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Uma estória com buracos*

Correia da Fonseca :: 15.08.14

Se o papel dos media que temos fosse informar, a situação seria bem diferente. Porque basta mostrar com verdade um facto para desmontar horas de propaganda.

Aconteceu num desses canais informativos apenas acessíveis a quem pague um pouco mais que o mínimo exigido. De um lado e de outro do jornalista que conduzia o programa estavam uns quatro sujeitos em quem decerto é mais ou menos reconhecida a condição de «expert» em questões internacionais, e naquele dia a questão internacional dominante era, pelo menos ali, o Caso Ucraniano, chamemos-lhe assim. Como seria de esperar, formara-se quase um consenso em torno de aspectos essenciais ou assim considerados, a saber: a culpa de tudo quanto já acontecera e viria a acontecer é da Rússia de Vladimir Putin, esse ex-comunista de duvidosa regeneração, e dos ucranianos russófonos que, decerto por intoxicação ideológica, optaram por quebrar laços com o governo de Kiev, esse sim, verdadeiramente democrático e, mais e melhor que isso, decidido a entregar a Ucrânia aos braços acolhedores da União Europeia e dos seus prometidos milhões. E estava a conversa a decorrer bem, sem contradições de maior, embora parecesse notório que um dos participantes se instalara mais numa discreta reserva que numa intervenção muito activa. Ou talvez, quem sabe? fosse menos convidado a intervir. Era um sujeito por mim conhecido noutros e diferentes tempos, quando ele tinha muito mais cabelo e de outra cor, jornalista de rara e aliás reconhecida competência como observador da vida política internacional. Por isso, decerto, era então frequentemente convidado a surgir na TV para informar e esclarecer, para desmentir imposturas e repor verdades, apesar do seu perfil bicolor, digamos assim: verde nos futebóis e vermelho noutras matérias. De seu nome José Goulão.

Quando os factos denunciam

Ora, sucedeu que a dada altura a conversa derivou para o já semi-esquecido caso do avião da Malaysia Airlines abatido quando sobrevoava território da Ucrânia e, mais exactamente, do Leste ucraniano que decidiu separar-se do poder criptonazi instalado em Kiev. E, acerca deste concreto e importante ponto, a opinião instalada naquele estúdio era praticamente unânime: o avião foi abatido por um míssil russo disparado do solo pelos pró-russos que, como muito bem se sabe, são gente pouco dada a respeitar os direitos humanos de quem viaja da Holanda para a Austrália. Parecia, pois, que todos ali estavam de acordo quanto a essa questão quando o tal participante de cabelos agora brancos e presumivelmente em queda saltou do quase mutismo a que parecia condenado para interpor protesto e contradição. Começou por aquilo a que poderia chamar-se uma pergunta retórica: já ali havia sido lavrada sentença sobre o caso? Não lhe responderam os outros, talvez embatucados, e ele prosseguiu o que bem poderá designar-se por depoimento assente em factos averiguados, sim, mas pouco ou nada conhecidos. Lembrou ele um dado fundamental mas raramente divulgado: que na fuselagem do avião abatido foram detectados buracos de balas que nada podem ter a ver com a versão, hiperdivulgada pelos «media» ocidentais, de um míssil terra-ar. Que tais buracos e tais balas só podem ter resultado de um ataque cometido por um «caça» ao serviço de Kiev, pois nem os insurrectos dispõem de força aérea nem sequer as fontes informativas «livres e democráticas» alegam andarem aviões russos a passear por ali. Estava destruída, pois, a versão responsabilizadora dos ucranianos maus e ilibatória dos ucranianos bons, isto é, a peça propagandística que durante semanas e semanas foi repetida para responsabilizar os russófonos pela morte de perto de trezentos inocentes e para lhes colar a etiqueta de violadores de direitos humanos. Tornava-se também entendível o motivo da relutância dos insurrectos em entregar aos técnicos (qualificação porventura a pedir aspas) ocidentais os destroços do aparelho abatido: talvez os tais buracos denunciadores e eloquentes escapassem à argúcia desses rapazes, talvez até alguns pedaços do avião pudessem perder-se pelo caminho. Se bem me lembro, o debate pouco tempo sobreviveu após a intervenção de Goulão. Mas o importante estava feito. E bem.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2124, 14.08.2014


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