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Os desalojados

Correia da Fonseca  :: 12.01.14

As televisões mostraram consequências das violentas intempéries recentes: telhados arrancados, tectos arrombados, mobiliário destroçado, lares desfeitos, os seus ocupantes na angustiante condição de desalojados. Faltam mais reportagens sobre outros desalojados ainda mais numerosos: os que a política das troikas expulsa das suas casas e condena a viver nas ruas, cujo tecto as intempéries já não podem destruir, porque já não têm tecto.

Do Norte de Portugal, sobretudo daí, chegaram aos nossos televisores as imagens das destruições provocadas pelo mau tempo: pelas inundações não apenas das ruas mas também de lojas e residências ou pelos efeitos arrasadores do vento que terá passado a cerca de cem quilómetros/hora. E chegaram também as palavras desoladas dos que por vezes em poucos minutos haviam sofrido a perda do que tinha sido conseguido em anos de trabalho, em certos casos porventura ao longo de uma vida inteira. Casos especialmente pungentes eram os dos que tinham visto os seus lares desfeitos: telhados arrancados, tectos arrombados, mobiliário destroçado, tudo num conjunto que se tornara inabitável e por isso lançara os seus ocupantes na angustiante condição de desalojados, isto é, de gente sem poiso certo, sem o aconchego das quatro paredes habituais que acolhem a organização dos pequenos universos que dão sentido e sabor aos quotidianos de cada um. As reportagens vieram dizer-nos então que na generalidade dos casos essa desprotecção será remediada, pelo menos temporariamente, pela intervenção de órgãos autárquicos ou graças a alguma solidariedade familiar, e ainda nos falaram de expectativas a prazo mais distante segundo as quais poderá haver apoios estatais, talvez comunitários, em face do carácter catastrófico do acontecido. Bem se adivinha que esta última parte tem um carácter mais duvidoso, talvez improvável, mas ainda assim parece certo que do conjunto destas perspectivas, as mais seguras e as mais incertas, decorre o sentimento de que as vítimas do temporal, e designadamente as que por força dele ficaram desalojadas, não terão ficado inteiramente entregues à sua má sorte e condenadas a pernoitar nas ruas ainda que só por uma noite e com o mau tempo a conceder a alguma trégua.
Gente
Infelizmente, porém, acontece que há por este país fora outros desalojados que não o são por efeito de ventos fortes e de chuva grossa mas sim de outras tempestades: são os chamados «sem-abrigo», de facto desalojados a título permanente. Deles costuma falar-nos a televisão por alturas do Natal e seus arredores para depois aparentemente os esquecer ao longo do resto do ano. Agora, durante estes recentes dias tempestuosos, não dei conta de que nos tenha falado deles, omissão decerto justificada pela circunstância de não terem sido apanhados por ventos fortes e chuvas intensas, mas ainda assim deu-me para lembrá-los, o que decerto aconteceu a muito mais gente. É que a um desalojado, isto é, a alguém que ficou sem casa onde abrigar-se mesmo num dia de céu sem nuvens e temperatura amena, decerto sucede, quando chegados o Inverno e as noites geladas, sentir a mordedura do frio e o desconforto das roupas molhadas pela chuva. Ora, é sabido que o tempo péssimo não desabou apenas sobre as localidades depois visitadas pelas reportagens televisivas sempre em busca de catástrofes e que, pelo contrário, flagelou também vilas e sobretudo cidades que há muito integraram os «sem-abrigo» nas suas paisagens nocturnas. Por isso se justificará fazer algumas perguntas: que foi feito deles durante estas noites ásperas?, como se houveram?, quem lhes evitou o pior? São gente, são cidadãos, são credores de protecção mínima. É possível que em certos lugares tenham sido tomadas providências preventivas, mas teria sido interessante que uma equipa de reportagem tivesse sido destacada para nos informar do que terá sido feito. E, de caminho, que nessa reportagem tivesse ficado claro que a existência de milhares de «sem-abrigo», isto é, de cidadãos de facto desalojados em consequência de causas que é necessário e urgente conhecer, é inaceitável num Estado que se quer civilizado e europeu ou, por outras palavras, decente e honrado. Para mais, é sabido que o número de portugueses sem casa aumentou nos últimos tempos, sendo duvidoso que a totalidade deles tenha podido ser acolhida nas casas de pais e avós mesmo que com consequente degradação das condições de habitação. Mais dúvidas, pois, mais interrogações. Para as quais a televisão bem podia cuidar de procurar resposta.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2093, 9.01.2014


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