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A solidariedade com o Povo da Colômbia
é uma exigência da História

Miguel Urbano Rodrigues :: 10.10.09


No Rio de Janeiro realizou-se um Seminário Internacional sobre a América Latina, integrado nos trabalhos do XIV Congresso do Partido Comunista Brasileiro. A comunicação de Miguel Urbano Rodrigues, que publicamos, sobre a necessidade da solidariedade com o povo da Colômbia e a luta das FARC foi apresentada no dia 9 de Outubro.

Comunicação apresentada por Miguel Urbano Rodrigues no Seminário Internacional sobre a América Latina promovido pelo XIV Congresso do Partido Comunista Brasileiro – Rio de Janeiro, Outubro de 2009

A decisão do governo Obama de instalar na Colômbia sete bases militares dos Estados Unidos insere-se na estratégia de dominação mundial da nova Administração norte-americana.

O discurso de matizes humanistas do actual Presidente e uma campanha de propaganda massacrante contribuíram para que milhões de pessoas acreditassem que a política imperial de George Bush seria substituída por uma política de paz.

Tal convicção é desmentida pela realidade.

Ao declarar que a primeira prioridade da sua política exterior é vencer a guerra no Afeganistão, Obama abriu a porta a uma escalada de violência na Ásia Central. Por si só, a nomeação do general Stanley Mc Chrystal – um criminoso de guerra – para comandante operacional na Região é esclarecedora das opções do Presidente dos EUA num conflito que traz à memória do povo norte- americano os fantasmas e traumas do Vietname.

Na América Latina as iniciativas que confirmam a volta a uma política “musculada” são também inquietantes.

O golpe nas Honduras foi concebido e montado em reuniões realizadas na Embaixada dos EUA em Tegucigalpa. A presença, agora permanente, da IV Frota da USNavy em águas sul-americanas traduz igualmente o objectivo de impor por meios militares a vontade de Washington em países que recusem submeter-se ao poder imperial.

Nessa estratégia, a Colômbia de Álvaro Uribe desempenha um papel fulcral.

O acordo já firmado permite a instalação de sete bases norte-americanas: Três da Força Aérea, em Palanquero, Malambo e Apiay; duas da USArmy em Tolemaida e Larandia; e duas da USNavy em Cartagena e Bahia Málaga.

A Colômbia, como sublinhou o Partido do Pólo Democrático, foi convertida por este acordo «numa plataforma para a consolidação e a expansão bélica desta politica que afecta não só a estabilidade dos governos democráticos e progressistas como os projectos de integração latino-americana e do Caribe».

Obama não inovou, deu continuidade a um projecto ambicioso cuja execução foi iniciada por Clinton e Bush. A Venezuela bolivariana é o alvo principal. Cercam hoje a Venezuela bases militares dos EUA localizadas em seis países da Região: El Salvador, Honduras, Costa Rica, Panamá, Peru e Paraguai. A elas se somam as de Aruba e Curaçao no Caribe holandês, as de Porto Rico e a de Guantanamo, em Cuba. Na Colômbia já existem há muito três bases dos EUA, a de Arauca, a de Larandia e de Três Esquinas.

Foi para denunciar a ameaça representada pela instalação das novas bases norte-americanas que se realizou em Bariloche, na Argentina, uma reunião extraordinária da União das Nações Sul Americanas – UNASUL. O objectivo não foi, porém, atingido. A Declaração Final, inócua, nem sequer menciona expressamente a Colômbia e os EUA. A reunião foi sabotada por Lula que chegou a ser grosseiro ao dirigir-se a Chavez e a Rafael Correa e se absteve de criticar Uribe.

É oportuno recordar que durante a Administração Clinton o Pentágono elaborou um plano de intervenção militar directa na Colômbia. O pretexto invocado seria o combate ao narcotráfico, mas o objectivo era a aniquilação das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-FARC e do Exército de Libertação Nacional-ELN. Na operação, sugerida pelo general McCaffrey, participariam duas divisões aerotransportadas e três divisões de Marines, envolvendo 120.000 homens. A intervenção contra as FARC seria desencadeada inicialmente por tropas da Colômbia e de outros países latino-americanas, nomeadamente do Peru e do Equador.

