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OEA: Cimeira do defunto*

Luís Carapinha :: 24.04.12

Cartagena foi sobretudo a confirmação de que a OEA é hoje um esqueleto descarnado. Uma organização anacrónica desenhada como fiel instrumento da hegemonia imperialista dos EUA num continente sul-americano que hoje envereda por novos caminhos de cooperação e integração.

Da VI Cimeira das Américas da estafada Organização de Estados Americanos (OEA), realizada no fim-de-semana na Colômbia, o mínimo que se poderá dizer é que foi um fiasco. Efectivamente, talvez nunca como nestes dias em Cartagena das Índias tivesse sido tão evidente o anacronismo de uma organização desenhada como fiel instrumento da hegemonia imperialista dos EUA no continente. Pautado por ausências, o conclave terminou sem uma declaração final, testemunhando o fosso hoje existente entre a posição convergente da esmagadora maioria dos países latino-americanos e caribenhos e os EUA e Canadá em relação a questões transcendentes como o bloqueio e exclusão de Cuba ou a soberania argentina sobre as ilhas Malvinas. Um despacho da agência Reuters, insuspeita de qualquer simpatia com a causa da emancipação dos povos, sintetizava o revés de Obama em Cartagena: «A oposição sem precedentes latino-americana às sanções dos EUA contra Cuba comunista deixou o presidente Barack Obama isolado (sic) ilustrando o decréscimo da influência de Washington na região» (15.04.12).

Obviamente não se esperaria que as grandes questões políticas e económicas que fustigam o quotidiano da esmagadora maioria dos latino-americanos e continuam a comprometer o futuro da região – riquíssima em recursos mas detentora dos maiores índices de desigualdade social do planeta – pudessem ser trazidas com seriedade a um espaço com as características da OEA e a cimeiras desta natureza. De facto estiveram ausentes. Mas, sinal da dinâmica que molda o actual contexto latino-americano, o próprio presidente anfitrião juntou-se ao coro dos que expressaram não ser aceitável a realização de uma futura cimeira sem a participação de Cuba. Ao mesmo tempo, Manuel Santos não perdeu o ensejo para anunciar a entrada em vigor, a 15 de Maio, do Tratado de Livre Comércio entre a Colômbia e os EUA. Santos prosseguiu no Palácio Narino a criminosa política do Governo Uribe de repressão e terrorismo de Estado que impede o caminho de uma solução política negociada para o conflito social armado colombiano. O poder do regime da oligarquia colombiana em Bogotá permanece na zona a base mais segura da manobra intervencionista dos EUA, contudo, Santos é criticado com virulência por Uribe pela melhoria das relações com a Venezuela e o Equador.

A realização desta Cimeira na Colômbia não pode deixar de remeter amargamente para a gritante imoralidade e hipocrisia que marcam o contexto de agravada crise capitalista no mundo. Só assim é possível entender a santa benevolência e o silêncio sepulcral dominantes perante o aviltante quadro de violações dos direitos humanos observado na Colômbia. Isto quando cínicas preocupações humanitárias e democráticas são a tempo inteiro invocadas pelo imperialismo para desencadear novas agressões e guerras genocidas. O mais importante acólito de Washington na região é um campeão dos assassinatos políticos, das fossas comuns, dos refugiados internos, dos camponeses desapossados de terra, da pobreza de muitos milhões. Tudo dentro das marcas de uma «democracia homologável», termo usado pelo El País.com (15.04.12), o mesmo jornal que agora alimenta uma onda de histerismo revanchista contra a decisão soberana de Buenos Aires de nacionalizar o pacote maioritário da Repsol na petrolífera argentina, YPF.

Cartagena foi sobretudo a confirmação de que a OEA é hoje um esqueleto descarnado. O futuro dos povos latino-americanos passa cada vez mais pelo trilhar dos caminhos da emancipação e do desenvolvimento, partindo do quadro inalienável de exercício da soberania nacional. Apesar de todos os perigos e dificuldades, os processos progressistas e revolucionários que desafiam o domínio do imperialismo e (neo)colonialismo são um elemento incontornável da construção da nova correlação de forças, reflectindo-se na formação dos novos mecanismos de cooperação e integração, como são a ALBA, a UNASUR e a CELAC.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2003, 19.04.2012


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