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Egipto: Os movimentos sociais, a CIA e a Mossad

James Petras* :: 19.03.11

James Petras“Em última análise, o fracasso da CIA e da Mossad em detectar e impedir a ascensão do movimento democrático popular põe em evidência a precariedade das bases do poder imperial e colonial. No longo prazo, não são as armas, os milhares de milhões de dólares, a polícia secreta e as câmaras de tortura que decidirão a história. As revoluções democráticas ocorrem quando a grande maioria de um povo se levanta e diz «basta», vai para as ruas, paralisa a economia, desmantela o Estado autoritário e exige a liberdade e as instituições democráticas, sem a tutela imperial ou a submissão colonial.”

Os limites dos movimentos sociais

Os movimentos de massas que forçaram a retirada de Mubarak revelam os pontos fortes e fracos dos levantamentos espontâneos.

Por um lado, os movimentos sociais demonstraram a sua capacidade de mobilizar centenas de milhares, talvez milhões, de pessoas, numa luta sustentada de sucesso que culminou no derrube do ditador de uma forma que os partidos da oposição e as personalidades pré-existentes não puderam ou não quiseram fazer.

Em contraste, por outro lado, na falta de liderança política nacional, os movimentos não foram capazes de conquistar o poder político e materializar as suas aspirações, o que permitiu aos comandantes militares de Mubarak tomar o poder e definir o post-mubarakismo, assegurando a continuidade da subordinação do Egipto aos EUA, a protecção da riqueza ilícita do clã Mubarak (70 milhões de dólares), a manutenção das numerosas empresas propriedade da elite militar e a protecção das classes mais altas.

Os milhões de pessoas mobilizadas pelos movimentos sociais para derrubar a ditadura foram excluídos, na prática, pela nova Junta militar, autoproclamada «revolucionária» quando se tratou de definir as instituições e as políticas, para não mencionar as reformas sócio-económicas necessárias para atender às necessidades básicas da população (40% da população vive com menos de dois dólares por dia e o desemprego juvenil é superior a 30%). O Egipto, como os casos dos movimentos sociais populares e de estudantes contra as ditaduras da Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas e Indonésia, é uma demonstração de como a falta de uma organização política ao nível do estado permite que personagens neoliberais e conservadoras «da oposição» substituam o regime. Estes personagens trabalham para estabelecer um sistema eleitoral que continue a servir os interesses imperiais de dependência e defenda o aparelho estatal existente. Em alguns casos, substituem os velhos «amigos» capitalistas por outros de novo tipo. Não é por acaso que a comunicação social elogia a natureza «espontânea» das lutas (não das reivindicações sócio-económicas) e apresenta sob uma luz favorável o papel dos militares (sem levar em conta os 30 anos em que foram um baluarte da ditadura). As massas são elogiadas pelo seu «heroísmo» e os jovens pelo seu «idealismo», mas em nenhum caso são reconhecidos como actores políticos centrais no novo regime. Uma vez caída a ditadura, os militares e a oposição eleitoralista «saudaram» o êxito da revolução e agiram rapidamente para desmobilizar e desmontar o movimento espontâneo, a fim de abrir caminho para negociações entre os políticos liberais eleitoralistas, Washington e a elite militar no poder.

A Casa Branca pode tolerar ou mesmo fomentar movimentos sociais que levem à queda («sacrifício») de ditaduras, mas tem todo o interesse em preservar o Estado. No caso do Egipto, o principal aliado estratégico do imperialismo dos EUA, não é Mubarak, é o exército, com o qual Washington tem estado em constante colaboração, antes, durante e depois do derrube de Mubarak, assegurando-se de que a “transição para a democracia” (sic) assegura a subordinação permanente do Egipto aos interesses e políticas dos E.U.A. para o Próximo Oriente e Israel.