A ofensiva terrestre e aérea estava prevista para o ano 2000, mas o projecto foi arquivado porque o governo Clinton chegou à conclusão de que esbarraria com a oposição do Congresso.

A estória minuciosa do plano Caffrey foi, aliás, evocada com minúcias num artigo do professor brasileiro Moniz Bandeira, publicado em Setembro passado em webs de informação alternativa.

Durante a campanha eleitoral e após a sua eleição, Barack Obama comprometeu-se a desenvolver na relação com a América Latina uma política diferente daquela que sucessivos presidentes dos EUA aplicaram, tratando as nações do Sul do Hemisfério como «o pátio das traseiras».

Mas a promessa está a ser desmentida. É difícil avaliar até que ponto o Presidente actua sob a pressão das poderosas engrenagens do establishment. Mas os factos confirmam que Washington, alarmada com a grande vaga de contestação ao imperialismo e as politicas neoliberais que varre a América Latina – e que encontra a sua expressão mais desafiadora na Venezuela, no Equador e na Bolívia – decidiu retomar uma estratégia musculada. Em vez do anunciado diálogo entre iguais, as iniciativas do grande vizinho do Norte deixam entrever ameaças militares.

AS DUAS COLÔMBIAS

Não há na América Latina outro país onde a violência seja como na Colômbia um fenómeno endémico tão enraizado. Desde o Bogotazo, em 1948, foram ali assassinadas mais de 300.000 pessoas. Não é de estranhar que a imagem do país no mundo seja péssima. Para isso contribuem decisivamente campanhas de desinformação que falsificam a História, transformando as vítimas em criminosos e os criminosos em cidadãos merecedores de respeito.

Em Washington o regime colombiano é apresentado como democracia exemplar. Significativamente, o Departamento de Estado no seu último relatório anual sobre a situação dos Direitos Humanos inclui a Colômbia na lista dos países onde eles são respeitados.

A Administração Obama mente conscientemente. A senhora Clinton sabe que a fachada democrática institucional da Colômbia oculta um regime liberticida e que o actual Presidente, Álvaro Uribe Vélez, pratica uma política neonazi.

Quando director da Aeronáutica no Departamento de Antioquia, Uribe manteve relações com os carteis da droga. Virgínia Vallejo, num livro de memórias, conta que Pablo Escobar, seu amante, lhe contou que sem a ajuda de Uribe não teria podido fazer sair do país toneladas de cocaína. O nome do actual Presidente figura aliás na lista de aliados do narcotráfico em arquivos da CIA hoje desclassificados.

Anos depois, como governador de Antioquia, Uribe desempenhou um papel importante na criação e financiamento do paramilitarismo. Posteriormente foram sempre íntimas as suas relações com as chamadas Autodefesas da Colômbia – AUC, a organização criminosa paramilitar incumbida pelo Exército de praticar os crimes mais repugnantes. É do domínio público que milhares de paramilitares amnistiados foram nomeados para cargos públicos. Uma percentagem considerável faz parte do corpo de espiões – avaliado num milhão – que recebe um pequeno salário para transmitir informações sobre a insurgencia.

No governo de Uribe, os escândalos – alguns envolvendo membros da sua família, ministros e generais da sua máxima confiança – tornaram-se rotineiros. O Presidente desenvolveu um estilo imperial. Para se reeleger, fez aprovar uma emenda à Constituição depois de ter comprado a maioria do Congresso. Agora repete a manobra e prepara uma segunda reeleição através de um referendo montado ad hoc.

Não exagerou o comandante Manuel Marulanda, fundador das FARC, quando o definiu como fascista mascarado de democrata.

A politica dita de «Segurança Nacional» de Uribe traduz-se numa estratégia de opressão e violência, que configura a prática de crimes de genocídio.

A SAGA DAS FARC

O governo Bush conseguiu, após o 11 de Setembro, que a ONU e a União Europeia incluíssem as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-Exército do Povo na lista das organizações terroristas. Mas, para desacreditar as FARC, Washington e Bogotá foram mais longe.

