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A Derrota dos Estados Unidos no Iraque agrava a crise estrutural do capitalismo

Miguel Urbano Rodrigues :: 28.12.06

G. W. Bush
“A derrota militar no Iraque – porque o fim da ocupação aparecerá na realidade como uma enorme derrota americana não apenas aos povos do mundo islâmico mas também aos próprios aliados de Washington – terá implicações amplas, profundas e diversificadas que, transcendendo os problemas da Região, vão agravar a crise estrutural do capitalismo”

A esperança de que a derrota republicana nas eleições de Novembro nos EUA facilita uma saída para a crise que a humanidade enfrenta é ilusória.
A alteração da relação de forças no Congresso terá, a curto prazo, influencia mínima no envolvimento dos EUA em áreas do planeta onde as suas guerras de agressão ditas «preventivas» e a aliança com o estado sionista criaram situações que configuram ameaças à humanidade.
O Relatório Baker, paradoxalmente, confirma essa realidade. Ao contrário do que centenas de milhões de pessoas esperavam, tudo leva a crer que a maior fragilidade da Administração Bush agravará as contradições num sistema de poder em crise profunda, porque o Partido Democrata não tem uma alternativa a propor, susceptível de travar o desastre em desenvolvimento no Iraque e no Afeganistão, e de por termo ao caos existente na Palestina submetida à barbárie israelense.
O Relatório Baker-Hamilton teve o mérito de tornar publica o que era óbvio. O seu impacto faz pensar num tumor que ao rebentar empesta a atmosfera.
Bush reconheceu, finalmente, que a sua estratégia irracional, de matizes neo fascistas, fracassou. Afirmou que vai estudar com a sua gente as propostas contidas no documento firmado pelo ex-secretario de Estado do seu pai e alterar a estratégia que levou ao desastre, agora inocultável.
Não esclareceu, porem que essas propostas, para alem da confissão do fracasso e da adopção de medidas que visam a atenuar os seus efeitos, não são susceptíveis de evitar uma derrota humilhante para os EUA. O Presidente continua a prometer a vitória, embora com outra estratégia.
O conteúdo do Relatório é pobre. Como remédio para uma situação insustentável apresenta sugestões que nada resolvem e recomenda decisões inaplicáveis. O objectivo principal é evitar uma catástrofe pior do que a do Vietname (v. odiario.info, 18.12.2006, artigo de Brian Becker e Mara Verheyder Hilliard).
O grupo de trabalho Baker sugere uma retirada por fases até 2008. Não inova: propõe, afinal, a repetição do que Nixon, aconselhado por Kissinger, fez no Vietnam.
Baker-Hamilton enxergam uma mezinha salvadora na iraquizaçao da guerra. Segundo o Relatório a retirada das tropas americanas das áreas onde a insurreição é mais forte e a sua concentração em Bagdad contribuiria para melhorar a situação. A sua missão principal seria formar unidades de combate do novo exército do Iraque. A essas, sim, caberia a tarefa de enfrentar os seus compatriotas que participam na luta armada contra a ocupação americana, Baker-Hamilton mentem conscientemente. Certamente não esqueceram o desfecho da vietnamizaçao da guerra.
Quando Giap atacou em 1974, as Forças Armadas do governo fantoche de Saigon não opuseram praticamente resistência. O exército do Vietnam do Sul ruiu como um castelo de cartas.
Não pretendendo levar a analogia mais longe, porque o desfecho será no Iraque previsivelmente muito pior.
Em primeiro lugar a situação é tão grave e complexa, que, por ora, não se prevê a repatriação de uma só unidade de combate estadunidense. Pelo contrário, Bush pretende enviar para a fogueira iraquiana mais 20 000 soldados, ou seja o máximo possível, porque não há mais unidades de combate disponíveis. No Pentágono os estrategos não se entendem. Uns defendem o envio de mais um porta-aviões para o Golfo, outros consideram um erro reforçar com 20 000 homens a tropa de ocupação.
Significativamente, os grandes jornais e as cadeias de televisão, dedicam muito tempo e espaço às fofocas do Congresso e da Casa Branca, mas têm-se abstido de comentar as consequências da retirada já programada de tropas de países aliados. Os italianos e os coreanos estão a elaborar o calendário da repatriação. Outros tratam de os imitar.
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Quanto aos ingleses, aumenta em Washington o temor de uma decisão próxima e «negativa» de Londres. O povo britânico exige o regresso dos seus soldados. O chefe do Estado-maior do exército e outras altas patentes defendem também o fim do envolvimento britânico numa guerra que na sua opinião foi um erro e está perdida. A Chattam House, num relatório divulgado há dias afirma que a Grã-bretanha continuará nos próximos anos a sofrer as consequências da desastrosa politica de Blair ao acorrentar o país aos EUA.