A rebelião do povo: os fracassos da CIA e da Mossad

A revolta árabe demonstra mais uma vez várias falhas estratégicas em instituições tão gabadas como a polícia secreta, as forças especiais e as agências de espionagem dos E.U.A., assim como o aparelho do Estado de Israel, nenhum dos quais foi capaz de prever, muito menos de agir para impedir a bem-sucedida mobilização e influenciar as políticas dos seus governos para salvar os governantes lacaios que estavam em perigo.

A imagem que a maioria dos escritores, académicos e jornalistas projectam da invencibilidade da Mossad israelita e da todo-poderosa CIA foi submetida a uma dura prova, com a sua incapacidade em reconhecer o alcance, profundidade e intensidade do movimento de milhões de pessoas que derrubou a ditadura de Mubarak. A Mossad, o orgulho e a alegria dos produtores de Hollywood, apresentada como um «modelo de eficiência» por bem organizados companheiros de viagem sionistas, não foi capaz de detectar o crescimento de um movimento de massas num país vizinho. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, mostrou-se surpreendido (e consternado) pela precária situação de Mubarak e com o colapso do seu cliente árabe mais importante, precisamente por causa de falhas de espionagem da Mossad. Da mesma forma, Washington, com as suas 27 agências de espionagem, além do Pentágono, foi apanhada de surpresa pelos levantes populares massivos e os movimentos emergentes, apesar das centenas de milhares de funcionários remunerados e os seus orçamentos de milhares de milhões de dólares.

Várias observações teóricas se impõem. Ficou demonstrado que a ideia de governantes ferozmente repressivos, que recebem milhares de milhões de dólares em ajuda militar dos EUA e têm quase um milhão de militares, policias e forças paramilitares para garantir a hegemonia imperial, não é infalível. A suposição de que manter vínculos de larga escala e longo prazo com tais governantes ditatoriais, salvaguarda os interesses imperiais dos E.U.A., foi refutada.

O balão da arrogância de Israel e a presunção de superioridade judaica em matéria de organização, estratégia e política sobre «árabes», saíram bastante furados. O Estado de Israel, os seus peritos, os agentes infiltrados e os seus académicos das melhores universidades norte-americanas, permaneceram cegos às realidades emergentes, desconhecendo a profundidade do descontentamento e impotentes para impedir a oposição maciça aos seus clientes mais valiosos. Os publicitários de Israel nos E.U.A., que não perdem qualquer oportunidade para elogiar o «brilhantismo» das forças de segurança de Israel, quer seja para matar um líder árabe no Líbano ou no Dubai, ou bombardear uma instalação militar na Síria, ficaram temporariamente sem fala.

A queda de Mubarak e o possível surgimento de um governo democrático e independente, significariam que Israel perderia o seu principal aliado policial. Uma opinião pública democrática não vai cooperar com Israel para manter o bloqueio de Gaza e condenar os palestinianos a morrer de fome a fim de quebrar a sua vontade de resistir. Israel não poderá contar com um governo democrático para apoiar as suas violentas ocupações de terras na Cisjordânia e o seu regime fantoche palestiniano. Nem os EUA poderiam contar com um Egipto democrático para apoiar as suas conspirações no Líbano, as suas guerras no Iraque e no Afeganistão ou as suas sanções contra o Irão. Além disso, o levantamento do Egipto serviu de exemplo para outros movimentos populares contra as ditaduras clientes dos EUA na Jordânia, Iémen e Arábia Saudita. Por todas estas razões, Washington apoiou o golpe militar, a fim de dar forma a uma transição política de acordo com o seu gosto e com os seus interesses imperiais.

O enfraquecimento do principal pilar do poder imperial dos EUA e do poder colonial israelita no norte da África e no próximo Oriente põe em destaque o papel essencial dos regimes colaboradores do Império. A natureza ditatorial destes regimes é um resultado directo do papel que desempenham na defesa dos interesses imperiais. E os grandes pacotes de ajuda militar que corrompem e enriquecem as elites dominantes são a recompensa pela sua disponibilidade para cooperar com os estados imperiais e coloniais. Dada a importância estratégica da ditadura egípcia, como explicar o fracasso das agências de espionagem dos EUA e Israel para antecipar os motins?

