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Rebelião e genocidio na Guatemala**

Pablo Ceto* :: 29.11.06

“As sementes do projecto revolucionário guatemalteco encontraram um terreno fértil no descontentamento, na mobilização popular e na resistência indígena. Isto explica que, apesar da derrota do movimento insurreccional revolucionário da década anterior, nos anos setenta do século passado este ressurja, recupere a iniciativa, estenda-se e tenha importantes níveis de generalização da guerra de guerrilhas em muitas regiões do país”

O tema que hoje nos reúne aqui, rebelião e genocídio, de alguma forma uma das características mais importantes da história da Guatemala depois do começo da invasão espanhola em 1524. É uma história repleta de motins, levantamentos e rebeliões indígenas contra a escravidão, o despojo, a repressão, o extermínio e o genocídio.

Depois do confronto militar desigual durante a invasão que se seguiu a 1524, um dos períodos de maior sublevação indígena contra a escravidão, a opressão cultural e a imposição da religião católica, foi o que antecedeu a chamada independência de 1821. Numerosas sublevações indígenas se sucederam ao longo dessa época encabeçadas por dirigentes mayas como Manuel Tot, capturado, selvaticamente torturado e assassinado pelo regime colonial cerca de 1815. Entre os mais conhecidos levantamentos está o encabeçado por Atanásio Azul e Lucas Aguilar em Totonicapán em 1820. Toda esta histórica batalha contra o despojo e a escravidão, foi aproveitada pelos filhos crioulos dos invasores convertidos em ricaços latifundiários para encher os bolsos com os impostos e a riqueza que antes enviavam à metrópole espanhola.

Neste mesmo século, o governo liberal de 1871 acentuou a apropriação das terras comunitárias para as converter em grandes herdades de café, pôs o Estado ao serviço da cultura e exploração do café e arreigou a mentalidade de desprezo racista para com os povos indígenas, estimulando políticas de destruição da cultura indígena, como a conversão do indígena em ladino [N. do T.: grupo ambíguo, formado pelos que não são índios, negros ou chineses, desde entram brancos a reclamarem origem aristocrática espanhola, até índios sem terra que renunciaram à sua cultura] por decreto. Isto explica a visão racista de alguns intelectuais do princípio do século passado, que sustentavam a necessidade de “trazer sangue azul da Europa”, para melhorar geneticamente a Guatemala.

No começo do século passado, o processo de crescente exploração, trabalho forçado dos sectores populares e camponeses empobrecidos e, a ditadura ubiquista dos anos 30, levou importantes sectores urbanos, profissionais, estudantis, democráticos e um importante grupo de oficiais progressistas do exército a um levantamento para derrubar o Governo de Ubico e iniciar a revolução democrática de 1944, abrindo de novo a possibilidade de mudança da situação colonial.

Dez anos depois, em 1954, a intervenção norte-americana interrompeu as transformações estruturais em curso e fechou a qualquer possibilidade política de procurar encontrar uma solução para os problemas nacionais. A sistemática e cruel perseguição do Estado guatemalteco encarniçou-se contra as comunidades camponesas e indígenas, professores e líderes camponeses revolucionários.

Esta situação levou as comunidades indígenas a regressar ao aprofundamento do caminho da resistência maya acumulada e forjada em cada momento da exploração opressão colonial. Assim, quando tiveram que aceitar a cruz católica aceitaram-na mas guardaram a espiritualidade maia. Quando tiveram que aguentar as derramas e as rendas vitalícias preservaram a vida e a esperança. Quando se impuseram as mordomias espanholas sob a forma de confrarias, as comunidades maias praticaram-nas e converteram-nas numa estrutura que guardou durante muito tempo a tradição, o pensamento e a sabedoria ancestral maia. Quando roubaram as terras comunais para as converter em herdades de café, as comunidades maias arrancaram das montanhas sagradas a sua vida e futuro. E quando tiveram que se levantar frente à opressão e dominação colonial, fizeram-no centenas de vezes, em muitos casos com resultados como o do fuzilamento dos 7 principais Ixhiles de Nejab em 1936, aos quais sempre se sobrepôs a decisão de continuar a procurar de novo o caminho de um novo alvorecer para as novas gerações.

