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Marines do Africom de Morón a Trípoli*

Carlos Lopes Pereira :: 10.08.14

A agressão militar da NATO, que levou ao derrube do regime liderado por Muhamar Kadhafi e ao seu assassinato, instalou o caos na Líbia. A economia daquele que ainda há pouco era um dos países mais ricos e desenvolvidos de África afunda-se, num quadro de guerra civil e de desagregação do Estado. O imperialismo procura resguardar e pilhar as zonas de exploração de petróleo e os portos por onde é exportado. Quanto ao resto – a destruição de um país e a condenação do seu povo à miséria e à barbárie – é apenas um dano colateral.

Os Estados Unidos reforçaram a unidade de intervenção rápida estacionada na base de Morón de la Frontera (Sevilha), em Espanha. A pretexto do agravamento da situação na Líbia, o Africom – comando militar norte-americano para África – aumentou de 500 para 850 os soldados do seu contingente na Andaluzia.

A 27 de Julho, 200 marines do dispositivo de Morón, transportados previamente para a base aeronaval de Sigonella, na Sicília, e dali para Trípoli, deram cobertura à evacuação, por estrada, para Tunes, de 150 diplomatas e funcionários da embaixada dos EUA na capital líbia. O comboio foi protegido, do ar, por caças-bombardeiros F-16 e aeronaves MV-22 Osprey (uma mescla de avião e helicóptero), pertencentes à força de reacção rápida do Africom.

Esta unidade especial foi criada pouco depois de, em Setembro de 2012, milicianos islâmicos terem invadido o consulado norte-americano em Bengasi e abatido o embaixador norte-americano, Christopher Stevens, e três agentes de segurança.

Segundo o jornal El Mundo, de Madrid, a acção da força de intervenção rápida do Africom, na Líbia, em Julho, foi a quinta realizada no continente africano no último ano e meio. Duas delas, das mais importantes, ocorreram na República Centro-Africana e no Sudão do Sul.
O exemplo da retirada do pessoal diplomático norte-americano da Líbia, fugindo dos combates em Trípoli e Bengasi, foi seguido por outras representações ocidentais, que têm reduzido ao mínimo o corpo diplomático e aconselhado os respectivos cidadãos a deixar o país. As Nações Unidas diminuíram igualmente a sua presença, assim como as Filipinas e a Índia, que dispunham de milhares de médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar a trabalhar em hospitais. Grandes companhias petrolíferas, como a francesa Total, a italiana ENI e a espanhola Repsol, evacuaram também os seus técnicos.

Além de diplomatas e especialistas estrangeiros, milhares de cidadãos líbios e de expatriados estão a tentar chegar por estrada à vizinha Tunísia. Em Ras el-Jdir, o principal posto fronteiriço entre os dois países norte-africanos, havia no início desta semana cerca de 10 mil pessoas à espera de atravessar a fronteira.

Estratégia de dominação

Nas últimas semanas, a situação na Líbia deteriorou-se nos planos militar, político e económico. Generalizou-se a violência incontrolada, perante a impotência das «autoridades» que já não controlam a maior parte do território do Estado em desagregação. No Sul, transformado num paiol a céu aberto, bandos de «jihadistas» – em geral criados e financiados por serviços secretos ocidentais – utilizam o território para provocar e desestabilizar países da região como a Argélia e o Mali.

Em Trípoli e na segunda cidade, Bengasi, no Leste, prosseguem combates entre facções inimigas, com recurso a armas pesadas. Desde meados de Julho, contabilizam-se centenas de mortos e feridos. Em resultado de um obus «perdido» nos confrontos entre milícias rivais pela conquista do aeroporto internacional da capital – cujas infra-estruturas estão quase totalmente destruídas –, lavra sem fim à vista um gigantesco incêndio numa área de reservatórios de petróleo e gás. Os prejuízos materiais são incalculáveis.

O novo parlamento líbio, saído das eleições de 25 de Junho, reuniu-se pela primeira vez, em Tobruk, a mais de mil quilómetros de Trípoli, junto à fronteira com o Egipto. Apesar dos apelos à unidade, ficou patente a divisão entre deputados «nacionalistas», agora em maioria, e «islamistas», que aliás boicotaram a sessão e convocaram uma outra reunião para a capital…

Neste quadro de guerra civil, afunda-se a economia daquele que ainda há pouco era um dos países mais ricos e desenvolvidos de África.
Antes da agressão militar da NATO, em 2011, que levou ao derrube do regime liderado por Muhamar Kadhafi e ao seu assassinato, a Líbia produzia um milhão e meio de barris de petróleo diários para exportação – era o primeiro exportador africano. Nestes três anos, a produção chegou a baixar para menos de 150 mil barris por dia, embora agora, depois dos acordos com as milícias que bloqueavam os principais portos, ela tenha duplicado e esteja a crescer.

O actual caos líbio não é fruto do acaso. É antes consequência da permanente ingerência belicista do imperialismo norte-americano visando a exploração dos trabalhadores, a submissão dos povos, a pilhagem das suas riquezas.

Estratégia de dominação imperial que, é evidente, não se limita à África, como o confirmam, nestes dias – do Afeganistão ao Iraque, da Síria à Palestina mártir – as bárbaras agressões dos Estados Unidos e seus aliados, ameaçando uma vez mais a paz mundial.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2123, 7.08.2014


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