Tchinguiz Aitmatov e «O Lugar da Caveira»

Publicamos hoje dois textos que Miguel Urbano enviara há menos de uma semana. São notas de leitura de obras de André Gide e de Chinguiz Aitmatov. Como em tudo o que escrevia, essas notas são um pretexto para ir mais longe. Uma das mais notáveis qualidades que possuía, e que o distinguia como marxista, era a profunda compreensão do carácter histórico das coisas humanas. E de descortinar em todas elas o movimento da história.

Uma hierarquia do belo é inviável.

Estabelecer paralelos entre a beleza de uma montanha nevada e a de um rio, ou a de uma floresta e a de uma catarata é tao absurdo como tentá-los entre a catedral de Colónia e a Mesquita de Sultan Ahmet, a Danae de Rembrandt e a Gioconda, o Don Quixote de Cervantes e o Hamlet de Shakespeare.

Mas está ao alcance de cada um de nós registar na memória a paisagem, longe das grandes cidades, que tocou mais profundamente a sua sensibilidade, ou, para ser mais preciso, cuja beleza lhe produziu um choque emocional e estético mais intenso do que qualquer outro.
No meu caso não hesito na escolha. Tive a oportunidade de visitar mais de 70 países e de conhecer paisagens de deslumbrante beleza. Nenhuma me comoveu e perturbou como o lago Issik Kul, encastoado entre montanhas ciclópicas.

O desejo de conhecer esse lago nasceu em 1981 ao ler um conto de Chinguiz Aitmatov quando passava férias na RDA.

Admirava o escritor quirguiz desde que vira o filme Jamilia, inspirado no seu romance do mesmo nome. Mais tarde, li o livro. Para Aragon, que o traduziu para o francês, é «a mais bela estória de amor de todos os tempos».

Comoveu-me tanto que, não sem esforço, reuni algumas obras do autor em diferentes traduções. Três delas sobretudo me fascinaram: O Primeiro Mestre, O Barco Branco, e Gulsary, a estória de um cavalo e do seu dono.

Foi a descrição do Issik Kul numa dessas novelas que em 1987 me levou ao Quirguistão. Escrevi muito, em jornais e livros, sobre o meu encontro com o lago mágico. Mas não me iludo. Faltou-me talento para expressar o que senti nas semanas em que percorri a região e o que significou para mim o Issik Kul.

O lago e as montanhas da cordilheira do Tien Chan diferiam de outros lagos e montanhas que conhecera na América e na Europa. Aquilo não é comparável. Os cerros coroados por neves eternas, eram escalvados e nus na vertente exposta aos ventos siberianos e cobertos de florestas densas na oposta. Nas pradarias onde morriam as últimas escarpas daquele mundo verde pastavam milhares de cavalos semi selvagens, infindáveis manadas de bois e rebanhos de ovelhas.

Falhou então, por um imprevisto, um encontro com Chinguiz que veraneava na época na sua casa do grande lago. Rasguei o questionário que tinha preparado.
A minha admiração por Aitmatov aumentou a cada novo livro do escritor qirguiz.

Ele escreve poesia em prosa. Torna-se parte da natureza ao descrever um campo florido, o voo de uma ave, o rumorejar de um regato, a harmonia do galope de uma corça, uma tempestade no lago. Consegue fundir os mitos e tradições milenares do seu povo num panteísmo onde homens e animais se enraízam fraternalmente na lonjura do tempo em antepassados comuns.

Filho de um quirguiz e de uma tártara, tinha dez anos quando fuzilaram o pai, secretário do Partido regional, nos expurgos de 37, sob a acusação de «nacionalismo burguês».

O trauma acompanhá-lo-ia pela vida adiante.

Bilingue, escreveu o primeiro livro em qirguiz, mas optou posteriormente pelo russo numa carreira fulgurante. Aos trinta anos já era um dos mais lidos e prestigiados escritores da URSS. Quando faleceu, nas vésperas de festejar 80 anos, os seus livros estavam traduzidos em 150 países.

Como diplomata, foi embaixador da URSS em diferentes países e organizações internacionais e do seu Quirguistão, apos a independência deste.

Essa ambivalência – assumiu-se como soviético, quirguiz e russo – permitiu-lhe ser vice-presidente da União de escritores da URSS e vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Quirguízia.

Foi amigo de Mikhail Gorbatchov e seu assessor cultural. Sobre ele choveram posteriormente críticas de intelectuais europeus, latino-americanos e também russos.

Senti dificuldade em compreender muitas das atitudes que tomou nos últimos anos da sua vida.

Mas, ao ler O Lugar da Caveira- Plakha em russo e Le Rêve de la Louve em francês, – creio ter entendido as motivações de algumas das imprevisíveis tomadas de posição da complexa personalidade de Aitmatov. Admito que, tal como aconteceu com Bulgakov, a ponte estreita entre o escritor e o homem somente será bem iluminada com o correr dos anos.

Atrevo-me a afirmar que O Lugar da Caveira é um dos seus livros mais importantes, embora lhe falte qualidade como obra literária. A contradição é apenas aparente.

Creio que esse estranho romance foi escrito em 1985-86, no início da perestroika, o processo que ele defendeu até à desagregação da URSS.
A crítica soviética foi com poucas exceções desfavorável.

O estilo surpreende. Não parece seu, pela secura. A estrutura do texto é desarticulada, numa montagem desconcertante a que falta harmonia, com estórias enxertadas que chocam o leitor. Algumas das personagens são introduzidas e abandonadas numa cadeia que perturba.

A narrativa, tal como em Huxley, é em muitos capítulos interrompida por um extenso discurso – o de Avdiy por exemplo- que incide sobre questões ideológicas, morais e éticas.

A esses intermezzos abruptos sucedem-se páginas ora de uma violência brutal ora de um lirismo inesperado.

Os lobos atuam e pensam como se humanos fossem, e alguns homens atuam e pensam com a irracionalidade de animais.

Numa remota estepe da Ásia Central, Aitmatov situa duas estórias justapostas - somente os lobos atravessam ambas - para colocar, grandes problemas do nosso tempo.

A convergência resulta da ameaça que representa para a humanidade a destruição do ambiente, concebida e executada pelo homem e a insensibilidade e desumanização daqueles que exercem o poder e são responsáveis pela tragédia em curso.

«…Na vida das pessoas do nosso seculo- escreveu E.Surkov no prefácio – tudo está ligado a tudo-. Deflagram explosões de potência mundial e de significado universal. Tudo pode ser entendido no seu verdadeiro significado, em profundidade, se forem descodificadas as relações entre o local, o particular e o mundo. E a relação entre o destino de cada homem e os destinos do planeta.»
É simbólico que o título do romance seja o do lugar onde, segundo a Bíblia, Jesus foi crucificado.

*Chinguiz Aitmatov, O Lugar da Caveira, Ed D. Quixote, 403 páginas, Lisboa

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