Sobre este substrato da resistência maya, arreigada e amadurecida desde 1524, nos anos seguintes à invasão americana de 1954 foi-se alinhavando um movimento social e democrático, constituído fundamentalmente por estudantes, professores, sindicalistas, organizações camponesas e sectores progressistas do exército que procurou retomar o caminho da revolução democrática. Em 1960, com o propósito e objectivo bem definido de derrubar o governo de Idígoras Fuentes através de um levantamento de jovens oficiais do exército, iniciou-se um processo de luta armada na Guatemala que, com o seu desenvolvimento, foi dando lugar a um projecto revolucionário de transformação estrutural, a partir da formação de um projecto político essencialmente marxista-leninista.

A luta revolucionária da década de 60 foi desarticulada pela repressão governamental em meados dessa mesma década, por isso não alcançou as metas que se propôs nem concluiu o processo iniciado, mas espalhou as sementes da revolução guatemalteca nas comunidades rurais sob o terreno fértil da resistência maya. Aquelas penetraram no coração das lutas camponesas indígenas contra a exploração e o trabalho forçado nas herdades, e mostraram uma alternativa de mudança face aos sectores sociais e populares, as ligas camponesas, a acção católica, as cooperativas e outras formas de organização social, às quais o Estado lhes havia fechado as portas, sob orientação do exército.

Evidentemente, as sementes do projecto revolucionário guatemalteco encontraram um terreno fértil no descontentamento, na mobilização popular e na resistência indígena. Isto explica que, apesar da derrota do movimento insurreccional revolucionário da década anterior, nos anos setenta do século passado este ressurja, recupere a iniciativa, estende-se e tem importantes níveis de generalização da guerra de guerrilhas em muitas regiões do país.

As organizações revolucionárias guerrilheiras, por seu lado, apetrecharam-se com a sua estratégia de guerra popular revolucionária, os seus planos estratégicos, melhores métodos de trabalho com a sua componente de massas, com uma formação político-militar em que cultivaram a capacidade do ser humano antes da capacidade das armas, uma mística revolucionária profunda que lhes permitiu conquistar a confiança e a participação de importantes sectores da população guatemalteca e, particularmente, uma incorporação massiva de comunidades mayas em diferentes regiões do país.

Aprofundando a análise da participação massiva dos povos indígenas no processo revolucionário, em extensas regiões do país, principalmente nos Departamentos das Verapaces, El Petén, El Quiche, Huehuetenango, San Marcos, Quetzaltenango, Sololá, Chimaltenango, a área central e a franja da orla marítima encontramos diferentes razões que a explicam, tais como: o objectivo comum de mudar radicalmente o sistema colonial explorador e racista; a mensagem e a actividade revolucionárias que, além de estarem nos centros urbanos chegou às montanhas do noroeste e às herdades de agro-exportação na costa sul; os conceitos universais do materialismo histórico e a filosofia dialéctica encontram-se, complementaram-se e enriqueceram-se mutuamente com o pensamento e a cosmovisão maya, baseada no respeito pela mãe natureza. A arte da guerra aplicada à guerra de guerrilhas e o caudal de experiências de resistência dos povos indígenas, uma profunda mística revolucionária com o espírito de resistência dos povos indígenas, e o sonho do novo amanhecer indígena, mais do que um exercício de teoria e prática, deu-se nos próprios idiomas mayas nas diversas frentes guerrilheiras.

Neste contexto revolucionário, as comunidades Popti, Chuj, Ixhil, K’iche’e, Q’eqch’i, Mam entre outras, registam na sua memória histórica a decisão das suas autoridades tradicionais, os Mamines em San Miguel Acatán, os Mama’ e B’aalvatztiixh na região Ixil, de se incorporarem de forma colectiva e comunitária no projecto revolucionário que, como continuação da sua resistência maya há séculos atrás, foi uma decisão histórica dos conselhos comunitários mayas.

