ODiario.info

Imprimir

Noam Chomsky: Os EUA estão há 60 anos a “torturar” o Irão, desde o golpe de 1953 orquestrado pela CIA.

Amy Goodman e Nermeen Shaikh :: 21.09.13

Neste exclusivo, disponível apenas na Web, o professor emérito do MIT, Noam Chomsky, fala sobre os últimos 60 anos das relações EUA-Irão, desde o golpe de 1953, organizado pela CIA. “O facto crucial acerca do Irão, pelo qual devemos começar, é que nos últimos 60 anos, não passou um único dia em que os EUA não tenham torturado iranianos”, diz Chomsky. “Começou com um golpe militar que derrubou o regime parlamentar, em 1953.”

Amy Goodman : O meu nome é Amy Goodman, com Nermeen Shaikh . O nosso convidado é Noam Chomsky. Noam, poderia referir-se ao Irão no presente e sobre o que o conflito na Síria significa para o Irão e que os EUA poderiam fazer para, globalmente, mudar a dinâmica do Médio Oriente?
Noam Chomsky : O facto crucial acerca do Irão, pelo qual devemos começar, é que nos últimos 60 anos, não passou um único dia em que os EUA não tenham torturado iranianos. Faz agora 60 anos. Começou com um golpe militar, que derrubou o regime parlamentar, em 1953, e instalou o Xá, um ditador brutal. A Amnistia Internacional descreveu-o como um dos piores e mais extremistas torturadores do mundo, ano após ano. Quando ele foi derrubado, em 1979, os EUA quase imediatamente se viraram para apoiar Saddam Hussein num ataque contra o Irão, que matou centenas de milhares de iranianos, usando extensivamente armas químicas. Claro que, ao mesmo tempo, Saddam atacou a sua população curda com terríveis ataques de armas químicas. Os EUA apoiaram isso tudo. A administração Reagan ainda conseguiu evitar punições para o Iraque. Os EUA ganharam, essencialmente, a guerra contra o Irão por meio do seu apoio ao Iraque. Saddam Hussein era um favorito da Administração de Reagan e da primeira Administração de Bush, a tal ponto que George H.W. Bush, o primeiro Bush, logo após a guerra, em 1989, convidou engenheiros nucleares iraquianos para virem aos EUA para terem formação avançada na produção de armas nucleares. Era esse o país que havia devastado o Irão, com um terrível ataque e guerra. Logo depois disso, o Irão foi submetido a duras sanções. E isso continua, até este momento. Portanto, temos agora um registo de 60 anos a torturar iranianos. Não prestamos atenção a isso, mas pode ter certeza de que eles o fazem, com razão. Essa é a primeira questão.
Porquê o ataque contra o Irão? Voltamos ao princípio da Máfia. Em 1979, os iranianos levaram a cabo um acto ilegítimo: derrubaram um tirano que os Estados Unidos haviam imposto e apoiado e tomaram um rumo independente, desobedecendo às ordens dos EUA. Isso entra em conflito com a doutrina da Máfia, que de facto governa o mundo. A credibilidade deve ser mantida. O padrinho não pode permitir a independência e o sucesso dos que o desafiam, como no caso de Cuba. Portanto, o Irão tem de ser punido por isso.
O pretexto actual é que o Irão tem um programa de armas nucleares. Bem, segundo o New York Times, o Irão está desenvolvendo armas nucleares, mas os serviços de informação nos EUA, por outro lado, desconhecem esse facto. Dizem que talvez estejam. Se, de acordo com os sistemas de informação dos EUA, com os seus relatórios periódicos ao Congresso, o Irão está a desenvolver armas nucleares, seria parte de sua estratégia de dissuasão, ou seja, parte da sua estratégia para se defender de um ataque externo. Como os serviços de informação dos EUA apontam, o Irão tem muito pouca capacidade de se impor pela força. A sua despesa militar é baixa, mesmo para os padrões da região, mas tem uma estratégia de dissuasão e com razão. Está cercado por potências nucleares, que são apoiadas pelos Estados Unidos e recusaram assinar o Tratado de Não-Proliferação. Israel, a Índia e o Paquistão desenvolveram armas nucleares com a assistência dos EUA. A Índia e Israel continuam a ter um apoio substancial dos EUA para os seus programas de armas nucleares e outros programas, tais como a ocupação de parte da Síria, em violação das ordens do Conselho de Segurança. E o Irão está constantemente ameaçado. Os Estados Unidos e Israel, duas grandes potências nucleares (quero dizer, um é uma superpotência, o outro uma superpotência regional), estão constantemente a ameaçar o Irão com um ataque. Novamente, isso é uma violação da Carta da ONU, que proíbe a ameaça ou o uso da força, mas os EUA autoimunizaram-se relativamente ao direito internacional, e os seus clientes herdaram esse direito. Assim, o Irão está sob ameaça constante. Está cercado por estados hostis com capacidade nuclear. E talvez esteja a desenvolver uma capacidade de dissuasão. Não sabemos. O New York Times sabe, mas os serviços de informação não. Esse é o pretexto.
Existe alguma coisa que possamos fazer? Os EUA encaram o Irão como “a mais grave ameaça à paz mundial.” Esse foi o relatório de imprensa após o debate presidencial, o debate presidencial final sobre política externa, e descrevendo com bastante precisão o consenso, o acordo entre Obama e Romney sobre as ameaças no Médio Oriente: o Irão é a maior ameaça à paz mundial, a maior ameaça na região, por causa dos seus programas nucleares. Essa é a posição dos EUA. Qual é a posição do mundo? Bem, isso é fácil de descobrir. A maioria dos países do mundo pertence ao Movimento de Países Não-alinhados, que acabara de ter, de facto, a sua reunião ordinária, em Teerão, no Irão. E, mais uma vez, apoiou vigorosamente – vigorosamente - o direito do Irão de enriquecer urânio, como signatário do Tratado de Não-Proliferação, ao contrário de Israel e da Índia. Este é o Movimento dos Não-alinhados.
E quanto ao mundo árabe? Bem, no mundo árabe, não gostam do Irão, não gostam mesmo nada. As tensões vêm de há muitos séculos. Mas isso não é considerado como uma ameaça. Não gostam do Irão, mas não o consideram uma ameaça. Uma percentagem muito pequena no mundo árabe encara o Irão como uma ameaça, mas de todo a mais grave ameaça à paz mundial. No mundo árabe, eles reconhecem de facto as ameaças graves: os EUA e Israel. Isso é revelado por pesquisa atrás de pesquisa, feitas pelos principais órgãos de pesquisa ocidentais. Aqui, a informação é de que os árabes apoiam os EUA contra o Irão. Mas a referência não é feita relativamente às populações árabes, que são consideradas irrelevantes, mas aos ditadores. Uma das ditaduras mais extremistas, e a mais importante, do ponto de vista dos EUA, é a Arábia Saudita. A Arábia Saudita é o estado fundamentalista mais extremista no mundo. É também um estado missionário. Despende enormes esforços, de há muitos anos, para divulgar sua versão extremista Wahhabista-salafista do Islão, tudo com o apoio dos EUA. É uma ditadura, não há por lá Primavera Árabe. E os ditadores, ali e noutros emirados árabes, provavelmente apoiam a política dos EUA em relação ao Irão. E, para os EUA, e para os média dos EUA e para os comentadores dos EUA, basta que os ditadores nos apoiem. Não importa o que a população pensa. Bem, isso quanto ao mundo árabe. E é o mesmo no resto do mundo. A obsessão com o Irão é uma obsessão dos EUA, e talvez atraia alguns dos seus aliados.
A última pergunta sobre o Irão é: O que poderemos fazer sobre a alegada ameaça? Bem, há coisas que podem ser feitas. Assim, por exemplo, em 2010, chegou-se a uma solução para o problema das armas nucleares iranianas. Houve um acordo entre Irão, Turquia e Brasil para o que o Irão pudesse expedir todos os seus recursos de urânio para outro país, para a Turquia, para armazenamento. Não continuaria a enriquecer urânio. E, em contrapartida, o Ocidente iria fornecer o Irão com os isótopos de que necessita para os seus reactores de investigação médica. Era esse o acordo. Assim que o acordo foi anunciado, foi duramente condenado pelo presidente Obama, pela imprensa, pelo Congresso; houve duras condenações ao Brasil, em particular, e à Turquia, por concordarem com isto. Obama apressou-se a decretar sanções mais duras. O ministro das Relações Exteriores brasileiro estava bastante irritado com isso e lançou para a imprensa uma carta do presidente Obama em que este havia sugerido exactamente este programa ao Brasil. Obviamente, tinha sugerido no pressuposto de que o Irão nunca iria aceitá-lo e então teria outro motivo para propaganda. Bem, o Irão aceitou, portanto, o Brasil tinha de ser condenado e a Turquia tinha de ser parcialmente condenada, e ameaçados, de facto, pela implementação da política que Obama tinha sugerido. Isso poderia ser reinstituído, talvez, com alguma modificação. Isso seria uma forma de abordar o problema.
Há uma maneira muito mais ampla. Durante anos, desde 1974…

