10 maneiras de matar a Fatah

Uri Avnery*    04.Mar.09    Outros autores

Uri Avnery
O objectivo de Israel foi sempre claro: expulsar os palestinos da Palestina e edificar ali um único Estado, Israel. Neste texto, o jornalista israelense Uri Avnery explica como a intransigência belicista de Israel conduz cada vez mais a um beco sem saída.

979 dias se passaram desde que o soldado Gilad Shalit foi feito prisioneiro. Em qualquer um destes dias, teria sido possível libertá-lo pelo preço fixado pelo Hamas desde o início: 450 prisioneiros palestinianos «importantes», para além de centenas de outros, bem como todas as mulheres e menores.

Aos olhos do nosso governo, tudo se centra no regresso do soldado «sequestrado» em troca de «hediondos assassinos» que têm «sangue nas mãos».

Aos olhos do Hamas, trata-se de libertar um judeu «prisioneiro de guerra» em troca da libertação de centenas de «combatentes da resistência» que «levaram a efeito heróicos ataques, dentro do território do ocupante sionista.»

Muitos esperavam que Ehud Olmert resolvesse o assunto antes de deixar o Governo nas próximas semanas. Mas Olmert está com medo. Recentemente fez várias inversões de marcha. Num momento ele decide desta forma, logo a seguir de outra. Qual seria mais popular? Agir ou não agir?

Se ele realiza a troca de prisioneiros e o soldado regressa a casa, haverá uma explosão de pública alegria. Olmert será o herói do momento. Mas por quanto tempo? Dois dias? Três? Após isso, a reacção começará: Como ele pode libertar centenas de viciosos assassinos? Certamente eles irão realizar novos ataques, sangue judaico será derramado, as crianças serão assassinadas. Olmert será o canalha do ano.

Um líder da estatura toma uma decisão e aceita as consequências. Mas Olmert é um político, apenas um político. Ele nunca foi mais do que isso. Ele é cínico e amoral, astúcia, em vez de sabedoria. Ele ainda espera sair intacto dos seus numerosos casos de corrupção e, em seguida, após o fracasso de Binyamin Netanyahu e de Tzipi Livni, voltar ao poder. Então, talvez, pode ele calcular, o melhor é deixar todo o processo Shalit para o próximo primeiro-ministro.

Mas, por detrás das considerações pessoais esconde-se também um problema político. Como irá a troca de prisioneiros afectar o equilíbrio de poder entre a Fatah e Hamas?

A libertação de 1.200 prisioneiros palestinianos será entendida pelo povo palestiniano como uma enorme vitória para o Hamas. Para eles, irá demonstrar mais uma vez que os israelitas só compreendem a linguagem da força, como o Hamas tem consistentemente mantido.

Envergonhará Mahmoud Abbas, tanto mais se o Hamas conseguir a libertação do número dois da Fatah, Marwan Barghouti.

Olmert poderia, obviamente, evitar a humilhação de Abbas. Amanhã de manhã poderia libertar mil prisioneiros pertencentes ao Fatah, incluindo Barghouti, como um gesto para Abbas.

Isso retiraria a vitória ao Hamas.

Simples? Certamente. Inteligente? Com certeza. Possível? De maneira nenhuma. Não no nosso país. Nem por Olmert nem por os da sua laia. Dar algo a Abbas por nada? Absurdo. Fora de questão! Isto revela novamente a dividida atitude vis-à-vis com a OLP que tem atormentado a política israelita há já dezenas de anos. Uma incoerência que é política, mas também psicológica.

Há cerca de 40 anos atrás eu li um livro do psicólogo Eric Berne, «Games People Play».

Uma das teses do livro é que o ostensivo motivo para uma acção frequentemente contradiz o verdadeiro e inconsciente motivo. Por exemplo: um criminoso habitual define assaltar um banco, e é capturado e enviado para a prisão.

O óbvio motivo é claro: ele queria ficar rico de forma fácil. Mas o seu verdadeiro motivo é bem diferente: ele tem medo da vida fora da prisão. No seu inconsciente ele espera ser capturado, porque na prisão ele sente-se seguro. O seu lugar na hierarquia prisional está assegurado.

Sou levado muitas vezes a lembrar-me desta teoria quando penso sobre o curioso comportamento de sucessivos governos israelitas para com a OLP.

Em Setembro de 1993, após uma longa e sangrenta luta, Yitzhak Rabin assinou um acordo com Yasser Arafat e reconheceu a OLP como único representante do povo palestiniano. A continuação lógica teria sido Israel ajudar na criação de um Estado palestino ao lado de Israel e de fazer tudo para reforçar Arafat e a Autoridade Palestina, criada pelo acordo.

