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O pequeno dicionário crítico –36:
Engenharia financeira

Vaz de Carvalho :: 08.12.11

Na gestão tradicional investia-se, avaliavam-se as capacidades tecnológicas e de mercado, e no caso de uma grande empresa procurava-se o apoio do Estado em termos de encomendas, novos mercados, etc.
A engenharia financeira tem outros recursos. Fundamentalmente do Estado o que pretende é que não cobre impostos e deixe circular o capital livremente, mesmo descapitalizando o potencial produtivo do país.

A engenharia financeira foi tratada e posta em prática como a maior descoberta no campo da gestão de empresas. Uma espécie de revelação da teologia neoliberal que permitiria resolver todas as contradições do capitalismo. Os seus próceres viram-se aplaudidos, acarinhados pelo grande capital, premiados e promovidos a lugares cimeiros. As suas contas bancárias acompanharam esta tonalidade triunfal.
Foi afinal um dos mais elogiados e seguidos expedientes neoliberais para destruir a economia.
Na prática não passou de uma fuga ao real, designadamente à nunca reconhecida lei da baixa tendencial da taxa de lucro. Ganhou na sua execução contornos de fraude; tornou-se um processo acelerador de crises e socialmente perverso.
Para além do que já era reconhecido como vulgares princípios de boa gestão financeira a nível microeconómico, não passou de uma economia de desemprego, destruição de empresas e concentração monopolista.
Vamos dar um exemplo que consideramos típico do que ocorreu sob estes processos (1). A empresa em questão começa por ter dificuldades no mercado: este não tem a expansão prevista e verifica-se uma perda de competitividade, por razões tecnológicas, de marketing ou do próprio mercado.
Apesar disto a empresa tem bom nível de encomendas, elevado potencial tecnológico, reconhecida experiência, boa qualidade, porém os lucros não crescem como desejado, a taxa de lucro de outras actividades, designadamente especulativas é muito superior.
O processo é desencadeado quando a visão industrial de médio e longo prazo é substituída pela visão financeira de curto prazo que chega ao ponto dos resultados serem avaliados ao trimestre impondo constantes valorizações da cotação em bolsa.
Apesar de anos atrás se ter procedido a “curas de emagrecimento”, designadas “downsizing”, que se traduzem em despedimentos, tal não teve o efeito pretendido pelos acionistas. As ações caíram sem qualquer relação com o real valor da empresa, tal como antes tinham subido da mesma forma.
Ora, negando completamente a sacrossanta lei da oferta e da procura, quanto mais as ações descem menos procura têm! Que faz então o núcleo duro da empresa perante a possibilidade dos seus activos financeiros se degradarem? Na gestão tradicional, investia-se avaliavam-se as capacidades tecnológicas e de mercado, faziam-se investimentos e no caso de uma grande empresa procurava-se o apoio do Estado em termos de encomendas, novos mercados, etc.
A engenharia financeira tem outros recursos. Fundamentalmente do Estado o que pretende é que não cobre impostos e deixe circular o capital livremente, mesmo descapitalizando o potencial produtivo do país. Assim, é chamado um especialista em “engenharia financeira”, pago a peso de ouro, que ocupa de imediato lugar de maior relevo em termos executivos na Administração.
Num ano o competente especialista mostra que as suas promessas não eram vãs: a empresa apresenta de novo elevados lucros e, mais uma vez contra a famosa lei da “economia de mercado”, quanto mais as ações sobem mais procura têm.
O núcleo duro não podia estar mais feliz. Como sabia o que se ia passar comprou tudo o que pode na baixa e foi vendendo na alta. Que milagre se tinha então passado? Simples engenharia financeira. O famoso especialista foi vendendo, admitamos que em boas condições - não fazendo como certos detentores de cargos público ao serviço do capital privado - o que pode da empresa incluindo as suas partes mais lucrativas nomeadamente aos seus concorrentes. A empresa ficou recheada de capital que serviu, não para qualquer investimento, pelo contrário estava-se a desinvestir, mas para apresentar óptimos resultados e rechear o bolso dos accionistas e o dele próprio, bem remunerado com os correspondentes bónus.
