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Colômbia: Entre a espada do paramilitarismo e a parede do neoliberalismo

Piedad Córdoba* :: 24.03.07

Piedad Córdoba
Pelos seus apoios tácitos a essa máquina de morte, o Presidente Uribe aparece como cúmplice e incentivador da prisão, do desaparecimento, tortura e morte de líderes e dirigentes sociais, que abertamente foram opositores do seu governo.

O povo colombiano encontra-se acossado por diversas crises que impedem o seu desenvolvimento como nação. Por um lado, uma crise de legitimidade originada pela conquista de poderes públicos pela direita que, recorrendo à coação eleitoral, passou a exercer um enorme controlo sob o país. Por outro, uma crise de representação, porquanto, os que dizem representar o povo, na sua grande maioria, efectivamente não o fazem mas encarnam interesses diferentes dos interesses populares.

No nosso país a luta diária é pelo mais fundamental dos direitos humanos, o direito à vida. Os poderes estabelecidos sucumbiram devido à sua promiscuidade com os bandos de paramilitares ilegais, os narcotraficantes e os corruptos que os dominam e se apropriaram, para proveito próprio, dos orçamentos e da exploração de sectores como o da saúde, recursos naturais, e obras públicas.

A complacência do Presidente da República, Álvaro Uribe Velez, com estes reprováveis factos é evidente. Hoje, depois dos julgamentos e prisão de quinze dos principais aliados do projecto político que ele representa, e a também possível prisão de mais dezassete pessoas, entre congressistas e altos funcionários, ninguém pode duvidar, na Colômbia ou no estrangeiro, que existe uma evidente ligação entre os paramilitares e a chefia do governo. Todos os caminhos do paramilitarismo conduzem a Uribe, um presidente paramilitar.

Pelos seus apoios tácitos a essa máquina de morte, o Presidente Uribe aparece como cúmplice e incentivador da prisão, do desaparecimento, tortura e morte de líderes e dirigentes sociais, que abertamente foram opositores do seu governo. Vítima dele foram livre pensadores como Jaime Gómez, meu assessor e que fundara connosco Poder Cidadão. Este politólogo desapareceu numa manhã de Março de 2006 e, depois de muita luta através de marchas e mobilizações populares, foi encontrado assassinado com claros sinais de tortura.

Activistas de movimentos sociais e dirigentes sindicais que apareceram numa lista da central de inteligência DAS, foram também mortos em circunstâncias ainda não esclarecidas, tendo-se já apurado que o Chefe da Inteligência, nomeado e defendido por Uribe, tem alguma responsabilidade e está atrás da cortina.

O silêncio cúmplice dos meios de comunicação de massas e o silenciamento das verdades por parte das autoridades oficiais, faz com que, de fora, as coisas se esclareçam de forma diferente. Uribe mente, uma e outra vez, tantas quanto forem precisas, ao defender que a infiltração paramilitar é um facto isolado; cada vez mais a verdade surge das zonas inexpugnáveis onde reinam o fusil e a pobreza.

Também no aspecto económico as coisas são diferentes do que anunciam. Fiel seguidor das políticas do Consenso de Washington, o governo colombiano vem, desde o início dos anos 90, aplicando o neoliberalismo, entronizado pelo ex presidente e ex Secretário da OEA, César Gravíria Trujillo, hoje dirigente do Partido Liberal, a uma fracção do qual eu pertenço. Como consequência disto tudo, na Colômbia 6 em cada 10 pessoas são pobres, 4 em cada 10 estão no desemprego e muitas das indústrias nacionais tiveram que fechar ou ser vendidas a grupos transnacionais.

Na Colômbia privatizaram tudo, os sindicatos continuam a lutar contra a ameaça do seu desaparecimento; as organizações populares foram desarticuladas; pouco a pouco, concretiza-se o estrangulamento dos sectores populares e democráticos. As massas desesperadas são condenadas e impede-se o exercício do direito de oposição a ponto de considerar terroristas os que nos opomos ao sistema neoliberal e autoritário estabelecido, sem outras armas para além das nossas palavras e do nosso sonho democrático.