O Primeiro-ministro, consumado equilibrista, tem sido ambíguo ao abordar o assunto. Em Bagdad, inesperadamente, sugeriu ao governo títere, nas vésperas do Natal, que fixe um calendário para a retirada das tropas americanas. Desta vez não falou das britânicas.
O seu consulado está prestes a findar. Blair não ignora contudo que a retirada dos ingleses terá no plano militar – e no psicológico – consequenencias gravíssimas segundo os próprios estrategos do Pentágono. Os britânicos mantêm ainda no Iraque uns 8000 homens. Mas continuam a ser responsáveis pela Província de Bassorá, uma área estratégica fundamental que controla o delta do Chat El Arab, a única saída dos pais para o Golfo. Ali, a resistência tem encontrado na sua luta maiores dificuldades do que em Bagdad e nas províncias do Norte e da fronteira com a Síria. O exército britânico é profissionalmente um dos melhores do mundo e tem uma experiência no combate à guerrilha urbana muito superior à das tropas de ocupação dos EUA. O nível da disciplina é elevado contrariamente ao que acontece na maioria das unidades terrestres americanas onde a atmosfera de desmoralização alastra.
As Forças Armadas dos EUA têm uma capacidade de destruir quase ilimitada, mas a US Army no combate terrestre e na guerra de emboscadas tem demonstrado uma incapacidade transparente. A substituição dos ingleses por americanos pode provocar o caos numa província que é de certa maneira o pulmão do Iraque.
Bush, não consegue ocultar a sua desorientação. Após o encontro com o Grupo de Trabalho que elaborou o Relatório Baker anunciou uma declaração quase imediata sobre a nova estratégia que iria adoptar. Mas logo se arrependeu e adiou a promessa para o início do ano.
Os seus conselheiros estão conscientes de que a situação existente é muito pior do que aquela que precedeu a derrota e a fuga no Vietnam. No Sudeste Asiático a agressão norte-americana produziu-se durante a guerra-fria e foi inseparável da estratégia de confrontação com a URSS e a disputa da hegemonia no Extremo Oriente. Foi uma guerra travada numa região em que os interesses económicos dos EUA eram muito secundários.
No Médio Oriente e na Ásia Central o panorama e as motivações são diferentes. Pelo Estreito de Ormuz, porta do Golfo, sai grande parte do petróleo importado actualmente pelos EUA que hoje somente produz 40% do que consome. Na Região existem as maiores reservas de petróleo e gás da Terra.
A derrota militar no Iraque – porque o fim da ocupação aparecerá na realidade como uma enorme derrota americana não apenas aos povos do mundo islâmico mas também aos próprios aliados de Washington – terá implicações amplas, profundas e diversificadas que, transcendendo os problemas da Região, vão agravar a crise estrutural do capitalismo.
É uma ingenuidade admitir que a simples revisão da estratégia irracional que atolou os EUA no pântano iraquiano poderá abrir a porta a uma solução tolerável para eles, embora humilhante.
A ideia de que o Irão e a Síria podem entender-se com Washington para «estabilizar» a situação no Iraque, facilitando uma saída airosa do exército de ocupação, é absurda.
O desprestígio resultante da derrota dos EUA produzirá na Região um efeito contaminante. Atingirá inclusive os aliados do Golfo. Na Arábia Saudita a oposição à presença militar norte-americana vai aumentar.
As relações com o Egipto e a Jordânia também serão afectadas. E no Paquistão e na Turquia as forças que combatem a aliança com Washington vão intensificar a sua oposição.
As repúblicas ex-sovieticas da Ásia Central vão também distanciar-se dos EUA. Isso já aconteceu com o Uzbequistão e o Casaquistão, e no Kirguizistão – sede da maior base militar americana na Região o sentimento anti-americano aumenta.
As transnacionais do petroleo, que até à Revolução iraniana que derrubou o Xá Rehza Pahlevi encaravam o Médio Oriente como um feudo, têm motivos para estar alarmadas.
Uma consequência da catástrofe americana no Iraque de que os media não falam é o custo que ela terá para Israel. O isolamento do Estado Sionista vai ampliar-se. Em todas as agressões cometidas contra os povos da Palestina e do Líbano, Tel Aviv contou sempre com a solidariedade total do seu grande aliado. O apoio vai persistir, mas as modalidades da ajuda vão reflectir o desastre iraquiano. Israel não pode contar com outra guerra «preventiva». O fracasso dos EUA no Iraque assinala o fim de uma era.
A natureza das mudanças posteriores à retirada norte-americana é, por ora imprevisível. Mas sabe-se que nada será ali igual no futuro próximo.
A primeira ilação a tirar do inevitável -embora sem data – fim da ocupação militar do Iraque é a da alta improbabilidade de os EUA repetirem nos próximos anos um ataque a qualquer pais asiático que envolva a intervenção de forças terrestres. A política das «guerras preventivas» teve o seu funeral nas terras da milenária Mesopotâmia.
