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Carta de Praga: actualidade política e lutas populares na Chéquia

OTA LEV :: 12.08.14

Interessantes notícias da República Checa, confirmando que em todo o lado, com maiores ou menores dificuldades, se levantam vozes e movimentos cívicos contra a criminosa ofensiva imperialista actual. Nos dias de hoje a luta pela paz é uma tarefa central dos povos de todo o mundo.

O partido social-democrata (PSD), vencedor das eleições legislativas que tiveram lugar há dez meses, decidiu formar um governo de coligação com o movimento que se apresentou na campanha eleitoral como “Acção dos cidadãos descontentes” (ACM), cujo representante é um dos maiores empresários e milionários checos – o ACM tornou-se o segundo partido mais forte na Câmara dos deputados -, e com o Partido Cristão Democrata (PCD), o mais pequeno partido representado na Câmara, com ligações à Igreja católica romana e fortemente anticomunista. O PSD certamente saberia que ao formar uma tal coligação deixaria de ter quaisquer condições para cumprir as promessas feitas aos cidadãos antes das eleições, sobretudo no que diz respeito à lei relativa às chamadas restituições de igrejas, que é bem mais uma lei de doação de bens às igrejas, sobretudo à Igreja católica, que graças a ela se tornaria o maior proprietário de bens no país onde existe a maior percentagem de ateus.
Para além disto, o referido partido mais pequeno alcançou uma vitória no decurso das negociações que conduziram à constituição da coligação governamental, ganhando posições de prestígio – o ministério da cultura, o ministério da agricultura (estes dois ministérios assumem uma certa responsabilidade no que diz respeito à transferência de bens – terras, florestas, edifícios – que se encontram actualmente nas mãos dos municípios ou do Estado, para a Igreja) e um lugar de vice-primeiro-ministro.

No que diz respeito à política interna, o governo dirigido pelos social-democratas conseguiu rever certas medidas e leis fortemente anti-sociais aprovadas no passado pelos governos de direita. O governo concretizou, por exemplo, o aumento do salário mínimo, retomou a regulamentação relativa ao aumento regular das pensões, coisa que os governos de direita não respeitavam, anulou as taxas relativas às consultas médicas, as taxas pagas por estadia no hospital, as taxas pagas na farmácia por cada receita aviada, introduzidas na década passada, etc.

Quanto à política externa, o PSD colabora estreitamente com os partidos social-democratas da Europa ocidental, é um fiel partidário da União europeia e da NATO. Após a sua tomada de posse o antigo presidente da república Václav Havel proclamou que era favorável à dissolução dos dois pactos militares. Pouco depois da dissolução do Pacto de Varsóvia os representantes da República checa iniciaram contactos com a NATO e em 1999, sob governo do PSD e sem qualquer referendo – que o PCBM e grande parte da população da República checa reclamavam – incorporaram-se na NATO. O que significa que, após os trágicos acontecimentos na Ucrânia, a direita checa – incluindo o chefe da diplomacia, representante do PSD – difundiu amplamente a propaganda dos Estados Unidos (EUA), da União europeia (UE) e da NATO.

O chefe do TOP 09 - o partido mais direitista representado no Parlamento checo – o antigo ministro dos negócios estrangeiros M. Schwarzenberg, actual deputado e chefe do comité que se ocupa dos assuntos exteriores na Câmara dos deputados, empreendeu juntamente com outros políticos checos uma incursão à capital ucraniana para apoiar os manifestantes antigovernamentais e antidemocráticos, tal como o fizeram igualmente políticos americanos e ocidentais, para se ingerir nos assuntos internos do povo ucraniano. Depois do putsch governamental e depois do referendo na Crimeia através do qual a grande maioria do povo (tradicionalmente russo) decidiu juntar-se à Federação russa, a feroz propaganda anti-russa e anti-Putin intensificou-se. M. Schwarzenberg e outros comparam Putin a Hitler, o PSD e o governo checo aceitam e apoiam as sanções contra a Federação russa proclamadas pela UE e pelos EUA.

Os nossos media esquecem-se de nos recordar que em 1995 Clinton, discursando perante os chefes militares dos EUA, proclamou que após o colapso da União Soviética tudo deve ser feito para a desintegração de Federação russa, para que a Rússia nunca mais volta a ser uma potência mundial. Era o tempo em que à frente da Rússia figurava o presidente Yeltsin, um bêbedo, que aceitou a privatização sem limites e o caos ilimitado do seu país. É necessário referir que os sucessores de Clinton prosseguem a mesma estratégia no que diz respeito à Federação russa.
Os nossos media esquecem que no início dos anos noventa do século passado os presidentes americano e soviético acordaram que a NATO não iria expandir-se em direcção a oriente. Esqueceram que após a tentativa de derrube do regime de Fidel Castro em Cuba os soviéticos tentaram instalar mísseis nessa ilha em 1962. Os responsáveis americanos estavam dispostos a desencadear uma guerra, o que obrigou os responsáveis soviéticos a renunciar a essa intenção.

A partir dessa altura, desde há mais de meio século, os EUA aplicam contra CUBA as mais severas sanções económicas e políticas. A situação actual assume algumas semelhanças. Desde Bismarck que o ocidente procura separar a Ucrânia da Rússia e atraí-la para Oeste. No momento actual o ocidente deseja que a Ucrânia abra o seu mercado a favor dos produtos ocidentais. Por outro lado, a riqueza natural ucraniana é o que atrai o interesse dos países ocidentais. E para a NATO e os EUA a possibilidade de construir bases militares na Ucrânia abre a perspectiva de lançar na direcção de Moscovo mísseis que podem atingir a capital russa em poucas dezenas de segundos.

