738 000 000 000

Gustavo Carneiro    07.Ene.20    Outros autores

O ano de 2020 inicia-se com um novo crime perpetrado pelos EUA. Um assassínio que pode conduzir a nova escalada de guerra no Médio Oriente, e mais além. Os criminosos dos EUA/NATO não têm essa preocupação. Têm a preocupação oposta: quanto mais guerra melhores os negócios do complexo militar-industrial. Se for à custa de mais umas centenas de milhares de mortos, serão danos colaterais sem importância nos lucros.

Os números não conseguem explicar, por si só, a realidade social (e até a natural) em toda a sua complexidade e para que constituam instrumentos relevantes de análise, há que estudá-los na sua evolução, compará-los com outros dados, avaliar os seus impactos. Façamos isso, então, a um número particularmente expressivo: 738.000.000.000 (setecentos e trinta e oito mil milhões), o valor, em dólares, que a administração norte-americana prevê gastar, em 2020, com o seu aparelho militar. Para se ter noção cabal da dimensão deste número absolutamente gigantesco será importante saber, por exemplo, que o Produto Interno Bruto português se situa em valores pouco acima dos 200 mil milhões de dólares, o que faz com que o Pentágono consuma anualmente uma riqueza superior à produzida por três portugais e meio. Ou que o PIB de países como a Suécia, a Áustria ou a África do Sul não chega sequer perto daquele valor. Outra comparação particularmente reveladora é a que opõe aquela verba com os menos de seis mil milhões de dólares gastos pela UNICEF na protecção de crianças em todo o mundo, disponibilizando vacinas, água potável, alimentos e apoio educativo. Percebida que está a grandeza do número em causa, centremo-nos no restrito campo das despesas militares: estes 738 mil milhões orçamentados para 2020 correspondem ao mais elevado orçamento militar da História, suplantando em 22 mil milhões o recorde no ano anterior, também pertencente aos Estados Unidos – que são, e de muito longe, o país que mais gasta em armamento e nos incontáveis milhares de efectivos e largas centenas de instalações militares que tem espalhadas um pouco por todo o mundo. Em 2018, os gastos militares norte-americanos representavam nada menos do que 36 por cento do total mundial, sendo necessário somar as despesas dos oito países seguintes – China, Arábia Saudita, Índia, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e Japão (por esta ordem) – para os equivaler. Os adversários estratégicos definidos pelos EUA, a República Popular da China e a Federação Russa, não chegavam juntas a metade desse valor. Mas há mais números (e nomes) por detrás destes: as cinco empresas que lideram as vendas de armamento, que desde 2002 cresceram 47 por cento, são também norte-americanas – Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e General Dynamics –, e embolsaram só em 2018 qualquer coisa como 148 mil milhões. Os números até podem não abarcar toda a realidade. Mas alguns, como este, são particularmente reveladores do mundo em que vivemos e que, também devido a eles, lutamos por transformar.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2404, 3.01.2020

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