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Incógnitas da Ucrânia*

Luís Carapinha  :: 15.04.14

A preocupação imperialista é agora levar o golpe até ao fim e segurar o poder fantoche em Kiev. Tanto mais que a pesada factura económica (e social) está em cima da mesa e a operação de resgate do FMI em andamento.

Permanece instável e imprevisível a situação na Ucrânia, decorrido mais de um mês da consumação do golpe de estado da Maidan, em Kiev, naquela que é – não o esqueçamos – talvez a mais grave irrupção do neofascismo nas últimas décadas. Desde então, nunca tanto se ouviu falar de direito internacional e de soberania e integridade territorial da boca dos responsáveis dos EUA e dos governos da UE, incluindo o directório de Bruxelas. Não nos levemos porém ao engano: aqueles que apontam o dedo acusador à Rússia pela «anexação» da Crimeia são os mesmos que incansavelmente instigaram a divisão e escalada de tensões na Ucrânia, apostando nas forças mais retrógradas do nacionalismo ucraniano, e empurraram o país para a fractura e o abismo. Os mesmos que ao longo dos últimos 20 anos prosseguem a cavalgada da NATO para Leste e desenvolvem o projecto de escudo antimíssil para decapitar a capacidade de dissuasão nuclear da Rússia (e China), colocando em causa a segurança mundial. Que sistematicamente violam e espezinham a carta da ONU e as resoluções do CS. Basta aqui lembrar a agressão e desmembramento da Jugoslávia e posterior secessão do Kosovo da Sérvia.

Concertada e conscientemente, o imperialismo fez tudo para abrir a caixa de Pandora na Ucrânia. Financiando e organizando grupos armados neofascistas e insistindo na provocação, agiu como elefante em loja de porcelana.

A preocupação é agora levar o golpe até ao fim e segurar o poder fantoche em Kiev. Tanto mais que a pesada factura económica (e social) está em cima da mesa e a operação de resgate do FMI em andamento.
Legitimar o golpe de 22-23 de Fevereiro e impor a aceitação do novo poder no Leste e Sul da Ucrânia é o objectivo supremo que se espera concluir com as eleições presidenciais anunciadas para 25 de Maio. Organizações como a OSCE, sempre escorreita na tarefa de parametrizar a democraticidade dos actos eleitorais – conforme as conveniências em causa –, não dão mostras de inquietação. Mas como será possível assegurar a realização de eleições limpas e justas quando em metade da Ucrânia não se aceita a autoridade do poder ilegítimo? E os bandos armados pró-fascistas continuam a actuar impunemente (ainda, nesta segunda-feira, membros do Sector de Direita assaltaram o Congresso dos Juízes na capital e agrediram o seu presidente) e se mantêm as ameaças políticas e a perseguição anticomunista? Apesar da bombástica liquidação de uma das figuras mais truculentas – demasiado indigesta – do Sector de Direita, a verdade é que a organização paramilitar neofascista, catapultada pela Maidan, se transformou em respeitosa força política e o seu líder, Iároch, já é candidato presidencial registado. No centro de Kiev, a polícia evacuou finalmente um dos seus antros armados, mas não houve prisões. Os membros da seita foram enviados para um campo de treino militar nos arredores de Kiev, engrossando as fileiras da reconstituída Guarda Nacional. Uma medida oportuna no momento em que Kiev acaba de declarar o início de uma operação «antiterrorista» contra as forças separatistas.

Um comunicado do MNE russo de 7 de Abril alerta para o envio da Guarda Nacional para o Leste da Ucrânia, a par de forças do Sector de Direita e mercenários norte-americanos da agência privada Greystone.
Ao que parece a tropa de choque do golpe de estado pode ainda revelar-se muito útil para aplacar o descontentamento que grassa no país. Tudo isto quando, adicionalmente, os ucranianos aguardam pela enxurrada de austeridade prometida pelo primeiro-ministro em exercício, Iatseniúk, em fidelidade às exigências do FMI (que se tenta ao máximo adiar para depois de 25 de Maio).

Entretanto, a NATO anunciou a suspensão das relações com a Rússia. O G7+1 passou a G8-1. EUA e UE ameaçam alargar as sanções contra Moscovo e de Washington chega o aviso: a escalada na Ucrânia pode comprometer a economia mundial. O cinismo bate recordes na crise da Ucrânia sem fim à vista.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2106, 10.04.2014


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