Com a massiva participação indígena, em distintas regiões do país a luta revolucionária guerrilheira inseriu-se nas mil formas da resistência indígena, desta vez nas suas próprias montanhas, barrancos e bosques, libertando frente ao inimigo comum, o exército e a sua política de repressão e genocídio, a maior criatividade de índios e ladinos revolucionários, homens e mulheres, para levar o movimento guerrilheiro aos seus momentos mais intensos e de maior fortaleza desde finais dos anos 70.

Entretanto, no plano da mobilização social, as consequências do terramoto de 4 de Fevereiro de 1976 e a solidariedade que geraram em amplos sectores médios, aumentaram a consciência popular que se fortaleceu com a marcha dos mineiros de Ixtahuacán – Huetenango e dos trabalhadores de Ingenio Pantaleón e outros na Costa sul em 1917, o surgimento do Comité de Unidade Camponesa – CUC – em 1978, o fortalecimento do Comité Nacional de Unidade Sindical – CNUS – e a constituição da Frente Democrática contra a Repressão, até chegar à histórica tomada da Embaixada de Espanha pelos camponeses do norte de Quiché em 31 de Janeiro de 1980 e à greve nas herdades da costa sul, que subiu o salário mínimo para mais do dobro por jornada de trabalho em Fevereiro desse mesmo ano.

Para a mentalidade conservadora colonial e racista, as mobilizações nas estradas e as greves nas herdades de agro-expotação espalharam o terror no opressor, o medo do crioulo e do ladino colonial. O levantamento dos índios era como ver as pedras e as rochas a levantarem-se e caírem-nos em cima, mais palavra menos palavra foi a expressão dos fazendeiros da costa sul.

Além desta reacção instintiva do sector latifundiário predominante, naturalmente também monopolizou o interesse das diversas associações empresariais do país, da banca e do comércio com o fim de proteger a riqueza de que se apropriaram os seus progenitores desde 1524, 1821 e depois de 1871. Havia que salvar o capital acumulado a partir da usurpação das terras dos povos indígenas, do trabalho forçado dos índios nas fazendas de café, cana de açúcar e algodão e da apropriação dos recursos do país através do controlo do aparelho de Estado. Sendo herdeiros do poder colonial eda sua mentalidade racista não iam permitir uma revolução com clara participação dos povos indígenas ou o levantamento indígena dentro do processo revolucionário.

Dado o contexto internacional, particularmente na América Central, também estavam aterrorizados pelo triunfo da revolução sandinista em 1979 e o avanço da FMLN em S. Salvador.

A principal e única reacção que tiveram os grupos poderosos foi a repressão pelo exército, ao serviço dos latifundiários e de uma burguesia capitalista incipiente, dependente, com uma mentalidade muito conservadora, crioula e racista.

O exército tinha de cumprir o seu papel: matar índios, velhos, mulheres e crianças, além de destruir o essencial, os pólos de desenvolvimento em vastas regiões mayas, claramente seleccionadas pelos altos comandos militares. O exército é também responsável pelo incêndio de casas e colheitas, violações de mulheres, assassinatos de crianças e velhos, aldeias arrasadas e actos de genocídio nos combates contra as colunas guerrilheiras revolucionárias. De acordo com o relatório Memória do Silêncio da Comissão para o Esclarecimento Histórico das violações dos direitos humanos durante o conflito armado interno, mais de 80% das vítimas dos massacres pertenciam a comunidades do Povo Maya, consequência da política de genocídio, terra arrasada e de morte executada pelo exército da Guatemala. [1]

Este é o último holocausto que sofreram os povos indígenas e os sectores populares da Guatemala, mas não conseguiu matar o sonho indígena do novo amanhecer, nem evitar que as comunidades mayas reencontrem as pegadas da sua resistência e o seu espírito de resistência que, para além da sua civilização milenar, herdaram dos antigos mayas.

Por isso, renascendo das próprias cinzas do genocídio e da terra arrasada executadas pelo exército da Guatemala, os órfãos, as viúvas e as comunidades indígenas mayas, desafiando a morte e o sangue, retomaram o caminho da heróica resistência em importantes regiões do país, permitindo que as sementes da revolução guatemalteca se preservem e brotem nos momentos mais difíceis da repressão governamental, sendo as Comunidades de População em Resistência uma das suas expressões mais organizadas. Sobre esta base cresceu a emergente mobilização social e popular. Neste contexto, o Comando Geral da URNG (União Nacional Revolucionária Guatemalteca) abriu o caminho para o diálogo e a negociação que culminou com a assinatura dos Acordos de Paz 29 de Dezembro de 1996.