Nos cofres do Pentágono acumulam-se ainda planos ambiciosos que previam a invasão do Irão. Mas o actual chefe do Departamento de Defesa, o ex-director da CIA, Robert Gates, e os seus generais e almirantes sabem que esse sonho findou.
Para atenuar o efeito de choque produzido pela tomada de consciência da catástrofe iraquiana, o sistema mediático, sobretudo os grandes jornais, tentam persuadir a opinião pública de que no Afeganistão a situação permanece sob controlo da NATO e tende a melhorar. ´
Mentem. O presidente Hamid Karzai (ex funcionário de uma transnacional petrolífera) é uma marionette colocada em Kabul por Bush. O levantamento das tribos da Fronteira com o Paquistão apresenta um panorama caótico, mas na luta contra os ocupantes estrangeiros participam milhares de combatentes que não são Talibãs.
Em Portugal, numa pirueta tipica de epígonos do poder, os analistas do PS e do PSD que durante anos enalteceram a agressão ao Iraque como acto civilizatório e a imaginaria «democratização» do pais como vitoria sobre o «terrorismo» deram agora uma guinada de 180 graus e mudam o discurso. Perante a derrota responsabilizam por ela Bush e apontam como indesculpável a estratégia que antes identificavam como serviço à humanidade.
Um general ® que se exibe na Tv. e na imprensa como especialista em estratégia militar ultrapassa os limites do ridículo ao contrapor ao desastre americano no Iraque a necessidade de fortalecer no Afeganistão as forças da NATO que ali assumiriam a defesa do Ocidente civilizado e democrático. O general não percebe que nas montanhas do Hindu Kush e no vale do Hilmand se trava outra guerra perdida na qual são os afegãos quem luta pela liberdade.
A desastrosa evolução das longínquas guerras asiáticas anunciadas após os acontecimentos do 11 de Setembro produziu efeitos opostos aos então previstos por Bush e os estrategos do Pentágono.
A cruzada contra o terrorismo funcionou como incentivo à expansão do terrorismo. No plano interno iniciativas presidenciais tripudiaram sobre direitos e liberdades garantidos pela Constituição. O racismo alastrou no país; o Congresso, cedendo à pressão da Casa Branca, legalizou a tortura; empresas gigantescas, envolvidas em escândalos e roubalheiras, foram à falência.
Rumsfeld com as Tropas no Iraque
Somente a guerra do Iraque já consumiu mais de 600 mil milhões de dólares. Actualmente absorve 2 mil milhões cada semanas. O Afeganistão é outro sorvedouro de dinheiro.
A situação financeira do país piora. A propaganda oficial esforça-se por apresentar a taxa de crescimento do PIB como prova de uma economia saudável. Mas o argumento é capcioso. O défice comercial ultrapassa todos os meses os 60 mil milhões de dólares. A divida externa, a maior do mundo, aumenta. A divida publica, colossal, não para também de crescer. Os Estados Unidos são hoje uma nação parasita que consome muito mais do que produz.
A fragilidade do dólar como moeda de referência mundial é transparente. O Irão já informou que decidiu optar pelo euro nas suas transacções comerciais, renunciando ao dólar. Outros países preparam-se para o imitar.
Se a China e o Japão trocassem por euros as suas reservas em dólares os EUA iriam à falência. É obvio que não tomarão essa iniciativa, porque ela desencadearia um caos financeiro mundial que os atingiria. Mas a simples colocação da hipótese ilumina a dimensão da crise estadunidense.
A situação existente é a médio prazo insustentável na opinião de Joseph Stiglitz, Premio Nobel de Economia, ex-director do Banco Mundial.
Em Portugal até um economista muito conservador e pró-americano, Sarsfield Cabral, tocou há dias no Diário de Noticias o sinal de alarme, assustado com o rumo da crise americana.
Os analistas que atribuem as dificuldades financeiras dos EUA exclusivamente à política aventureira de Bush ocultam a realidade. A irracionalidade da estratégia bushiana, ao fixar a atenção nos crimes do imperialismo, dificulta a percepção da gravidade e complexidade da crise do sistema capitalista.
Trabalhos sobre o tema de cientistas políticos de prestígio mundial – István Meszaros, Samir Amin e Georges Labica são exemplos expressivos -demonstram com clareza que o capitalismo se afunda numa crise Estrutural que o levará ao seu desaparecimento.
As guerras de agressão desencadeadas a pretexto de combater ao terrorismo, guerras que implantaram a barbárie e o caos em áreas do Médio Oriente e da Ásia Central onde se concentram grandes reservas de hidrocarbonetos, são inseparáveis do desespero gerado pelo temor da agonia do capitalismo.
O fim do sistema não tem, repito, data no calendário. Mas o sonho bushiano de dominação universal e perpétua do mundo pelo imperialismo vai ter um desfecho de pesadelo.

Serpa, 22 de Dezembro de 2006


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