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Ajustamento depressivo global (radicalização da crise)

Jorge Beinstein* :: 23.03.09

Jorge Beinstein
“Os principais indicadores económicos e sociais indicam-nos que a crise acelera e que o aumento de ritmo aponta para um grande salto qualitativo, um afundamento catastrófico da economia norte-americana que, seguramente, arrastará o conjunto do sistema global. (…) É toda a história do capitalismo (os seus grandes paradigmas científicos e tecnológicos, o seu estilo de consumo, os seus sistemas produtivos, a sua cultura imperial) que agora começa a navegar à deriva.”

No princípio de 2007 foi Alan Greenspan (então já tinha abandonado a presidência da Reserva Federal) quem deu o alerta da chegada próxima da recessão nos Estados Unidos, e a profecia cumpriu-se no final desse ano. Agora foi Gordon Brown, primeiro-ministro de Inglaterra, quem perante a Câmara dos Comuns no começo de 2009, em plena recessão, anunciou a chegada da depressão global. Como era de esperar a palavra maldita foi rapidamente e oficialmente desmentida que a atribuiu a uma gaffe (1), uma expressão involuntária de Brown, mas o tema ficou assente e tinha sido precedido por um certo número de comentários e artigos de especialistas, que coincidiam nessa afirmação. Quase ao mesmo tempo, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, qualificou a crise como «a pior desde há um século» e, na sua conferência de imprensa de 9 de Fevereiro, Barak Obama coincidiu com essas visões «catastrofistas» (realistas).

2009 surge como o-ano-de-todos-os-perigos, mas é muito difícil prognosticar o ritmo da crise em curso, sobretudo porque não tem precedentes na história do capitalismo: o seu carácter sistémico, a sua pluralidade (económica, energética, militar, institucional, tecnológica, ambiental, ideológica) e as interrelações entre as suas diversas componentes conferem-lhe um comportamento errático (mas não totalmente) imprevisível.

De qualquer modo, um conjunto de indicadores estão a assinalar-nos que o ajustamento recessivo global que se foi desenvolvendo durante 2008 está agora entrando numa nova etapa, caracterizada por grandes quedas de produção e aumentos do desemprego nos países centrais e na maior parte da periferia. Trata-se da instalação de ajustamento depressivo global em progressão perante a impotência dos governos dos países ricos que constatam como a chuva de milhões de milhões de dólares, euros, etc., lançada sobre os seus mercados não conseguem travar a avalanche.

Tal como no começo da etapa anterior, o motor da crise encontra-se nos Estados Unidos onde, durante o último trimestre de 2008 e começos de 2009, apareceram dados alarmantes anunciando a iminente chegada da depressão.

No quarto trimestre de 2008 o Produto Interno Bruto médio caiu a uma taxa anual de 3,8% (se descontarmos a acumulação de inventários a queda supera os 5%), a produção industrial baixou 11%, o consumo de bens duradouros 22%, os bens não duradouros 7% e as exportações 22%; as informações disponíveis do primeiro mês de 2009 (consumo, desemprego, cotizações bolsistas, alguns sectores decisivos como o automóvel, etc.) indicam que a tendência recessiva se aprofunda. Às quedas na produção e no consumo junta-se o rápido aumento da poupança pessoal, impulsionado pelo medo do desemprego e a perda de proventos, o que reduzirá ainda mais o consumo, o que por sua vez empurrará para baixo a produção industrial. Ao longo de 2008 iniciou-se o clássico círculo vicioso recessivo onde o consumo, a produção e o investimento interactuarão negativamente: a recessão provoca mais e mais recessão. Deu-se um rápido empobrecimento da maioria da população, nalguns casos trata-se de perdas de riquezas ilusórias como o foi o aumento da bolha das acções e valores imobiliários que impulsionaram o consumo dos seus beneficiários, e noutros de perdas reais de empregos, salários e casas.

Duas informações podem ser úteis para avaliar a magnitude do desastre, a primeira é a contracção da riqueza provocada pelo colapso financeiro. A chamada riqueza líquida da população norte-americana (valor das propriedades, acções, etc., subtraídas as dívidas) no princípio de 2009 em cerca de 14 milhões de milhões de dólares, em comparação com o valor médio de 2007, número equivalente ao Produto Interno Bruto dos Estados Unidos (2).