Sou senadora eleita pela esquerda democrática dentro do Partido Liberal Colombiano, um colectivo com quase 160 anos, onde militaram homens e mulheres progressistas como Rafael Uribe Uribe, Alfonso López Pomarejo e o assassinado Jorge Eliécer Gaitan, que deixaram marcas transcendentes na Colômbia e na América Latina. Pertenço à linha histórica dos que não duvidaram em pegar em armas e seguir uma estratégia guerrilheira para se defenderem da agressão conservadora dos anos cinquenta.

Por tudo o que já disse, tenho o compromisso de dizer sem medo que a Colômbia se encontra entre a espada do paramilitarismo e a parede do neoliberalismo, com um Presidente belicista, autoritário que rasga os compromissos da nação e persegue a causa popular. Que com as suas políticas impede o desenvolvimento democrático e, mais grave, se converteu no “testa de ferro” do Império.

O actual mandatário colombiano, aluno aplicado do neoliberalismo, está ao serviço dos Estados Unidos para desestabilizar e impedir o avanço do socialismo democrático em toda a nossa América e no Mundo. A prova disso está nas provocações à Venezuela, com dissonantes reclamações diplomáticas e ao Equador com as fumigações. Outra prova evidente foi a permanência até ao limite da ex Chanceler Araújo, filha de uma reconhecida família aliada do paramilitarismo no norte do país.

Para os democratas da Colômbia este não é um desafio fácil, por isso, companheiros e companheiras, o vosso apoio solidário e sem prazo é indispensável nesta hora crítica da Colômbia. Em primeiro lugar, a partir do nosso movimento, Poder Cidadão, e no interior do Partido, temos como propósito impedir a ascensão de César Gaviria Trujillo, que aspira continuar como dirigente da organização partidária, para cumprir as ordens de Washington e satisfazer os interesses das transnacionais que representa através da Otungroup, a sua empresa de lobby, para promoção de tratados entre os Estados. Recuperando para a esquerda o Partido Liberal com cariz popular, conseguiremos unir esforços, como fizemos quando chegámos ao poder na capital, a cidade de Bogotá, e quando derrotámos por esmagadora maioria o referendo deste típico “cachorro” do império.

Em segundo lugar, pela gravidade da crise humanitária e social que vive o nosso povo, temos de resolver as crises em que estamos mergulhados, devido à tomada do poder pela direita. Três milhões de deslocados, cinco mil sequestrados, milhares de presos políticos e um governo ilegítimo levam-nos a pedir aos governos progressistas da América diferente que CORTE RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS com a Colômbia, para pressionar as mudanças que permitam o cumprimento das garantias mínimas da democracia, o efectivo desmantelamento do paramilitarismo e entrar no diálogo e na resolução do conflito social e armado por que passa a república.

Não são tempos fáceis para estas terras, o império não ficará de braços cruzados quando vir como governamos com dignidade. Por isso, fazendo um apelo à coerência na acção, considero-me na obrigação de alertar para a instabilidade que se instala na região ao manter relações formais com um governo mentiroso e fascista como o de Álvaro Uribe da Colômbia.

Demonstrámos que a aliança macabra da direita, narcotraficantes, paramilitares e corruptos, é derrotável, mas precisa do concurso urgente dos homens e mulheres progressistas da região.

Termino com o grito da batalha de Gaitán, apropriado ao momento: PELA RESTAURAÇÃO MORAL E A RESTAURAÇÃO DA DEMOCRACIA NA REPÚBLICA… À CARGA!

* Senadora colombiana, Delegada ao Parlamento Latino-Americano e Dirigente Nacional do Movimento Poder Cidadão, tendência de esquerda do partido Liberal Colombiano.

Texto da comunicação ao Seminário “Os partidos e uma nova sociedade”, que teve lugar na cidade do México de 9 a 11 de Março de 2007

Tradução de José Paulo Gascão


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