28 notas sobre a tragicomédia do ataque ao Capitólio

Nazanín Armanian    18.Ene.21    Outros autores

Os políticos de ambos os partidos que alternam no poder nos EUA mentem há anos aos seus próprios cidadãos e ao mundo inteiro: as guerras contra a Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia, Iémen, Síria, etc. são apenas parte de sua perigosa capacidade de falsificar a realidade e manipular a opinião pública. De modo que duvidar deles não é apenas saudável, é imprescindível. É o que sucede com o assalto ao Capitólio, cuja versão oficial mete água por todos os lados.

Nazanín Armanian
1- Tudo indica que o objectivo principal do assalto de 6 de Janeiro foi salvar o capitalismo das ameaças, tal como com o 11 de Setembro, com a diferença de que os atentados de 2001 o tentaram através do militarismo expansionista dos Estados Unidos invadindo outras nações, enquanto a “comoção” causada pelo 6Jan de 2021 tem como objectivo aterrorizar a própria classe trabalhadora dos EUA. O “viking” com boné chifrudo, a imagem da matilha fascista, é Jake Angeli, um declarado anticomunista, cujo disfarce pretendia tirar o peso da perigosíssima situação que se gera nos seio da superpotência.
2- A versão oficial do ocorrido não é sustentável em nenhum aspecto: De repente, uns vândalos brancos armados de pistola ou taco de beisebol, instigados pelo próprio presidente dos Estados Unidos, agiram como “insurgentes” invadindo a sede “da democracia” , na tentativa de realizar um “golpe” contra o próximo presidente Joe Biden.
O diabo nos detalhes
3- Porém, não foi uma acção espontânea. Segundo o Wall Street Jornal, desde há um mês que as redes sociais dos grupos que profanaram a sede do Congresso divulgavam os seus planos para este dia específico, já que a lei federal estabelece que os deputados devem reunir-se no dia 6 de Janeiro às 13h e, dirigidos pelo vice-presidente do país, abrir os certificados lacrados dos votos de cada estado. Como é que bandos fascistas podem usar as plataformas de informação livremente, mas Julian Assange é perseguido? Por que, então, as forças de segurança não activaram os protocolos de emergência ou o alarme para actos terroristas? Na manhã do mesmo dia, os assaltantes realizaram uma marcha sob o lema “Salvemos a América” para em seguida se dirigirem ao Capitólio. Uma vez dentro do edifício, a polícia quase lhes deu as boas vindas com sorriso e fotos incluídas.
4- Foi uma acção coordenada, entre altos funcionários do Estado, incluindo políticos, militares, serviços de inteligência e os grandes meios de comunicação. O polícia aposentado do Capitólio Theortis Jones acredita que “lhes foi permitido fazer o que fizeram”; a congressista democrata Zoe Lofgren afirma que a Polícia do Capitólio lhe mentiu ao afirmar que tinha avisado a Guarda Nacional: “Não tinha comunicado com ela”, enfatiza, e uma vez que foi chamada, denuncia o governador republicano Lawrence Hogan, o Pentágono (cujo chefe Mark Esper, de modo suspeito, foi despedido semanas antes) rejeitou o pedido para enviar tropas ao Capitólio. O Washington Post informa que dias antes, o Pentágono havia emitido ordens de desarmamento da Guarda Nacional.
5- Não foi uma tentativa de golpe de Estado. Todos sabemos como são os golpes organizados pelos norte-americanos: a prisão dos líderes das formações democráticas (partidos, sindicatos, organizações feministas e estudantis, etc.), o envio de rufias e militares armados para as ruas protegidos por franco-atiradores, tanques e helicópteros; a tomada dos aeroportos, dos meios de comunicação, etc., e destruir a resistência armada dos atacados. Por seu lado, os dirigentes oficiais do país, em tais situações, convocam uma reunião de emergência com os responsáveis militares fiéis, os serviços de inteligência, etc. traçando um plano, e emitem um comunicado dirigido à nação para a informar do ocorrido, convidando-a a neutralizar o golpe com a sua mobilização. Nada disso aconteceu na função “teatral” do Capitólio! A última ‘obra’ dos mestres na realização de golpes de Estado foi na Turquia em Julho de 2016, quando tentaram assassinar o presidente Erdogan, bombardeando o seu hotel e, ao não o conseguir, disparar sobre o embaixador da Rússia em Ancara. Houve centenas de mortos e dezenas de milhares de detidos.
6- Durante o assalto, não foram vistos os líderes do Partido Democrata, Joe Biden, Nancy Pelosi, Barak Obama ou os Clinton. Nenhum convocou a população a resistir e apoiar o presidente eleito.
7- Três dias antes, os dez ex-Secretários de Defesa vivos assinaram uma declaração apoiando os resultados eleitorais e alertaram sobre a interferência dos militares na política. Tinham alguma informação sobre um golpe militar? Deram-na ao presidente eleito? É possível que o Partido Democrata, que vai retomar o poder, não tenha serviço de cibersegurança próprio?
8- Ninguém da Comunidade de Inteligência, uma federação de 16 agências governamentais dedicada à segurança nacional, contactou os democratas para os avisar do plano dos assaltantes?
9- Será possível que os serviços de segurança do Capitólio não tivessem visto as imagens da marcha de uns 2.000 indivíduos indignados em direcção à sede do órgão máximo da soberania popular? E que aconteceu às centenas de câmaras que foram colocadas nas ruas ao redor deste complexo, após o 11 de Setembro?
10- Uma vez saídos os ocupantes, o “Estado” não ordenou a prisão do chefe dos “sublevados”, supostamente Donald Trump, ou de uma vintena dos seus cúmplices republicanos no Congresso. Biden recomendou ao presidente golpista que “fizesse a coisa certa” e se demarcasse dos agressores: Uau! Por que não ocorreu a Salvador Allende dar o mesmo conselho fraterno a Augusto Pinochet?
11- Horas depois, aparece um Joe Biden para amenizar o ocorrido: pede “unidade” dos seus “colegas republicanos” e encoraja os mesmos que, com a sua narrativa sobre “a fraude eleitoral” tenham incutido em milhões de pessoas que o seu futuro governo é ilegítimo, a serem uma oposição “forte e baseada em princípios”. É assim que a horda, formada por grupos fascistas e mafiosos como os Boogaloo, “Q-Anon” ou Ku Klux Klan, não se vê a si mesma como “golpistas”, mas sim como salvadores da democracia do país.
A versão alternativa dos factos
12- Os políticos de ambos os partidos, a fim de salvar os interesses das empresas de armamentos ou do petróleo, por exemplo, há anos que mentem aos seus próprios cidadãos e ao mundo inteiro: as guerras contra a Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia , Iémen, Síria, etc. são apenas parte de sua perigosa capacidade de falsificar a realidade e manipular a opinião pública e conseguir que os norte-americanos enviem os seus filhos para o matadouro em países distantes, para manter a “estabilidade” do poder nos Estados Unidos e enriquecer os seus gestores. Portanto, duvidar da versão oficial não é apenas saudável, é imprescindível. Esta é a mesma “democracia” que contratou os cientistas militares nazistas, e sob o código da “Operação Paperclip” os transferiu para os Estados Unidos, ou a que testou armas bacteriológicas em 80.000 cidadãos em San Francisco.
13- Uma acção de tal envergadura, devido ao envolvimento dos responsáveis por todas as esferas de poder nos EUA, não poderia ser realizada sem a cumplicidade dos próprios líderes democratas. A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, recusou-se a pedir uma investigação sobre os envolvidos na conspiração. “Uma minoria do Partido Republicano deveria ter vergonha de si mesma”, como se tivesse sido roubado um donut de um supermercado, enquanto dezenas de milhares de americanos passaram anos na prisão por minúcias, como Richard DeLisi, de 71 anos, que passou os últimos 31 anos encarcerado por um delito de tráfico de marijuana. Trump será a Cabeça de Turco. O principal motivo para demonizar este personagem tem sido sua oposição às guerras contínuas e intermináveis: a NATO não quis um Trump II.
14- “O meu principal objectivo é unificar este país”, promete Biden, para que os banqueiros e os desalojados bebam à sua saúde. Já sabemos que quando um presidente fala em “unidade”, se refere aos oprimidos, que são os que agitam o silêncio de cemitério que o poder procura; que deixem de reivindicar liberdade, justiça social e igualdade. Por puro acaso, o capital financeiro do Wall Street Jornal pediu aos republicanos que apoiassem Biden, e os generais, a Câmara de Comércio, a Associação Nacional de Fabricantes (NAM), que representa milhares de grandes corporações, exigiram um impeachment contra Trump.
15- Em 8 de Outubro, um b fascista tentou sequestrar e assassinar a governadora de Michigan, a democrata Gretchen Whitmer. Seria um teste para sondar as reacções? Qual era a conexão entre os sequestradores e o poder? Os assaltantes do Capitólio levavam algemas para imobilizar os deputados
16- Os partidos Republicano e Democrata e seus dirigentes milionários não representam a maioria de uma nação que se dessangra pela profunda e ampla crise económica, política e social e agora também de saúde, mas sim a elite dirigente. Os seus deputados e presidentes são indicados pelas grandes corporações e lobbies que investem nas suas campanhas eleitorais, convertendo-os em reféns dos seus infames interesses: “quem paga manda”: por isso Trump visitou Israel e Arábia Saudita antes de qualquer outro lugar e não o distrito de Colúmbia do próprio Washington DC, por exemplo, que alberga a maior taxa de sem abrigo de todo o país.
E quais eram os objectivos da “comoção”?
17- Renovar a aliança bipartidária para esmagar as mobilizações dos oprimidos que ameaçam o sistema. Há um vulcão de tensões acumuladas no subsolo dos Estados Unidos cuja eclosão nem Biden nem Deus serão capazes de conter. No último ano, milhões de cidadãos perderam os seus empregos. Se antes da COVID19 12% dos lares já viviam na pobreza, agora, além disso, 30 milhões de pessoas podem perder as suas casas hipotecadas.
18- Apresentar Joe Biden como uma vítima “progressista” de organizações fascistas, e consolidar a sua débil posição dentro do PD, cuja ala esquerda vê como com ele começou já a trair as suas promessas. Pois é, trata-se do “sistema”, não dos seus representantes: Recordam-se de quando Obama criticou a polícia que prendeu o professor da Universidade de Harvard Henry Gates por entrar n sua própria casa? Teve que pedir desculpa e convidá-la para um chá na Casa Branca - com Joe Biden presente. Durante os assassínios de cidadãos africanos do ano passado, Biden recusou-se a abordar a brutalidade policial nos seus discursos.
19- Estabelecer uma série de “reajustamentos” para limitar os direitos dos cidadãos, o que em tempos “normais” não pode ser feito. Que Twitter ou Facebook fechem as contas de nada menos que o presidente do país, Donald Trump, por causa das “declarações violentas”, é um sinal do que aconteceria com os líderes dos movimentos operário, feminista ou Black LivesMatter. Convocar uma greve operária é um acto “violento”?
20- Aterrorizar a população para que se conformem com o “mal já conhecido”. A “sociedade do medo” sacrificará voluntariamente as liberdades vitais por outro bem supremo: a segurança. Os meios de comunicação falam de uma possível guerra civil e o general Michael Flynn recomenda a suspensão da Constituição e a proclamação da lei marcial. Nesta linha apocalíptica, alguns fóruns políticos estão até a considerar a dissolução dos EUA em um processo que poderá ser ainda mais rápido do que o da União Soviética.
21- A crise multidimensional dos EUA é tão ampla e profunda que poderá lançar novas guerras contra outras nações para a exportar. Três dos seus onze porta-aviões nucleares estão no Golfo Pérsico, enquanto Trump enviou vários bombardeiros B-52 para a base de Diego Garcia no Oceano Índico, enquanto Mike Pompeo acaba de apontar o Irão como “a nova base de Al. Qaeda”. Mas ¿não era no Pentágono que estava o comando desta organização?

Um panorama inquietante
22- Talvez nunca venhamos a saber o que realmente aconteceu. Chama a atenção o suicídio de um dos oficiais do Capitólio, Howard Liebengood, com 15 anos de serviço, dias depois. Tanto “suicídios” como “acidentes” fazem parte dos métodos habituais de calar a boca dos que sabem demais: o “suicídio” do pedófilo Jeffrey Epstein, amigo dos Trump e dos Clinton, ou a morte em “acidente” de helicóptero de 22 soldados da elite SEAL que (não) assassinaram Bin Laden, são apenas alguns exemplos.
23- Os “sublevados” representam a base do fascismo: o lumpemproletariado, parte da classe operária, membros da classe média arruinada e uma burguesia assustada que só precisam de um líder populista para se emocionarem com a promessa do regresso do paraíso perdido: o chamado “sonho americano”.
24- O fascismo norte-americano organiza-se em marcha forçada: Em 20 de Janeiro de 2019, em Richmond, Virgínia, teve de ser declarado estado de emergência devido à manifestação de cerca de 10.000 fascistas armados, a maior da história dos Estados Unidos. Em 2017, os suprematistas brancos realizaram uma marcha armada em Charlottesville. Estas forças têm os seus representantes no Congresso: Marjorie Taylor Greene, ou Lauren Boebert - que pede para circular armado no Capitólio - são os seus rostos públicos.
25- Isso está apenas a começar. Em Dezembro, o assessor de Trump, Stephen Miller, advertiu que o 20 de Janeiro é o “prazo limite” para tomar medidas para proteger a presidência de Trump. Miller também não foi investigado. Os assaltantes, que consideram a sua acção um sucesso histórico, já têm uma data, “a Epifania dos EUA”, uma mártir, a ex-militar Ashley Babbitt, e marchas armadas estão a ser preparadas por todo o país.
26- A administração Biden-Harris, além de enfrentar uma brutal crise sanitária, o aumento do desemprego e da pobreza, terá também que gerir o avanço da extrema-direita, que por um lado usará as injustiças sociais para engrossar as suas fileiras e por outro vai atacar as vítimas dessas mesmas injustiças para espalhar a violência.
27- A classe dominante já não pode governar como antes, todavia a ausência de vanguarda - partidos e sindicatos progressistas poderosos - impede o seu colapso e uma nova ordem, deixando espaço à pior face do capitalismo. Os EUA precisam de um terceiro partido que represente grandes sectores da sociedade.
28- O fascismo já é governo em muitos estados do planeta, e é impossível derrotá-lo sem estratégias internacionalistas.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6939/28-notas-sobre-la-tragicomedia-del-asalto-al-capitolio/

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