Uma campanha milionária foi desencadeada a nível mundial com dois objectivos.
1. Apresentar as FARC como uma guerrilha intimamente ligada ao narcotráfico e que somente sobrevivia por manter intimas ligações com os carteis da droga.
2. Difundir das FARC a imagem de uma organização criminosa, incompatível com os princípios e valores da democracia, que assassina os camponeses, faz dos sequestros um pilar da sua estratégia e tortura os prisioneiros.

Essas calúnias contribuíram para que milhões de pessoas em dezenas de países, sobretudo nos meios intelectuais, tenham hoje sobre as FARC opiniões muito negativas, o que dificulta extraordinariamente a solidariedade com a luta dos combatentes do saudoso Manuel Marulanda.

É útil recordar que a designação de narcoguerrilha foi forjada numa reunião com militares do Pentágono por Louis Stamb, ex-embaixador dos EUA na Colômbia, um diplomata que mantinha estreitas relações com a CIA.

Dispusessem as FARC dos milhões que lhe são atribuídos e certamente teriam há muito adquirido mísseis para se defender dos ataques da Força Aérea de Uribe e dos aviões que espiam os seus acampamentos na selva. E até hoje não possui armas desse tipo, como Washington aliás reconhece.

É oportuno recordar que os oficiais e soldados capturados em combate pelas FARC são apresentados pelo governo de Bogotá como «sequestrados» e os guerrilheiros presos como «terroristas».

Significativamente, nunca que eu saiba, os grandes midia da burguesia informaram que as FARC elaboraram um projecto-piloto que previa em poucos anos a erradicação da coca mediante a substituição de culturas no município de Cartagena del Chairá, responsável pela produção de 90 % da droga de um Departamento. O custo da sua aplicação seria apenas de 10 milhões de dólares. O estudo foi enviado à ONU, mas o governo Uribe opôs-se à iniciativa.

No que se refere à campanha internacional que tem por objectivo apresentar as FARC como um bando de criminosos e assassinos, a difusão da mentira também funciona.

O caso de Ingrid Bettancourt é esclarecedor dos métodos usados pelo governo de Uribe. Durante anos a ex-candidata a Presidência da Republica foi apresentada como uma heroína, que estaria às portas da morte em consequência de maus-tratos recebidos. Foi libertada mediante a compra do guerrilheiro responsável pela sua custódia na selva. Mas o governo Uribe enganou a opinião mundial afirmando que fora resgatada pela Força Aérea numa operação montada de acordo com a Cruz Vermelha Internacional. Logo se verificou, porém, que Ingrid estava de perfeita saúde e cheia de energia.

Clara Rojas, ex-secretária de Ingrid e sua companheira de cativeiro, desmascara aliás, num livro recente, a falsa heroína cujo comportamento a isolou dos demais presos.

Em 2001 passei algumas semanas num acampamento das FARC na selva amazónica do Caquetá.

Nesses dias tive a oportunidade de falar durante muitas horas com o comandante Raul Reyes – assassinado em 2008 no Equador durante um bombardeamento realizado pela Força Aérea colombiana – e de conhecer alguns destacados comandantes das FARC, incluindo Manuel Marulanda, o seu legendário comandante-chefe.

As conversas que então mantive sobre múltiplos temas com esses dirigentes das FARC deixaram em mim recordação inapagável. Desses encontros retirei a conclusão de que os homens apresentados como terroristas e facínoras por Uribe são revolucionários merecedores de respeito, com um conhecimento invulgar do marxismo-leninismo, a ideologia do partido-guerrilha assumida pelas FARC.

A vida permitiu-me estabelecer laços não apenas de camaradagem, mas de amizade com alguns colombianos. Entre eles ocupa o primeiro lugar Rodrigo Granda. Conheci-o em Havana, reencontrei-o em El Salvador, muitas vezes em Cuba e na Venezuela, na véspera do seu sequestro por polícias de Uribe. A amizade é um sentimento difícil de hierarquizar. Mas de Rodrigo Granda posso dizer, camaradas, que ele me aparece como um revolucionário e um comunista exemplar, um paradigma do quase mítico homem novo com que sonhamos.