É surpreendente que, nestas circunstâncias, a Rússia conduza uma política externa tão calma. Na República checa, de entre os partidos com representação parlamentar, apenas o Partido Comunista da Boémia e Morávia (PCBM) difunde no Parlamento, e entre o público, bem como através do único jornal diário de esquerda - Haló noviny – a verdade sobre os acontecimentos que se desenvolvem na Ucrânia, em Gaza, na Síria e em outros lugares do mundo. Certas iniciativas cívicas que compreenderam que, onde se difunde a mentira e a ameaça de uma nova catástrofe mundial, ficar calado é trair, e levantam a sua voz: organizam conferências públicas e manifestações de protesto e apresentam as suas posições. Mas a voz do PCBM e das iniciativas cívicas que dirigem reclamações e apelos ao Parlamento, ao governo e à Presidência da república não tem reflexo numa mudança da política externa do país.

PRAGA: HAPPENING DE PROTESTO FRENTE À EMBAIXADA DOS EUA

Em 28 de Julho, por ocasião do centésimo aniversário do desencadear da Primeira Guerra Mundial, dez iniciativas cívicas – incluindo a Aliança do trabalho e da solidariedade – organizaram um happening sob a palavra de ordem “Os europeus contra a guerra”. Um pequeno cortejo desfile de protesto percorreu Praga tendo à cabeça uma carroça d transporte de doentes onde se sentava o “Bravo Soldado Chveik”, incapaz de andar mas disposto a bater-se contra Moscovo, empurrado pela sua senhoria (personagem satírica da literatura checa).

O cortejo deteve-se frente ao edifício da presidência do governo, onde denunciou as posições oficiais checas favoráveis aos EUA e à UE. Depois o cortejo prosseguiu pelas ruas até ao edifício da embaixada dos EUA, frente ao qual tinha sido colocado um estrado. Sobre o estrado foram apresentados um sketch político (um diálogo cómico entre Chveik e a senhoria), três canções políticas e finalmente uma mensagem dirigida aos cidadãos americanos e aos povos do mundo.

Todo este programa foi concebido especificamente para esta ocasião, e foi acompanhado pela porta-voz da iniciativa cívica “Não às bases!”. Entre outros, o representante do “Movimento pela democracia directa” declarou: “Nós desejamos que o conflito na Ucrânia, essa guerra civil, não se venha a tornar ainda mais monstruosa, uma guerra mundial com armas nucleares. É por isso que exigimos que os representantes dos EUA, da Rússia, da China, da Ucrânia e da UE se sentem à mesa de conferência e resolvam efectivamente a situação, não em função dos seus interesses de grandes potências mas em função do interesse pela boa vizinhança e pela paz, que é aquilo que existe de mais precioso para os povos do mundo.”

A representante da iniciativa cívica “Stop às restituições a favor das Igrejas” pronunciou um discurso muito comovente. Criticou os media que promovem o ódio massivo dirigido no presente contra a Rússia, país rico em matérias-primas. Disse que os senhores do mundo actual pensam que é inadequado que um país possua tais riquezas; é por isso que querem apropriar-se do seu território para o dividir entre os seus favoritos. Este desmantelamento planificado da Rússia esconde-se por detrás de palavras de ordem como humanitarismo, defesa dos direitos do homem e democracia. Mostrou, seguindo esta ordem de ideias, que as emissões das televisões oficiais contêm todos os atributos da propaganda de guerra. É por essa razão que ela se dirigiu aos povos do mundo, para que cada um de nós desmascare a propaganda dos poderosos e participe nas actividades cívicas. Se assim for, as vagas dos protestos cívicos irão propagar-se através da Europa e alcançarão a América. “Porque apenas a nossa determinação comum e a nossa responsabilidade partilhada no que diz respeito a este planeta pode conjurar o perigo da guerra.”

A manifestação de protesto que decorreu frente à embaixada dos Estados Unidos aprovou uma mensagem dirigida ao povo dos EUA e aos povos do mundo. Nela pode ler-se: “Caros amigos, respeitáveis cidadãos dos EUA, dirigimo-nos a vós pedindo que presteis atenção ao que se passa na Ucrânia…na Ucrânia alastra a guerra civil que mata as pessoas, incluindo as mulheres e as crianças. Quase parece que a Europa e os Estados Unidos aguardam uma ocasião propícia para alargar este conflito a uma guerra contra a Rússia, o que significaria um sofrimento inimaginável para todos nós. É possível impedir o conflito mundial. O incentivar do ódio entre os povos, as provocações no sentido da guerra não podem ter qualquer sentido positivo. Pelo contrário, faz sentido que nos levantemos contra os poderosos que manipulam, exploram, distorcem a informação e ocultam os seus verdadeiros objectivos, em que os lucros constituem a motivação essencial. Vós podeis impedir uma nova Guerra, vós podeis salvar a democracia e a paz. Enquanto cidadãos livres tendes a força de vos opor em todo o mundo às injustiças e às mentiras, sobretudo lá onde elas podem tornar-se na origem de sérios conflitos. Unamo-nos na resistência contra a irresponsabilidade e contra a violência. Unamo-nos no esforço por uma política honesta e democrática.”


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