A guerra interna da Guatemala possibilitou o amadurecimento da consciência mais dos seus combatentes, indígenas e ladinos, das comunidades indígenas que participaram activamente no impulso do projecto revolucionário guatemalteco, das comunidades indígenas e camponesas que se viram obrigadas a abandonar a mãe terra e refugiar-se em diferentes países da régio, do continente, dos sectores sociais, populares, estudantis e democráticos que conheceram o processo e sofreram a perseguição, a repressão e as politicas contra-insurreccionais. Hoje a sociedade guatemalteca fala de pluriculturalidade, começa a pensar na construção da unidade nacional e da nova nação, ainda que a mentalidade colonial e a cultura de discriminação racista estejam muito arreigadas.

No entanto, as feridas do genocídio, a terra arrasada e o terror militar que o exército implantou não foram superadas, a Guatemala ficou ferida de morte, os seus filhos e filhas cresceram na desinformação, no terror gerado pelo genocídio, na ignorância do seu milenar passado maya e do seu passado revolucionário. As elites empresariais, por seu lado, fragmentaram-se, perderam o controlo da administração do estado e, nos últimos anos, voltaram a fortalecer o papel do exército sem que este possa combater os grupos do poder paralelo, se é que alguma vez pensou fazê-lo.

No caso das comunidades indígenas o seu horizonte imediato é a reconstrução do tecido social roto pelo genocídio e pela terra arrasada cometidos pelo exército. Hoje, em diferentes regiões do país continua a crescer o número de organizações, comités, associações, entidades de todo o tipo de povos indígenas. Hoje, diferentemente do passado, a espiritualidade maya ajudou a retomar os eixos filosóficos da resistência, a força da vontade dos povos indígenas de não se dobrarem face aos momentos mais difíceis, por mais cruéis que sejam, como o foram, os massacres e o genocídio dos tempos da invasão de 1524 ou nos anos 66 e 67 no oriente do país ou nos anos 80, 81,82 e 83 do século passado no planalto noroeste da Guatemala.

Em numerosas comunidades de várias regiões principalmente mayas, a base da cosmovisão maya e a da coesão social própria da sua vida comunitária começaram a dar importantes passos para a reconciliação; cada vez mais há paramilitares civis que confessam haver sido obrigados pelo exército da Guatemala a violar os direitos humanos e há um esforço comunitário para refazer a harmonia, o respeito, a convivência, uma concepção e uma prática muito distante da política governamental, tanto do governo passado como do actual. Os governos pagaram primeiro aos paramilitares a destruição e as violações dos direitos humanos cometidas a mando do exército, mas no fundo, encobrindo os coadjuvantes, também ambos os governos, tratam de aproveitar os fundos do programa nacional de ressarcimento que as organizações das vítimas definiram.

Visto dos tempos da experiência maya, neste processo de rearticulação das forças nas novas condições impostas pela globalização neoliberal, a sociedade guatemalteca, para lá da vitalidade das suas organizações sociais, tem nos Povos Indígenas um recurso inesgotável de sede de libertação com uma vasta experiência útil de resistência para que a transição política que abriram os Acordos de Paz avance na construção da democracia plena, na reforma do estado, num modelo económico-social de desenvolvimento alternativo e na unidade nacional, base para o exercício da cultura, da identidade e direitos dos povos indígenas.

Antigua, Guatemala, 23 – 27 de octubre 2006

Nota:
[1] Segundo os casos registados pela CEH, do total de vítimas identificadas, 85,3% eram mayas, 14,6% ladinas e outros 0,1%.

Tradução de José Paulo Gascão

* Maya Ixhil, militante do EGP durante o conflito armado, membro do Comité Executivo Nacional da URNG.

** Exposição feita no X Congreso Centroamericano y I Congreso Nacional de Sociología


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