O APELO À PAZ DAS FARC

Há mais de quatro décadas que as FARC se batem por uma Colômbia verdadeiramente independente e democrática

Nesse batalhar houve um momento, no começo dos anos 80, em que aceitaram suspender a luta – sem entregar as armas – aceitando a proposta do governo da época para participarem na vida politica transferindo para o campo institucional a defesa do seu projecto de sociedade.

E que aconteceu, camaradas? A Unión Patriótica, o partido-movimento então criado pelas FARC, foi alvo do maior genocídio político da história da América Latina. Em pouco mais de dois anos, senadores, deputados, intelectuais, sindicalistas da União Patriótica foram assassinados.

Obviamente as FARC retomaram a luta armada. A organização revolucionária cresceu. No início do milénio, quando o presidente Pastrana concordou abrir negociações com vista à Paz e foi criada uma Zona Desmilitarizada com uma superfície equivalente ao Estado do Espírito Santo, as FARC constituíam um exército popular com efectivos avaliados em 17 mil combatentes distribuídos por 60 Frentes de luta. Somente no Vietname se encontra precedente para uma saga comparável à das FARC-EP.

Sob a pressão dos EUA, da oligarquia bogotana e do exército, o presidente Pastrana fechou a porta a qualquer negociação séria que pudesse conduzir à Paz, invadiu e reocupou a Zona Desmilitarizada.

Recordo que então os comandantes guerrilheiros, em La Macarena, no acto de libertação unilateral de 300 prisioneiros das FARC – a que assisti – eram tratados com o maior respeito pelos embaixadores de grandes potencias europeias. Entretanto, passaram de um dia para outro a ter a cabeça a prémio como terroristas, narcotraficantes e assassinos.

Com a chegada de Uribe à Presidência a escalada assumiu as proporções de um assalto à razão. Sucessivas ofensivas militares, mobilizando dezenas de milhares de soldados, foram desencadeadas com o objectivo de aniquilar as FARC. Todas fracassaram não obstante o recurso a armas e equipamentos sofisticados, fornecidos pelos EUA.

Camaradas

A solidariedade com o povo da Colômbia, nestes dias em que a Administração Obama desenvolve uma estratégia que configura uma ameaça global à América Latina, é uma exigência da história.

Uribe impôs à Colômbia um regime neofascista.

O projecto do Novo Estado uribista outorga ao Executivo um poder quase absoluto. A consumar-se a nova reeleição através métodos ilegítimos, Álvaro Uribe Velez governará como um ditador.

Conforme recorda o Secretariado das FARC, Uribe, após a sua primeira reeleição, anunciou que destruiria a organização revolucionária num prazo de 18 meses. A promessa foi desmentida pela História. Agora, ao lutar por um terceiro mandato, afirma que a vitória contra as FARC está iminente e fala do «final do final», comprometendo-se a fazer da Colômbia «a Cidade do Sol».

Na realidade o país foi transformado numa semi-colónia dos EUA.

Dos deputados que apoiam Uribe, 85 são paramilitares. Na cadeia cumprem aliás penas dezenas de congressistas condenados por crimes graves.

As FARC não surgiram por geração espontânea.

O Secretariado do seu Estado Maior Central num apelo dirigido em Julho p. p. ao povo colombiano convida-o «a trabalhar por um Acordo Nacional de Paz que construa uma alternativa política que convoque o diálogo, ponha em campo uma trégua bilateral e proceda à retirada imediata das tropas norte-americanas e que, uma vez alcançados acordos com o protagonismo das organizações sociais e politicas, convoque uma Assembleia Constituinte para referendar o acordado».

Camaradas:

Os combatentes revolucionários das FARC que se batem por valores eternos da condição humana merecem o respeito e a solidariedade dos comunistas.

As FARC enfrentam na sua luta tremendas dificuldades. Mas as calúnias não fazem história. Com o rodar dos anos os nomes de Uribe e dos seus generais vão desaparecer na poeira do tempo. Mas o do comandante Manuel Marulanda será pelos séculos afora recordado. Já atravessou as portas do panteão dos heróis da América Latina.

Serpa, Setembro de 2009


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