Mas, curiosamente, os sucessivos governos israelitas fizeram exactamente o oposto.

Começou logo com Rabin, no amanhecer do Acordo de Oslo.

Depois de decidir que o nosso interesse nacional exigia uma parceria com Arafat, teria sido lógico para ele reforçar a autoridade do Yasser Arafat na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e assinar um acordo de paz com ele, o mais rapidamente possível, mesmo antes do prazo fixado pelos Acordos de Oslo (1999).

Contrariamente à imagem demoníaca que Israel construiu para ele, Arafat foi o parceiro ideal. Ele era um líder forte e todos os sectores do povo palestino aceitavam completamente a sua autoridade - incluindo aqueles que o criticavam, mesmo incluindo o Hamas.

Ele tinha os dois atributos essenciais para fazer a paz: a vontade de a conseguir e a capacidade de convencer o seu próprio povo a aceitá-la.

Mas, curiosamente, o nosso governo moveu-se na direcção oposta. As negociações de paz, nem sequer começaram.

A colonização continuou ininterruptamente. Por toda a Cisjordânia, qualquer um podia ver o vermelho da telha dos telhados dos colonos a brotar.

A absolutamente indispensável passagem entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza não foi aberta - apesar do compromisso solene do governo de Israel para abrir quatro «passagens seguras».

Não só a situação económica dos palestinos não melhorou, mas pelo contrário, piorou sensivelmente.

Antes de Oslo, os palestinos podiam circular livremente em todo o país (incluindo Israel propriamente dito). Depois de Oslo, a liberdade de movimento foi sendo mais e mais restringida.

Tudo isto já estava acontecendo com Rabin, e tornou-se muito pior depois do seu assassinato.

A estúpida decisão do seu sucessor, Shimon Peres, de assassinar Yahya Ayyash, o produtor de bombas do Hamas, provocou uma série de atentados sangrentos por vingança e levantou o prestígio do Hamas - algo totalmente oposto aos interesses israelitas como apresentados pelos nossos dirigentes.

As coisas chegaram ao clímax na conferência de Camp David, em 2000.

Ehud Barak, o então primeiro-ministro, iniciou a conferência e, em seguida, ele próprio a afundou com uma mistura de arrogância e ignorância.

Nos dias seguintes, em vez de declarar que as negociações iriam continuar até que a paz fosse alcançada, ele espalhou o mantra «Não há ninguém para falar connosco! Nós não temos nenhum parceiro para a paz!»

Nisto, ele foi inspirado pela maldade de seu consultor (então e agora), Amos Gilad, que deturpou os relatórios dos serviços de informação do exército para satisfazer os seus propósitos destrutivos.

Barak não só destruiu a «esquerda sionista», mas também de um golpe esmagou a Fatah, o movimento que havia prometido aos palestinos a paz com Israel.

Não contente com isso, Barack permitiu que Ariel Sharon levasse a cabo a sua provocadora visita ao Monte do Templo, acompanhado por centenas de soldados e policiais.

Assim, ele provocou a eclosão da Segunda Intifada e preparou o terreno para Sharon chegar ao poder.

Quando Sharon foi eleito primeiro-ministro no início de 2001, ele estava determinado a destruir Arafat e a Fatah.

Bloqueou Arafat, na Mukataa de Ramallah e demoliu toda a infra-estrutura da Fatah por todos os territórios ocupados.

Quando Arafat foi assassinado (podemos adivinhar por quem) Mahmoud Abbas foi eleito para ocupar o seu lugar.

Contrariamente a Arafat, que tinha sido demonizado pela liderança israelita durante décadas, Abbas foi visto em Israel como uma pessoa simpática, que ama a paz, um parceiro absolutamente ideal para a paz.

Poderia ter sido esperado que a nossa liderança, avançaria agora energicamente para fortalecer o seu regime, através de um rápido avanço nas negociações de paz, a libertação massiva de prisioneiros e o congelamento dos colonatos.

Porém, olhai e vede: o oposto aconteceu. Sharon ridicularizou-o publicamente, chamando-lhe uma «galinha depenada», os colonatos foram ampliados e o Muro foi ampliado a um ritmo frenético.

Ainda mais gritante, Sharon evacuou os dispendiosos colonatos da Faixa de Gaza sem qualquer acordo com a Autoridade Palestiniana, deixando para trás um completo caos em que o Hamas prosperou.