Os trabalhadores nisto pouco ou nada contam, nem o interesse nacional. As fusões e as partes da empresa entregues à concorrência fizeram-se com as correspondentes perdas de postos de trabalho e regra geral também de direitos.
Perante a opinião pública, democracia “oblige”, é dito que os desempregados são basicamente pessoas a quem falta espírito de iniciativa e que o Estado social não pode ser mantido, pois a duração média de vida dos trabalhadores é mais elevada – o que pelos vistos constitui grande azar para o capital.
Como é óbvio ao fim de muito poucos anos o modelo esgota-se: o ativo reduziu-se, o volume de negócios também, tal como os lucros. Logo as acções voltam a baixar de novo. Mas desta vez não há problema, pelo menos para o grande capital. Eles já sabiam o que ia acontecer. Tinham posto no mercado grande quantidade de ações que o mercado absorveu em alta, sem olhar para o ativo material, o problema já não era deles, mas dos imprudentes compradores pouco responsáveis a gerir o seu dinheiro e que cediam às sugestões dos “especialistas”. Justamente é o que também dizem os srs. comentadores que diariamente procuram tornar o sistema inimputável, culpando as pessoas, esquecendo-se de mencionar que elas se tinham limitado a acreditar nos acarinhados teóricos e propagandistas do sistema.
O especialista financeiro termina então a sua função, altamente prestigiado por ter afundado mais uma empresa e criado mais desemprego, saindo com uma daquelas indemnizações cujos números só são frequentes em astronomia. Os acionistas pegaram no “seu” dinheirinho e colocaram-no em paraísos fiscais e em redes especulativas. A crise a que estes processos dão origem está atualmente a cargo da população através dos planos de austeridade.
Falemos também de “efeitos colaterais”. A pressão que é exercida sobre os quadros para se aumentarem os níveis de rentabilidade degrada o ambiente de trabalho, torna-o por vezes insuportável a nível pessoal, a nível familiar. Esta pressão transmite-se em cadeia às outras camadas de trabalhadores. Sendo a avaliação feita em valor acrescentado por trabalhador passa-se às rescisões e despedimentos generalizando-se a subcontratação a pequenas empresas e trabalhadores individuais, o que é já uma degradação das remunerações e direitos anteriormente adquiridos.
Vimos importantes empresas industriais dos EUA e da Europa incensadas nas revistas da especialidade da forma mais atávica possível por, em processos deste tipo, os seus resultados serem principalmente obtidos na área financeira e não na produtiva. Não passaram muitos anos que o Estado não tivesse que intervir para evitar o seu colapso. Posto isto, os atores e defensores da “engenharia financeira” impõem cortes nas despesas sociais do Estado, “despesista”…
A engenharia financeira consiste, pois, fundamentalmente, na transferência do investimento produtivo para as aplicações financeiras especulativas degradando as condições de funcionamento das empresas.
Os pequenos acionistas e os fundos de pensões também ficam a perder. Recordemos o foguetório propagandístico e o que se tangeu por estes famosos fundos para os quais se queria empurrar as pessoas, para mais facilmente se ir destruindo a Segurança Social e transferir recursos para o sector capitalista.
A engenharia financeira – só em si o nome é absurdo e manipulador - é um dos processos básicos da financeirização da economia., ou seja, a forma pela qual o sector oligopolista obtém a sua renda de carácter monopolista a partir da mais valia criada a nível nacional e transnacional. (2)

1 – O autor acompanhou pessoalmente mais de uma situação deste tipo embora não pertencesse às empresas em causa, mas com as quais manteve relações contratuais.
2 – Entrevista do prof. Samir Amim a Pascal Fournier – www.legrandsoir.info – 12.maio.2009.


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