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Congresso do PS - a consagração do Chefe

José Paulo Gascão :: 16.03.09

Congresso do PSO último Congresso foi “transformado num arremedo de Convenção partidária norte-americana: um espectáculo televisivo sem conteúdo, que superou, em pompa e meios, os antigos Festivais da Canção ou os actuais Globos de Ouro. A publicidade substituiu a discussão, os publicitários tomaram o lugar dos militantes, reduzidos a figurantes do espectáculo de glorificação de Sócrates, o Chefe, il Condottieri.”

Em Setembro de 2008, quando já era evidente há mais de um ano uma nova e global crise do sistema capitalista, ainda o governo e o PS desmentiam que ela tivesse consequências de maior em Portugal e continuavam, irresponsavelmente, a sua cruzada de diminuição do deficit público.

O Primeiro-Ministro negava os devastadores efeitos da crise em Portugal («é esperada apenas uma ligeira turbulência»), o ministro das Finanças mostrava fingida surpresa com as proporções que a crise atingia, afirmando ter estado convencido que esta situação de incerteza se pudesse desvanecer mais rapidamente), o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social via aprovado, na generalidade e exclusivamente com votos do Grupo Parlamentar do PS, o novo Código do Trabalho, um grave retrocesso das leis laborais.

Em 15 de Outubro de 2008, dando mostras da mesma irresponsabilidade, o governo entregava na Assembleia da República a proposta de Orçamento de Estado (OE) para 2009, um claro exercício de manipulação das previsões macro económicas e de falta de rigor.

Em 28 de Novembro de 2008, ignorando a crise que já varria o país, o governo do PS recusa mudar as previsões macro económicas e, com os votos exclusivos do Grupo Parlamentar do PS, foi aprovado o OE para 2009. Numa demonstração explícita da manipulação feita com o OE para 2009, elucidativa da irresponsabilidade do governo PS de José Sócrates, em 5 de Fevereiro, é apresentada na Assembleia da República uma nova proposta de OE para 2009, corrigindo algumas das manipulações feitas no documento apenas há dois meses aprovado!

A rábula de esquerda

É neste quadro de irresponsabilidade, em que o governo de José Sócrates vai administrando a conta-gotas as informações sobre a dimensão avassaladora da crise, que o Congresso do PS reúne de 27 de Fevereiro a 1 de Março, um momento em que as notícias do encerramento de empresas, com o consequente aumento acelerado do desemprego («aniquilação forçada de uma massa das forças produtivas»), se sucedem já em catadupa.

No cumprimento de um primeiro objectivo, o Congresso é transformado num arremedo de Convenção partidária norte-americana: um espectáculo televisivo sem conteúdo, que superou, em pompa e meios, os antigos Festivais da Canção ou os actuais Globos de Ouro. A publicidade substituiu a discussão, os publicitários tomaram o lugar dos militantes, reduzidos a figurantes do espectáculo de glorificação de Sócrates, o Chefe, il Condottieri.

O segundo objectivo é lançar a campanha eleitoral com o pedido de maioria absoluta, sem a qual não haveria estabilidade. A instabilidade reinante na escola pública, nas empresas perante o espectro do desemprego, nos lares de centenas de milhares de desempregados e numa juventude sem acesso ao trabalho e muito menos a trabalho estável é ostensivamente ignorada. A crise profunda que se desenvolve ainda em ritmo crescentemente acelerado é olimpicamente ignorada no Congresso, numa esclarecedora demonstração dos interesses de classe a que o PS está acorrentado.

Com Sócrates, o PS substituiu a discussão de ideias pelo recurso a uma publicidade de excelência executada por exímios profissionais, ombreando, ou mesmo superando, o que de melhor se faz em Portugal. Não é já apenas a música dos Vangelis do tempo de Guterres, é o recurso sistemático a uma publicidade de qualidade ímpar em Portugal, onde o produto a vender é José Sócrates, o incontestável e incontestado líder do PS. Apesar da crise, ali não falta dinheiro…

Da incomodidade inicial das cócegas de Manuel Alegre após as eleições presidenciais, o PS passou a uma tolerante paciência de quem sabe que «dali não vem mal ao mundo». Por isso, a multiplicação de entrevistas e pedidos de declarações por parte da comunicação social a Manuel Alegre é incompreensível, se não a virmos como a tentativa de esbater a imagem de arrogante que o país tem de Sócrates e evidenciar a mensagem de um José Sócrates tolerante, um novo produto a vender em tempo de crise e ano de eleições.

Manuel Alegre é o mesmo político populista, incoerente e inconsequente, de que Mário Soares se utilizou para os ataques à Revolução de Abril, participante no processo de fusão ideológica do PS com a direita e da transformação do regime numa ditadura parlamentar da grande burguesia com fachada democrática. Os seus votos desenquadrados do Grupo Parlamentar nunca puseram em causa a passagem dos documentos votados.

O PS e o grande capital

Ao longo do processo de fusão ideológica com a direita sempre o PS mostrou uma clara aptidão para as boas relações com o grande capital financeiro. É Mário Soares Primeiro-Ministro quando se verifica o regresso ao país e à banca nacionalizada (BPA) de Jardim Gonçalves, mais tarde fundador do BCP, de que foi presidente com alguns dos sucessos que se vão conhecendo.

Com José Sócrates e a conversão incondicional do Partido ao neoliberalismo, o PS adquiriu o estatuto do Partido da confiança do grande capital, a ponto de Ricardo Salgado mostrar a sua «grande admiração por aquilo que o governo tem feito», não deixando passar a oportunidade de dizer que «acredita[o] que vai ser preciso mais» garantias do Estado que os 20.000 milhões já disponibilizados.

Também a Igreja Católica, dando jus à sua larguíssima experiência de enriquecer à custa da ajuda aos necessitados, reuniu em Fátima, nos últimos dias de Janeiro e com a presença do Presidente da República, o Congresso Nacional das IPSS tendo os congressistas aprovado um texto onde «reclamam(os) mais apoios financeiros dos Estado. Não basta falar. Estamos num momento em que temos de agir». Mais claro não pode ser.

***

Se é verdade que a actual crise se desenvolve num período de regressão da consciência de classe e dos direitos sociais conquistados ao longo de decénios, num momento em que o desenvolvimento técnico e científico permitiria satisfazer as necessidades da população mundial, também é verdade que ela pode constituir um momento de fulminante consciencialização das suas causas sistémicas, da impossibilidade de conciliação de interesses entre explorados e exploradores, e de aprofundamento da consciência de classe e política e do carácter irreformável do capitalismo.

As crises não são apenas uma «janela de oportunidade» para o grande capital concentrar e centralizar mais capital nas suas mãos, elas também originam uma crescente disponibilidade para a luta contra a opressão e a exploração.

Lisboa, 9 de Março de 2009


Este texto foi publicado no Jornal do Fundão nº 3.265 de 12 de Março de 2009


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