez a festa e deitou os foguetes, mas as razões para o público festejar não são muitas. Em 60 anos passou-se muita coisa mas, mesmo descontando os 17 anos em que foi ferreamente tutelada pelo regime fascista, muito poucas vezes poderá dizer-se que a RTP se colocou do lado certo. Do lado que se exigiria de um serviço público num regime verdadeiramente democrático.

A RTP, de seu actual nome completo Rádio e Televisão Portuguesa desde que televisão e rádio públicas foram integradas numa única empresa estatal, completou há poucos dias os seus sessenta anos de emissões regulares. Está, pois, sexagenária e com sobeja idade para ter juízo. Os sessenta anos da criatura foram celebrados sobretudo durante a sessão final de mais um Festival RTP da Canção, acontecimento anual de não excelente memória, e o festejo reuniu num mesmo punhado de imagens e de palavras muita alegria, alguma gratidão por figuras do passado e até um poucochinho de luxo. Não foi caso para grandes reparos: bem sabemos que nisto de festas de aniversário é de regra que floresçam alegrias e exageros. A questão, porém, é que a RTP não é uma aniversariante como outra qualquer, pelo que ao imaginário champanhe comemorativo será adequado deitar algum veneno, como consta que dizem os ingleses.

Em dia de aniversário

Recordemos, pois, que a RTP nasceu em plena ditadura fascista e apenas quatro anos antes da eclosão da guerra colonial. Nasceu sob a forma de sociedade com participação de privados, mas será útil lembrar que esses privados eram o RCP do coronel Botelho Moniz, o mentor dos «Viriatos» que combateram em Espanha ao lado de Franco e a Rádio Renascença. É claro, pois, que a RTP não nasceu livre para um livre exercício: não era livre o país, não o eram os portugueses; a PIDE vigiava e intervinha, torturava e assassinava; Caxias, Peniche e Aljube esperavam. Neste enquadramento, a RTP agiu como lhe mandavam e sempre sob apertada vigilância: permanente agentes censórios no local, apertada filtragem de colaboradores, presença de informadores e denunciantes. Esses dezassete anos entre 57 e 74 contam pois, naturalmente, para os sessenta que agora se festejam, mas dificilmente podem eles próprios ser plenamente festejáveis ainda que algumas frestas de coragem e de qualidade, até de genuína alegria, neles se tenham aberto sobretudo a partir do mandato marcelista: lembremos, nesse âmbito, um pouco como símbolo, o «Zip-zip», mas também as prestações de João de Freitas Branco, de Luís Francisco Rebello, de António Vitorino d’Almeida. Depois, chegou Abril. Durante algum tempo, não muito, a RTP foi a televisão certa para um país que queria mudar e mudar muito, mas dentro dela ficaram os que apenas esperavam que o sopro de mudança passasse. Um funcionário superior chegou a garantir para uso interno que «isso do 25 de Abril não entra cá dentro». A verdade é que o sopro amainou mas o passado não foi reinstalado. De então para cá, decorreram mais de quarenta anos, a RTP desenvolve, dia após dia, uma prática impecavelmente democrática? A informação que nos presta é sempre imparcial e isenta, a visão do mundo que fornece é sempre independente de pressões e condicionamentos internos ou externos, os comentadores que admite nos seus estúdios não são seleccionados em função de opções ideológicas ou políticas? Sabemos a resposta. Porém, se se trata de festejar globalmente, e portanto acriticamente, sessenta anos de existência, festejemos. Um favor faz-se a qualquer em dia do seu aniversário.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2258, 9.03.2017