A segunda informação ilustra-nos sobre o impacto social da crise, o desemprego «oficial», isto é o registado como tal pelo governo, cresceu gradualmente ao longo de 2007 e acelerou desde meados de 2008; em Outubro era mais de 10 milhões de pessoas e em Dezembro superava já os 11 milhões (7,2% da população economicamente activa). No entanto essa cifra subestima o problema porque aos 11,1 milhões de desempregados oficiais de Dezembro de 2008 (3,6 Milhões mais do que em Dezembro de 2007) é necessário acrescentar os desempregados de «longa duração» (com 27 ou mais semanas sem emprego), sector que aumentou em 1,3 milhões de pessoas durante 2008 e, por outro lado, os trabalhadores precários chegavam aos 8 milhões (eram 4 milhões e 600 mil um ano antes). Somando desempregados oficiais, crónicos e trabalhadores precários chega-se, em Dezembro de 2008, a quase 22 milhões de pessoas, enquanto um ano antes eram 13 milhões e quinhentos mil. Trata-se de um salto no escuro de mais de 8 milhões de pessoas.

Insolvência e aceleramento da crise

Os principais indicadores económicos e sociais indicam-nos que a crise acelera e que o aumento de ritmo aponta para um grande salto qualitativo, um afundamento catastrófico da economia norte-americana que, seguramente, arrastará o conjunto do sistema global.

O Produto Interno Bruto real, que cresceu a uma taxa anual de 3,3% no segundo trimestre de 2008, teve uma taxa negativa no terceiro (-0,5%) e caiu em força no quarto trimestre (-3,8%).

A produção industrial acelerou a sua descida ao longo de todo o ano passado, o índice médio do segundo trimestre caiu 0,9% em relação ao primeiro, o do terceiro baixou 2,3% em relação ao segundo e o do quarto trimestre desceu 3% (4).

O consumo pessoal, que se tinha mantido estacionário em termos reais durante os primeiros meses de 2008, iniciou uma persistente descida no segundo semestre que tende a acentuar-se no começo de 2009 (5).

Ao longo de 2007 e até Abril de 2008, a massa de desempregados oficiais apresentava uma curva descendente suave, mas em Maio deu um salto da ordem dos 11%, e a partir daí o crescimento do desemprego acelerou: nos cinco trimestres que medeiam entre Janeiro de 2007 e Março de 2008, a taxa trimestral média de incremento do volume de desempregados nunca superou os 1,5%, mas no terceiro trimestre de 2008 subiu para 3,5% e no quarto para os 5%. Em Dezembro de 2008 foram mais 630 mil novos desempregados (net), e em Janeiro de 2008 repetiu-se aproximadamente a mesma cifra (6).

O índice de preços das casas desce a uma velocidade crescente desde meados de 2008, 10% de queda em 2008.

Nos 12 meses que vão de Outubro de 2007 a meados de Setembro de 2008 a capitalização bolsista norte-americana caiu cerca de 4 milhões de milhões de dólares, e nos quatro meses seguintes teve uma descida idêntica; a baixa mensal média passou de 333 mil milhões de dólares no primeiro período a um milhar de milhão no segundo (quase 7% do PIB por mês) (8). Finalmente, a taxa de poupança em relação ao Rendimento Nacional que se tinha mantido à volta de zero nos últimos anos passou de 1,2% no terceiro trimestre de 2008 a 2,9% no quarto trimestre e é consensual entre as previsões conhecidas situá-la à volta de 5% antes do fim do ano, acentuando assim a retracção do consumo (9).

Se a tendência para a aceleração da queda económica não pode ser travada, tudo parece indicar que em 2009 se dará a Grande Depressão, muito maior que a dos anos 1930.

Desde que se deu o colapso financeiro de meados de Setembro do ano passado, o governo (Bush e depois Obama) trataram de suavizar a queda através de subsídios milionários, primeiro aos bancos e depois a indústrias chaves como a automóvel e finalmente aos consumidores. No entanto, apesar destas injecções de fundos aumentarem perigosamente a dívida e o deficit público não atingiram o objectivo, e isso porque por trás da crise de liquidez e de falta de crédito, se encontra o fenómeno de sobreendividamento público e sobretudo privado, o que colocou numerosas empresas e uma enorme massa de consumidores na situação de insolvência ou próximo dela. E isso não se recupera injectando dinheiro no mercado, pois com essas intervenções dão-se alguns alívios passageiros que evitam uma ou outra falência, postergam um pouco a depressão, mas não impedem a sua chegada. Por sua vez, a insolvência e o sobreendividamento são a consequência de uma prolongada produtiva associada à subida do parasitismo financeiro com cerca de quatro décadas de duração, é o sistema no seu conjunto que entra em crise.

