Trump, Polónia e as guerras da história

Maciek Wisniewski*    21.Ago.17    Outros autores

Não é a inverosímil reinterpretação que Trump faz da história nem a boçalidade com que o faz, e que se adivinha na leitura deste texto, o que mais inquieta, mas a sua aceitação pelos que a viveram e pelos que a ouviram dos seus pais e avós…

Mas se alguém pensa que a história é só uma questão do passado (por assim dizer…) e uma ferramenta poderosa para organizar o presente, a visita recente de Trump à Polónia e Varsóvia (http//www.lahaine.org/fi-14a) e o caso da direita nacionalista polaca deveriam faze-lo reconsiderar a sua postura.

a) Foi esta visita e o discurso cheio de referências históricas pronunciado diante do monumento ao Levantamento de Varsóvia (1944) que, reivindicando aos olhos do Partido do governo Lei e Justiça (PIS) tudo aquilo em que acreditamos, o incentivou a promover reformas judiciais para assegurar o controlo sobre os cortes, uma tentativa parcialmente frustrada, mas que marca a lenta deriva da Polónia para o autoritarismo.

b) Foi a história — ou a sua reinterpretação habitual — que catapultou o PIS para o poder em primeiro lugar.

Embora se deva sublinhar que o PIS ganhou as eleições em 2016 entre outras coisas graças à promoção incansável de uma tese (alucinatória) do atentado de Smolenski — o acidente aéreo na Rússia (2010) em que pereceram quase cem pessoas, na maioria altos funcionários do Estado, incluindo Lech Kaczynski, então presidente da Polónia e irmão gémeo de Jaroslaw, chefe do PIS, quando se dirigiam às sepulturas dos oficiais polacos presos por Estaline durante a invasão do país na aliança com Hitler (o pacto Ribbentrop-Molotov) e executados em 1940 (Katyn) — atentado supostamente organizado por Putin em conspiração com as elites apátridas liberais polacas — quando durante o debate sobre o sistema judicial um parlamentar opositor afirmou que Lech, como ministro da Justiça estaria contra as mudanças actuais, Jaroslaw gritou ( «Vende pátrias») e «Vocês mataram-no!» (sic) — o que pareceu certo e agradar a muita gente (Lech era um grande inimigo da Rússia e a Rússia sempre nos quis subjugar, portanto…). A longa marcha desse partido para o poder começou muito antes com o trabalho orgânico sobre a essência histórica e colectiva dos polacos.

Os historiadores e publicistas afins ao PIS durante anos têm disseminado a nova política histórica que seguia as coordenadas básicas do revisionismo e a narrativa do totalitarismo (M. Haynes, J, Wolfreys (ed.) História e Revolução. Contra o revisionismo Verso 2007, p. 15), mas levava as coisas ainda mais longe quanto à exaltação do sofrimento nacional.

Sem ela toda «a tese do atentado» teria sido o que é: um absurdo (Le Monde Diplomatique, ed. Polaca 3/16)

A pedra angular desta nova narrativa foi a idealização do Levantamento de Varsóvia (o acontecimento mais importante da história polaca) e a construção do seu faraónico museu, a única obra pública de L. Kaczynski como chefe do governo.

O facto de o Levantamento ter sido uma empresa controversa, destinada a fracassar e que no fim custou a vida a mais de 200 mil civis e acabou na destruição da cidade ficou sepultado sob as histórias do martírio.

Seguiu-se a reabilitação dos chamados soldados malditos — grupúsculos de partisans de extrema-direita anti-semita que não depuseram as armas em 1945 (quando do triunfo do Exército Vermelho — e a hegemonia do Instituto de Memória Nacional (IPN) encarregado de promover a «versão correcta da história» patriótica e anticomunista.

Assim a explicação do PIS da razão da mudança sobre os cortes — para descomunizar o sistema judicial 28 anos depois da queda do socialismo passando sob o controlo de um só partido? — é típica e situa-se tipicamente à margem da realidade.

Mas toda a história segundo o PIS é uma história à rebours.

Nela «os que lutaram pela libertação da Polónia (dos nazis) e pela sua reconstrução depois da guerra são condenados e os soldados malditos que matavam judeus (sobreviventes do Holocausto) camponeses e todos os que tentavam levantar o pais dos escombros enaltecidos (Le Monde… ibid).

No fim, segundo a nova versão da história partilhada grosso modo também pelos liberais — nos anos 1944-45 não houve qualquer libertação, um ocupante (os nazis) foi apenas substituído por outro, ainda maia nefasto (os soviéticos).

Portanto quando Trump discursou em Varsóvia parecia ler o manual histórico do PIS.

No ano de 1920 (quando a Polónia derrotou o Exercito Vermelho que queria conquistar a Europa [sic] e em 1939 (a dupla invasão do Terceiro Reich/URSS) Katyn, Holocausto, e logo o Levantamento de Varsóvia (1944) quando — claro — Estaline decidiu não ajudar e esperar apenas (no rio Vístula).

Os soviéticos tentaram destruir para sempre esta nação… Mas não o conseguiram! (aplausos).

Começou logo a perder-se na topografia da cidade tratando de descrever as lutas nas barricadas de Varsóvia (sic) mas os ouvintes — incluindo muitos veteranos — estavam encantados e só se ouviam os aplausos.

Quem apareceu dividido foram os publicistas conservadores norte americanos.
Para Anne Applebaum — que também só vê apenas o lastro da sovietização e «a mão de Putin» em (quase) tudo — invocar o Levantamento abandonado não apenas por Estaline mas também … por Churchill e Roosevelt (quando Trump invocava o artigo 5 do Carta Atlântica…) não era boa ideia, legitimava o representante do governo do PIS e fortalecia-o no seu discurso autoritário.
Mas Marc A. Thiessen — um ex escritor de discursos de G. W. Bush e filho de uma combatente de 1944 — aplaudiu-o entusiasticamente — corrige as injustiças passadas — e continuando o fio desenvolvido por Trump acabou por repintar o Solidariedade como «movimento patriótico, herdeiro directo da resistência antinazi, que logo se tornou anti-soviética, passou à clandestinidade e triunfou em 1989» ignorando por completo a sua genealogia real, a luta pelo direitos sindicais e — em princípio — pelo socialismo com rosto humano.

Esta manobra é um resumo perfeito dos principais objectivos revisionistas:
. igualar os dois «totalitarismos»
. reescrever o passado — sobretudo o século XX — de acordo com as linhas nacionais/particulares
. e apagar a experiência e a memória das lutas emancipadoras.


* Jornalista polaco.

Texto publicado em http://www.lahaine.org/trump-polonia-y-las-guerras

Tradução: Manuela Antunes

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos