39 anos depois (e II)*

Manuel Loff    11.May.13    Outros autores

Manuel LoffNum país em que os governos levam a cabo uma política económica contra as pessoas (numa escalada que com o actual governo atinge uma agressividade demencial), com um sistema político atolado, com uma geração de governantes de formação inenarrável e inépcia inexcedível, há uma mudança em construção. Não no Portugal que Passos julga que se sacrifica para ele brilhar na Europa, mas no Portugal resistente que o não suporta mais, que sai à rua, que canta a Grândola contra a mentira e contra o assalto ao trabalho e aos seus frutos, num país que pede um novo 25 de Abril justamente porque se lembra do que ele significou.

Um país de gente, outra vez, em fuga.

Há 39anos, o país em que Adriano Correia de Oliveira cantava Rosalía de Castro para denunciar que “este parte, aquele parte, e todos e todos se vão”, empurrava
150-200 mil pessoas por ano para fora do seu território. Hoje volta a acontecer a mesma coisa. Treze anos de guerra colonial e uma opressão que não dava chance alguma à livre expressão das expectativas sociais, culturais e políticas, e 1.4 milhões de portugueses emigraram, 60% dos quais fugindo a salto, ilegalmente, para recomeçar a vida numa bidonville francesa, sem sequer poder regressar se se tivera fugido a anos de tropa em África. Até isso era preferível a ficar num país cuja economia e salários cresciam mas que encalhara na ditadura e na guerra.
Uma política económica contra as pessoas.
Hoje, apesar da liberdade e dos direitos políticos, o país voltou a encalhar, desta vez sob a ditadura económica de um capitalismo voraz, com uma arrogância
ideológica a que nem os patrões de há 39 anos, sob a protecção de Salazar, do Estado e das polícias, se atreviam. Nunca o português comum se viu tão estratosfericamente longe dos centros de decisão da economia. Há 70 anos. Salazar dizia que, em Portugal, “a Nação é acessível a todos [mas] o Estado
a muito poucos”; hoje, Gaspar repete à saciedade que ‛‘não há alternativa” à austeridade dele, Passos que é forçoso “o cumprimento cabal das nossas obrigações”; por outras palavras: o sofrimento social ê acessível a todos, mas as decisões de política económica a muito poucos.
Não foi assim durante vários destes 39 anos que passaram desde o 25 de Abril.
Entre a socialização de muita propriedade e as nacionalizações, as comissões de trabalhadores e as negociações colectivas, os portugueses dispuseram de muitos instrumentos de decisão sobre a sua política económica. Perderam-nos desde que todo o processo foi revertido, ainda antes do euro, com Cavaco, prosseguido com Guterres (o recordista das privatizações) e com as personagens de circo que se lhe seguiram. Hoje, os Governos bem podem dizer à banca que invista na economia, que de nada lhes serve; a banca fará (e fez) o que lhe apetecer, com o beneplácito dos independentíssimos
bancos centrais, sempre e quando os Governos assegurem a sobrevivência deles, literalmente à nossa custa.

Este é um país de gente desprezada.

O contrato social assinado nos anos seguintes à Revolução foi unilateralmente rompido há anos. Ele fora aceite, de alguma forma, tanto pelos que não haviam conseguido um socialismo à portuguesa como por aqueles que, tendo aceite descolonização e democracia política, queriam apenas uma pequena dose social na economia. Milhões de portugueses começaram a trabalhar na adolescência, salários de pouco – hoje recebem pensões de ainda menos e um Gaspar qualquer vem-lhes dizer que nem esse pouco eles merecem. São provavelmente estes os mais desiludidos da democracia.

Um sistema político atolado.

Dos três grandes partidos que, apenas formalmente, fundaram o regime democrático constitucional, o PS e o PSD, que já estavam do mesmo lado em 1975-76, dirigiram todos os Governos (salvo os de iniciativa eanista, 1978-79, o que é o mesmo). O sistema político português bloqueou num novo rotativismo em que cada novo Governo é menos diferente do anterior. O CDS, que votou contra a Constituição, governou nove anos com o PSD, ou até com o PS, que, apesar de quase sempre minoritário, nunca negociou alianças à sua esquerda. Aí, contudo, concentraram-se 15-25% dos votos ao longo destes 38 anos. O PCP, a força de fundo no combate à ditadura, participou apenas nos dois anos de Governos provisórios. Nenhum dos novos partidos que irromperam no Parlamento ­ o PRD (1985-91) e o BE (desde 1999), herdeiro das esquerdas revolucionárias que tiveram força nos anos 70 - foi sequer cooptado para o Governo. No total dos eleitores (os 60% que votam e os 40% que não votam), os dois partidos dominantes têm cada vez menos apoio: 59% em I975, 38% em 2011 - quase o mesmo (37%) que aquando da última grande crise (1985). O actual Governo foi votado por menos de 30% dos portugueses, o mesmo que Sócrates quando dispõe de maioria; e comporta(ra)m­se como se tivessem conseguido mandatos inequívocos. Desde há dez anos que uma geração de políticos de formação inenarrável e inépcia inexcedível tomou conta do aparelho de Estado, tornando-se presa ainda mais fácil de grandes patrões sem escrúpulos e de gestores ou académicos com duas palas liberalonas na cabeça. Com incrível lata, disfarçam de reformismo inadiável a devastação que têm provocado numa democracia construída com tanto esforço, tanta Iuta, tanto combate desigual.

Um país resistente.

É neste pais que as pessoas perceberam que alguma coisa tem de mudar! É no país resistente que se está a construir a mudança - não no Portugal que Passos julga que se sacrifica para ele brilhar na Europa, mas naquele que o não suporta mais, que sai à rua, que canta a Grândola contra a mentira e contra o assalto ao trabalho e aos seus frutos, num país que pede um novo 25 de Abril justamente porque se lembra do que ele significou: a coragem contra o medo, o arrancar da liberdade contra a opressão, o fim de uma guerra que também então se dizia não ter alternativa, a voz contra a mordaça!

*Este artigo foi publicado no “Público” de 09.05.2013

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