Tanto a CIA como a Mossad trabalharam em estreita colaboração com os serviços de espionagem do Egipto, e basearam-se neles para obter informações, confiando nos seus relatórios conformistas segundo os quais tudo estava sob controlo. Os partidos da oposição são fracos, têm sido dizimados pela infiltração e a repressão, os seus militantes apodrecem na cadeia ou sofrem «fatais ataques de coração» devido a severas «técnicas de interrogatório», disseram. As eleições foram manipuladas para eleger os clientes dos EUA e Israel, para não haver surpresas democráticas no horizonte imediato ou a médio prazo.

Os serviços secretos egípcios são treinados e financiados por agentes americanos e israelitas, e têm uma tendência natural para satisfazer a vontade dos seus senhores. Eles eram tão obedientes a produzir relatórios para agradar aos seus mentores, que ignoravam qualquer informação sobre uma crescente inquietação popular ou a agitação através da Internet. A CIA e a Mossad estavam tão apoiados no vasto aparelho de segurança de Mubarak, que foram incapazes de obter qualquer outra informação sobre os movimentos populares, descentralizados e florescentes, todos eles movimentos independentes da oposição eleitoral tradicional, que controlavam.

Quando os movimentos de massas extra-parlamentares eclodiram, a Mossad e a CIA contavam com o aparelho estatal de Mubarak para assumir o controlo através da típica operação da cenoura e do pau: dar concessões simbólicas de transição para tomar as ruas pelo exército, a polícia e esquadrões da morte. À medida que o movimento crescia de dezenas de milhares para centenas de milhares e para milhões de pessoas, a Mossad e os principais congressistas pró Israel pediam a Mubarak para «aguentar». A CIA limitou-se a apresentar à Casa Branca os perfis políticos dos militares e políticos confiáveis e dos «flexíveis», de transição, dispostos a seguir os passos de Mubarak. Mais uma vez, a CIA e a Mossad demonstraram a sua dependência de aparelho de Estado egípcio para obter informações sobre quem poderia representar uma alternativa viável pró-americana e israelita, ignorando as necessidades básicas das massas. A tentativa de cooptar a velha guarda eleitoralista da Irmandade Muçulmana por meio de negociações com o vice-presidente General Omar Suleiman fracassou, em parte porque os Irmãos Muçulmanos não detinham o controlo do movimento e porque Israel e os seus seguidores nos EUA se opuseram. Além disso, a ala jovem dos Irmãos pressionou para que a organização se retirasse das negociações.

As falhas em matéria de espionagem complicaram os esforços de Washington e Telavive para sacrificar o regime ditatorial e salvar o Estado: nem a CIA nem a Mossad tinham ligações com qualquer dos novos líderes emergentes. Os israelitas não conseguiram encontrar nenhuma «cara nova», que tivesse adesão popular e disposta a desempenhar o papel pouco digno de colaborador da opressão colonial. A CIA tinha estado totalmente comprometida com a prática dos serviços secretos egípcios de torturar suspeitos de terrorismo (as «entregas extraordinárias») e com a vigilância dos países árabes vizinhos. Como resultado, Washington e Israel procuraram e promoveram o golpe militar para se antecipar a uma maior radicalização.

Em última análise, o fracasso da CIA e da Mossad em detectar e impedir a ascensão do movimento democrático popular põe em evidência a precariedade das bases do poder imperial e colonial. No longo prazo, não são as armas, os milhares de milhões de dólares, a polícia secreta e as câmaras de tortura que decidirão a história. As revoluções democráticas ocorrem quando a grande maioria de um povo se levanta e diz «basta», vai para as ruas, paralisa a economia, desmantela o Estado autoritário e exige a liberdade e as instituições democráticas, sem a tutela imperial ou a submissão colonial.

* James Petras, Professor da Universidade de Nova Iorque, é amigo e colaborador de odiario.info.

Tradução: Guilherme Coelho


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