Armadilha global

Tal como no período recessivo (2008) não existe nenhuma possibilidade de desajustamento, também a articulação comercial, produtiva e financeira da economia mundial provoca uma gigantesca armadilha a que ninguém pode escapar. Há que dar tempo (prolongamento da crise) à gestação dos factores de desarticulação, de fractura capazes de quebrar a unidade do sistema, e para que isso ocorra deverá dar-se uma quebra duradoura do comércio e da trama monetária internacional (fica em aberto a reflexão sobre as possibilidades de sobrevivência do capitalismo como cultura universal, se isso chegar a acontecer).

Por agora o afundamento é geral, a maior parte dos países europeus estão a passar da recessão à depressão e o Japão segue pelo mesmo caminho. A China passa para uma forte baixa da taxa de crescimento do PIB, algumas previsões situam-na à volta dos 6% para 2009 com consequências económicas e sociais equivalentes às de uma recessão, e o Brasil e a Rússia já se juntaram ao emagrecimento global, A Organização Internacional do Trabalho acaba de prever um cenário para 2009 de mais cinquenta milhões de desempregados (10).

Depressão psicológica

A depressão económica vem precedida por uma onda de depressão psicológica que, depois de alguns tímidos primeiros passos no meio da recessão em 2008, se expande actualmente a toda a velocidade entre as elites dominantes do mundo: o pessimismo está-se assenhorando do universo cultural do capitalismo, as suas ilusões de dominação do mundo vão-se dissolvendo no oceano da crise. Esse clima foi bem expresso no seu momento inicial por Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Internacionais do Estados Unidos, quando num artigo publicado em Maio de 2008 assinalava o fim da hegemonia global norte-americana e o nascimento de um mundo crescentemente despolarizado (11), ou seja, o princípio do fim da plurissecular e complexa construção colonial do Ocidente. Em meados de Dezembro, James Rickards, figura chave do aparelho de inteligência norte-americano, apresentou um relatório auspiciado pela U.S. Navy, pejado de previsões terríficas: desde o derrube do dólar e dos títulos públicos norte-americanos, até reduções do Produto Interno Bruto da ordem dos 30% nos próximos cinco anos e taxas de desemprego semelhantes às de 1930 (12). Finalmente, o último encontro de Davos, noutros tempos uma reunião sideral da cimeira da globalização neoliberal, esteve dominado pelas constatações de impotência perante uma crise avassaladora, empresários transnacionais e dirigentes das grandes potências choraram sobre os restos de um mundo que chegaram a acreditar ser eterno.

Esta união mundial do pessimismo ideológico com a depressão económica que poderá ser vista, numa primeira aproximação ao tema, como o princípio do fim do post guerra-fria, período de duas décadas marcado pela dominação global dos Estados Unidos, auge sem precedentes da especulação financeira e de uma integração transnacional muito avançada dos sistemas produtivos, também poderá ser descrito como era neoliberal coveira do keynesianismo, do estatismo burguês desenvovimentista. No entanto, essas seriam interpretações muito limitadas, carentes de uma visão histórica mais ampla, já que o chamado neoliberalismo não foi mais do que o discurso triunfalista da degeneração financeira, parasitária do capitalismo keynesiano. Nos Estados Unidos, o Estado militarista e interventor nunca se retirou de cena e nas outras grandes potências a intervenção voluntarista esteve sempre presente, ainda que ao serviço de um capitalismo globalizado e financeirizado, cuja dinâmica terminou por desengonçar, corromper profundamente os sistemas institucionais em que se apoiava. É toda a história do capitalismo (os seus grandes paradigmas científicos e tecnológicos, o seu estilo de consumo, os seus sistemas produtivos, a sua cultura imperial) o que agora começa a navegar à deriva.

Notas
(1), Philip Webster, “Comment: Brown on depression - a gaffe and that’s official”, Times Online, February 4, 2009.
(2), Federal Reserve Statistical Release, Flow of Funds Account in United States y estimativas própria.
(3), U.S. Bureau of Labor Statistics, “The employment situation: December 2008”.
(4), Federal Reserva Statistical Release, Industrial Production and Capacity Utilization.
(5), Bureau of Economic Analysis, National Economic Accounts, Real Personal Consumption Expenditures.
(6), U.S. Bureau of Labor Statistics-
(7), House Price Index, OFHEO, U.S. Office of Federal Housing Entreprise Oversight.
(8), World Federation of Exchanges.
(9), Personal Saving Rate, U.S. Bureau of Economic Analysis, National Economic Accounts.
(10), “Global jobs losses could hit 51 m”, BBC News, 2009-01-28.
(11), Richard Haass, “The Age of Nonpolarity. What Will Follow U.S. Dominance”, Foreign Affairs, May/June 2008.
(12), Eamon Javers, “Four really, really bad scenarios”, Politico.com, 17 de Dizembro de 2008.

Este texto foi publicado em www.sinpermiso.info

Tradução de José Paulo Gascão


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