Amy Goodman: Noam, temos dois minutos.
Noam Chomsky: Ok. Houve uma proposta, desde 1974, para estabelecer uma zona livre de armas nucleares na região. Essa seria a melhor maneira de mitigar, talvez pôr um termo a qualquer que seja a ameaça que o Irão é acusado de constituir. E isso tem um enorme apoio internacional, tão grande que os EUA foram obrigados a concordar formalmente, mas acrescentando que não pode ser feito. Essa é uma questão muito actual agora. Em Dezembro passado, haveria uma conferência em Helsínquia, na Finlândia, uma conferência internacional para levar esta proposta adiante. Israel anunciou que não iria participar. O Irão anunciou, no início de Novembro, que iria participar da conferência, sem condições. Então, Obama cancelou a conferência. Nada de Conferência de Helsínquia. A razão que os EUA deram foi, quase textualmente, a razão de Israel: Nós não podemos ter um acordo de armas nucleares até que haja um acordo geral de paz regional. E isso não vai acontecer enquanto os EUA continuarem a bloquear uma solução diplomática para o conflito Israel - Palestina , como vêm fazendo há 35 anos. É nesse ponto que estamos.

Amy Goodman: Noam, queremos agradecer-lhe muito ter estado connosco, neste dia muito importante, hoje, 11 de Setembro. Têm havido um grande número de 11 de Setembro; o horror do 11 de Setembro de 2001, é claro, há 12 anos, e 11 de Setembro de 1973, no Chile, como Noam Chomsky apontou, como temos vindo a debater ao longo dos últimos dias e anos. Pode ir ao nosso site, à nossa página especial neste 40 º aniversário do golpe de Estado contra o presidente democraticamente eleito, Salvador Allende.

Noam Chomsky, dissidente político mundialmente conhecido, linguista e autor. É Professor Emérito do Massachusetts Institute of Technology, onde leccionou por mais de 50 anos.

Tradução de André Rodrigues


https://www.odiario.info