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O Desmentido

Correia da Fonseca :: 06.09.12

De entre as figuras que na televisão repetem sem cessar o discurso do corte nos salários, do desemprego, da facilitação dos despedimentos há uma cujo semblante retorcido está em inteira coerência com a brutalidade do seu discurso terrorista, o que em televisão não passa bem. Mas tem a vantagem de ilustrar visualmente como tudo o que apresenta como soluções para a crise são factores para o seu aprofundamento.

1.Ao longo de semanas, de meses, tem vindo a repetir a sua prédica: é preciso que os que trabalham ganhem menos, muito menos; é preciso que muitos deles sejam despedidos; é preciso que o Estado não gaste tanto dinheiro com a saúde dessa gente ou com outros privilégios que levianamente lhe foram concedidos. O seu semblante está em inteira coerência com a brutalidade do seu discurso terrorista, o que não é de modo nenhum irrelevante quando se trata de televisão, isto é, também de imagem: tem qualquer coisa de velha ave de rapina, de bicho agressivo, de personagem de pesadelo. Mas tem algum êxito, aparentemente até junto dos jornalistas presentes no programa. Não espanta que seja assim: o discurso negro tem sempre alguma coisa de fascinante, sobretudo em tempos de crise. Mais ainda quando vem mascarado de “rude franqueza”, de “verdade dura mas necessária”. E é também em consequência do discurso deste cavalheiro de severo aspecto, fiscalista com decerto abundantes leituras de Economia sem que contudo seja economista (ao contrário do que constantemente sugere), que muitos começam a reflectir que, na verdade, os seus vizinhos ganham de mais. Os vizinhos, naturalmente, não os próprios. Aliás, mesmo este permanente denunciante dos excessivos ganhos alheios se dispensa de referir o valor da reforma ou reformas que recebe em consequência de um não exagerado tempo de trabalho.

2.Reconheço que não gosto do sujeito. Mais e pior: que tenho contra ele uma predisposição negativa e injusta, o que é feiíssimo. Olho-o, e naquele homem de cabelos e barbas brancas imagino o garoto que ele foi, obviamente que há várias décadas. Era, então, na Guiné, colónia alcunhada de província ultramarina para engano dos que se queriam deixar enganar. No porto de Bissau trabalhavam negros, naturalmente: trabalho duro, salário escasso, tratamento agreste. De onde, de súbito, a eclosão de uma greve. De uma greve, note-se, coisa proibida. Pelo que um homem que podia fazê-lo chamou a repressão, a polícia. Cargas, tiros, cerca de uma centena de mortos. Todos negros, como não podia deixar de ser. Dizem-me, e eu acredito, que o homem que chamou a repressão e foi o indirecto autor da morte de tantos trabalhadores era o pai de um garoto que é agora este velho de discurso agressivo e quase furibundo. Garoto inocentíssimo, já se vê. Sou, pois, injusto: “ se não foste tu, foi teu pai”, como argumentava o lobo de La Fontaine. Mas, confesso, não consigo desprender-me da intuição injustificada e detestável de que neste velho menino que vem à TV reivindicar mais repressão financeira sobre os que trabalham há laivos de uma triste espécie de herança paterna.

3.Acontece, porém, que se tornou maioritária, quase consensual, a opinião de que a prática de redução de salários, por vezes tão radicalmente executada que se chegava ao despedimento ou a meses de remunerações em atraso, de reforço da miséria nos lares de quem trabalha ou, mais simplesmente, da implementação generalizada da pobreza, longe de poder ser uma tendencial solução para a crise, como o fiscalista de barbas brancas reiteradamente proclama, é de facto um factor de agravamento, um eficaz caminho para o afundamento da economia na consequência da liquidação do mercado interno, uma asneira para além de ser uma maldade. É a realidade a desmentir o suposto sábio, o aparente desassombro a surgir reduzido ao perfil da mera perversidade que se compraz em sê-lo. Porque, como é sabido, a vida não pára a contemplar os espantalhos, resta aguardar como, nesta espécie de já longa telenovela, vão ser os próximos episódios.


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