As consequências não se fizeram esperar: nas eleições palestinas, estreitamente controladas por inspectores internacionais, o Hamas conquistou uma vitória que surpreendeu a todos, incluindo a própria liderança do Hamas.

Israel boicotou o novo governo do Hamas. A fim de minimizar os danos no seu partido, Abbas formou um governo de unidade Hamas-Fatah, mas Israel (seguido pela Europa e pelos E.U.A.) boicotou esse governo, também.

Esta situação beneficiou, evidentemente, o Hamas. O apoio palestino a Abbas é baseado principalmente na esperança de que ele poderá trazer a paz com Israel. Se ele é incapaz de fazer isso, quem precisa dele?

O Governo israelita - e os seus satélites, em Washington - não estavam contentes com isso.

Assim tentaram instalar Muhammad Dahlan, um homem considerado por muitos palestinos como um agente de Israel e dos E.U.A., como o homem-forte da Faixa de Gaza.

Para antecipar esse movimento, o Hamas assumiu o poder directo na Faixa, transformando-a na «Hamastan». Assim Abbas perdeu todo o poder sobre quase metade dos palestinos nos territórios ocupados.

Isto teria sido provavelmente impossível se Israel não tivesse cortado completamente a Faixa de Gaza da Cisjordânia, em violação dos acordos que tinha assinado.

Em Oslo, foi declarado que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza constituem uma entidade única, e que elas seriam ligadas por passagens seguras.

Na prática, não foi aberta uma única passagem, nem por um único dia. Aqueles que afirmam que Israel serviu de bandeja Gaza ao Hamas não exageram.

A continuação é bem conhecida: Israel impôs um bloqueio a Gaza, o Hamas lançou foguetes contra Israel, um cessar-fogo foi declarado, que o exército israelita violou no dia 4 de Novembro, entrando na Faixa de Gaza e matando vários militantes do Hamas, o Hamas lançou mais foguetes Qassam, Israel iniciou a Guerra de Gaza.

Dirigentes israelitas afirmaram publicamente que fizeram a guerra também para bem de Abbas, marcando-o aos olhos dos palestinos como um colaborador com o inimigo contra o seu próprio povo. O regime do Hamas em Gaza sobreviveu.

O resultado líquido: O Hamas foi extremamente reforçado e de acordo com todas as expectativas aumentará o seu poder nas próximas eleições. A maioria dos governos em todo o mundo compreende agora que devem iniciar um diálogo com o Hamas.

Muitas pessoas ao redor do mundo acreditam no mito anti-semita que os judeus são extremamente inteligentes, e que todas as nossas acções provam a nossa astúcia diabólica. Por isso, a ascensão do Hamas deve ser o resultado de uma astuta conspiração sionista.

A existência de Abbas (e de Arafat antes dele) impede os judeus de tomarem conta de todo o país, porque o mundo exige um compromisso com a «moderada» liderança palestiniana.

Mas o mundo aceita que não pode haver compromisso com o sanguinário Hamas e, portanto, os espertos judeus estão interessados numa vitória do Hamas.

Por outro lado, muitos israelitas acreditam que os nossos governos são compostos por políticos extremamente estúpidos que não sabem o que estão a fazer.

Estes israelitas acreditam que a série de acções que enfraqueceram a Fatah e que reforçaram o Hamas são apenas um mar de loucura, o resultado da estupidez de Israel.

Eu proponho um compromisso entre as duas percepções: a política israelita é realmente tola, mas há método nesta loucura.

Isto pode continuar apenas porque está de acordo com um profundo desejo, de que a maioria das pessoas não está consciente ou não quer admitir: deter a totalidade do Eretz Israel e de não permitir que um Estado palestino venha a existir.

Se quisermos mudar isto, temos de arrastar a inconsciente motivação até o nível de consciência: o que queremos? Paz ou mais território? Co-existência entre dois estados ou ocupação e guerra eterna?

É demasiado tarde para voltar para trás. O Hamas é agora uma parte da realidade. É do interesse de Israel que um governo de unidade palestino seja criado, um governo com quem possamos chegar a um acordo, que deverá ser mantido.

Se já tivemos um papel central na transformação do Hamas num poder central palestino, por maioria de razão, vamos falar com eles!

Desta forma, podemos também libertar Gilad Shalit numa troca de prisioneiros - antes do seu milésimo dia, em cativeiro.


* URI AVNERY, é membro do Gush Shalom [Grupo da Paz] de Israel.

Este texto foi publicado em Fórum Palestina, http://palestinapt.blogspot.com/

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