1914-2014*

Jorge Cadima    24.Dic.13    Outros autores

Jorge CadimaPassam em 2014 cem anos sobre o início de uma das grandes tragédias humanas, a I Guerra Mundial. Desencadeada pelas grandes potências europeias, custou milhões de vidas e deixou um colossal rasto de destruição. A memória dos povos deve manter bem viva essa tragédia, porque a classe dominante não só já a repetiu como permanece capaz de voltar a repeti-la.

Vai começar o centenário duma das grandes tragédias humanas: a I Guerra Mundial. Uma carnificina que destruiu muitos milhões de vidas. Não foi fruto de «novas ameaças», ciberterrorismo, alterações climáticas ou fundamentalismo islâmico. Nem foi culpa de comunistas, sindicalistas ou outros papões patronais. As potências que se digladiaram eram europeias, ocidentais, cristãs, de «raças eleitas» e governadas por «elites» por «direito divino». Classes dominantes disputaram pela guerra a dominação sobre os recursos, mares, continentes e povos do planeta. Incluindo sobre os seus próprios povos, que foram as maiores vítimas desse conflito. Cem anos volvidos, o grande capital parece querer repetir a História.

O paralelo com 1914 é sustentado por um porta-voz mor do sistema, Martin Wolf (Financial Times, 3.12.13). Com o título «A China não deve copiar os erros do Kaiser», afirma que «a questão colocada pela ascensão da China comunista hoje» é a mesma que «foi colocada com a chegada da Alemanha imperial a primeira potência económica e militar europeia no final do Século XIX». Não esclarece que a «questão» de 1914 era que o seu império britânico queria continuar a ser o único sobre o qual «o Sol nunca se punha». Diz Wolf sobre os dias de hoje: «o risco dum conflito ruinoso existe de novo». E acrescenta: «Peritos militares consideram que num conflito aberto a China perderia […]. Os EUA ainda controlam os mares. Se se chegasse a um conflito aberto, os EUA cortariam o comércio mundial com a China. Também sequestrariam grande parte dos bens da China no exterior. As consequências económicas seriam […] piores para a China do que para os EUA e os seus aliados». Das consequências humanas nem fala. A propaganda de guerra apresentará a China como ameaça perigosa. Mas há quase 14 anos já o General Loureiro dos Santos explicava no Diário de Notícias (13.3.00, com manchete «Guerra mundial é inevitável»): «não podemos esquecer que na base de tudo isto está a disputa dos recursos mundiais». Falava em potências emergentes, citando a China e Rússia, que «reúnam capacidade para se opor ou desafiar os Estados Unidos» acrescentando: «e os EUA precisarão de actuar. Isso não será para já, mas dentro de 15, 20 anos, é praticamente inevitável». E tenebrosamente: «a arma atómica continuará a ser uma arma muito importante […] mas para as grandes potências deixará de ser um obstáculo». O prazo do general aproxima-se. E a crise do capitalismo tornou tudo mais urgente.

As potências da União Europeia, com guerras frescas na Líbia e Síria e ocupações em África, estão por estes dias empenhadas em impor troikas aos ucranianos e atiçar o conflito com a Rússia. E discutem na Cimeira Europeia de hoje como dar um salto qualitativo na sua máquina de guerra, a fim de «concretizar as ambições europeias no cenário mundial». O relatório (15 Outubro) da Alta Representante para a guerra, a Sra. Ashton, prevê tudo: a UE deve estar pronta para se «comprometer nos 5 ambientes (terra, ar, mar, espaço e ciberespaço)», da África ao Ártico, e em «todo o globo». Deve ser capaz de efectuar «intervenções directas», «projectar poder» e usar drones. São precisas mais despesas militares estatais, com os subsídios do costume ao sector privado: «isenções de IVA», «protegendo-os […] de cortes orçamentais», com «PPP», encontrando «soluções de financiamento inovadoras que assegurem retorno dos investimentos» e mobilizando a investigação universitária. Não há dinheiro para os povos, mas para os lucros e a guerra não pode faltar. O complexo militar-industrial europeu está em marcha e já tem sigla: EDTIB. Mas como o próprio relatório reconhece, falta endoutrinar os povos «mesmo que os nossos cidadãos não vejam uma ameaça externa imediata à segurança». Só que a ameaça para os povos europeus (e não só) é a ameaça interna das suas pútridas, mas perigosas, classes dominantes.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2090, 19.12.2013

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