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De reformas em renúncias, o molho americano espalha-se sobre a Ucrânia

Jean-Paul Basquiast :: 27.12.14

A nova ministra ucraniana das Finanças, Natalie Jaresko, formulou as primeiras linhas de orientação no que diz respeito à optimização da despesa pública. O esquema apresentado ao chefe do governo prevê o abandono dos cuidados médicos gratuitos, do ensino gratuito e de outros benefícios sociais. E isto é apenas o início da americanização da Ucrânia.

A americanização da Ucrânia
Vale a pena lembrar que os direitos dos cidadãos a estas prestações gratuitas são garantidos, sob certas condições, à maioria dos cidadãos da União Europeia, da qual a Ucrânia pretende sempre aproximar-se. Lembremos também que se tratava de conquistas do comunismo das quais os habitantes da ex-URSS – e nomeadamente os Ucranianos, sem excepção, fossem ou não russófonos – beneficiaram durante quase um século.

Agora, entretanto, tornou-se demasiado dispendioso educar e cuidar dos Ucranianos, decidiu a ministra das Finanças. Para tal fim terão de passar a dirigir-se a instituições privadas pagas (supondo que no estado de descalabro em que se encontra actualmente a Ucrânia ainda restam algumas em condições de funcionamento). Mas o programa da ministra não fica por aí. Alinha com o conjunto dos programas que a troika de Bruxelas tenta, não sem resistência, impor à Grécia (e talvez à França se esta persiste em “não querer empreender reformas”): privatização do conjunto dos serviços públicos e dos grandes equipamentos, apelo aos investidores internacionais (entre os quais os famosos fundos abutres americanos que arruinaram a Argentina) a que preencham esse espaço, eliminação sistemática de todas as barreiras de protecção aduaneiras e regulamentares.

Para além disso a privatização, na Ucrânia, conduziu à substituição do essencial das forças armadas, mal equipadas e pouco inclinadas a combater contra os Ucranianos do leste, por mercenários privados. É verdade que na sua maioria pesam pouco no orçamento de Kiev, uma vez que são financiados por dólares americanos canalizados através de complexos atalhos (a diplomacia dos serviços secretos e dos dólares através da qual Washington tem sempre conduzido as revoluções coloridas, que tanta satisfação têm proporcionado a grandes democratas europeus, como o inefável Bernard Henry Lévy).

Registemos entretanto que, num país normal, tais complexos atalhos se aparentariam à corrupção, corrupção contra a qual o presidente Petro Poroshenko proclamou alto e bom som que iria conduzir uma luta implacável, inspirando-se nos “exemplos estrangeiros”.

Dois ministros americanos no governo ucraniano. Porque não três, ou mesmo mais?
Não deve ser necessário recordar que Natalie Ann Jaresko, nascida a 24 de Abril de 1965 em Chicago (Illinois, EUA) é uma política americana de origem ucraniana, directamente saída de Wall Street. Diplomada pela Universidade de Harvard e pela universidade de Chicago, ocupou diversos cargos no Departamento de Estado dos EUA, o último dos quais o de chefe da secção económica da embaixada dos EUA na Ucrânia. É co-fundadora e directora-geral dos fundos de investimento Horizon Capital. Para poder exercer as funções de ministra das Finanças sem dar lugar a muito falatório, acaba de lhe ser expeditamente atribuída a nacionalidade ucraniana.

Não está só. Petro O poroso nomeou igualmente ministro da Saúde um certo Alexandre Kvitashvili, consultor americano de origem georgiana de diversos organismos internacionais para as áreas da saúde. Acaba também de lhe ser atribuída nacionalidade ucraniana. Poderá ser um útil conselheiro da sua compatriota (duplamente compatriota, americana e a partir de agora ucraniana) acerca da melhor forma de eliminar serviços públicos de saúde (tal como o fez anteriormente em África, com grande proveito para o vírus Ébola) melhorando ao mesmo tempo o nível sanitário da população.

Sugerimos que pelo menos uma terceira personalidade americana, vinda desta vez directamente do Departamento de Estado, seja nomeada para as funções de ministro dos Negócios Estrangeiros. Desse modo a ligação entre os dois governos seria ainda mais fluída.

Marie Harf, a porta-voz do Departamento de Estado americano, desmentiu vigorosamente os rumores, que classificou de ignóbeis, segundo os quais o dito departamento de Estado e nomeadamente o seu chefe John Kerry teria desempenhado um papel, ainda que ínfimo, nestas nomeações.

É certo que Kerry não é visto em Kiev há pelo menos… 24 horas, ocupado como andou em revigorar a cada vez mais claudicante vontade dos governos europeus de prescindirem do gasoduto South Stream. Estes governos, vá-se lá saber porquê, parecem não acreditar que as importações de gaz de xisto liquefeito oriundas dos EUA poderiam facilmente substituir o gás russo.

Jean-Paul Baquiast

http://www.vineyardsaker.fr/2014/12/10/de-reformes-en-renoncements-la-sauce-americaine-setale-sur-lukraine/#more-8717


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